A bicicleta, a coruja e a noite

Emanuel Madeira

Há uma imensidão, um cheio de profundo fundo, minha alma não alcança este seu fundo. Fundo, mas tão fundo, cano de esgoto sem rumo, em direção às minhocais profundezas do mundo. Ó, mundo, este que revela raso na imensidão.

No meu andar pela praça, ainda com o lusco-fusco do fim da tarde, há uma, duas, sete corujas na minha volta semanal de bike. No meio do caminho, as pernas começam a se incomodar. No fim já não sou mais eu, e sim a adrenalina por dentro dos canos-veia que movimentam meu corpo-máquina, rodando no asfalto frio do fim da tarde.

O que se revela é a paz do movimento, no rumo da força há combustão, motivação para escrever, e deixar a marca imutável do que eu mais profundamente sinto.

A respiração que arfo é um alívio, sim, meu corpo reage enquanto a mente tenta conexão para fora das grades do pátio.

Não sou banda larga. O que se revela diante de mim é um foco para o agora. É ele quem me impulsiona para o que será. O tempo dirá, que será, será, foco presente, já!

As corujas me observam pela grade. Uma ou outra cochilam, são pequenas, mas como sempre captam nossa atenção por suas lentes, que fixamente prestam atenção em nós.

Na quinta volta, o movimento já constante, o sereno da noite caindo, e a bicicleta já diminuindo de marcha. É hora de ir para a casa, sair da polaridade do movimento para a do descanso.

Olho mais uma vez para as corujas, mas já não há mais nenhuma. Todas rumaram às suas árvores, galhos, tocas, lares.

Noite serenou junto com o frio, nessa imensidão à minha volta, só o silêncio pede espaço. Brilha uma estrela sob minha cabeça, gelado o tempo que aqui se finda.

EMANUEL MADEIRA é natural de São José do Rio Pardo. Cronista do Ojornalzinho e poeta nas horas vagas, seus temas giram em torno de música-cinema-literatura, enquanto sobrevive na trajetória do mundo-cão cotidiano. Tudo pode dar certo é sua primeira coletânea de crônicas.