A Copa & a vida

Sérgio Rodrigues

Entre as muitas propriedades de uma Copa do Mundo, a mais subestimada é a de ser um marcador temporal da vida coletiva, uma espécie de metrônomo existencial. Nasci em 1962, ano de bicampeonato no Chile, e o tri no México (não quero esnobar, é só minha primeira memória futebolística) iluminou a infância inteira. O caminho depois disso foi acidentado, tenso, normal - adolescência.

Por aí seguiu o jogo, atravessando séculos, montanha acima ou ladeira abaixo. Certezas temos poucas, além da morte no fim. E até lá, de quatro em quatro anos, a Copa.

Pode acontecer de pular um ou outro degrau, a vida também pula. Nos anos 1940, a Segunda Guerra engoliu duas Copas lindas, aquelas em que Leônidas da Silva parecia destinado a ser Pelé antes de Pelé - como Alice parecia destinada a se casar comigo e ter cinco filhos, mas não o fez. Coube à Terceira Guerra tragar a Copa de 2038.

Já em 2042 a tradição foi reatada, tendo por país-sede uma Nova Zelândia milagrosamente livre de radiação. Hoje não há motivo para duvidar que a velha mágica vai se repetir na Nigéria em 2046. Se eu mesmo resistirei até lá, aí é outra história. O pensamento não dói além da conta, e chego a tirar consolo da ideia de que existe Copa após a morte. Já comecei a organizar os arquivos, meu legado.

arte: Camila Kohn

Caminho entre velhas edições de Placar de páginas quebradiças, pilhas sebentas de álbuns de figurinhas (nem todos completos, sempre tem aquele craque encrenqueiro, mas o mais perto disso que uma pessoa normal pode chegar), paredes cobertas de flâmulas corroídas por traças, murundus de bandeiras desbotadas e camisas cheirando a naftalina. Entre esses acidentes geográficos, garatujo pegadas de euforia e depressão no chão empoeirado.

Vejo circularem pelo cômodo versões de mim em diferentes épocas. Reparo que todas parecem contentes de, sob o pretexto do interesse compartilhado no tema maior e constante, poderem se abster de julgar umas às outras. Qual seria o sentido de uma briga generalizada, a essa altura? Fazer o balanço final, apurar um saldo impossível?

Tenho um acesso de tosse. Outra pergunta se insinua no ar pesado: quanto dessa covardia acompanhou a história desde o início? Quanto de minha paixão pela Copa foi renúncia e medo? Afugento a ideia. Essa, sim, dói.

No centro do quarto, destaca-se o armário decorado com pôsteres de equipes campeãs que abriga o museu de mídias obsoletas - película, videocassete, DVD, pendrive. Tomado por fungos, o trambolho é um monumento à derrota de uma boa intenção: a de remar contra a maré descorporificadora dos tempos, protegendo os filmes oficiais da Copa e a íntegra de suas principais partidas da eventualidade de uma pane digital do mundo.

O aposento apinhado de memórias agrava minha asma e me obriga a duplicar as bombadas, fazendo disparar o coração. Revivo pela enésima vez o cruento rito de passagem de 1982 - a melhor das Copas, a pior das Copas -, que me lançou na idade adulta transformado num cético amargo. Só anos depois eu entenderia que um ciclo de ciclos tinha se fechado ali. Algo sempre morre em nós nessa hora, mas padrões seriais têm o condão de nos lembrar que, fora a morte literal, nada é definitivo.

Nunca mais vi Alice, que se mudou para Goiânia. Casei com Marília. Agonizou e morreu a ditadura militar que tinha aprisionado o Brasil desde o meio do caminho entre a Copa do Chile e a da Inglaterra. Em 1994, o tetra nos Estados Unidos marcou o fim da febre alta da inflação - oba! Seria bonito o futuro.

Na penumbra do quarto de persianas baixas, imerso numa nuvem de ácaros e partículas de eras geológicas em suspensão, penso no que aconteceu no Brasil dos anos 2020, em torno daquela mal parida Copa em véspera de Natal no Catar. Me ocorre que, quando se vive numa democracia (o que sempre achamos natural, até não mais vivermos numa democracia), eleições são balizas temporais muito mais importantes do que Copas.

Seria covardia comparar. Capazes de promover deslocamentos reais nos eixos de poder, eleições - seus resultados - entram de sola na vida de cada um, mudam o esquema tático e redesenham o próprio horizonte, enchendo de vitórias ou derrotas as salas de aula, as panelas, os biomas, desejos, quebradas. Perto disso, vamos combinar que certames futebolísticos são pouco, são nada.

Futilidade, então? Coisa bem inútil esse papo de Copas do Mundo como checkpoints da vida?

Sorrio, respirando curto para não acordar a tosse. Oitenta e tantos anos me ensinaram a ter cuidado com juízos dessa espécie - os mesmos que os sobrinhos do capitão e outros tipos de alma suja e neurônios enferrujados gostam de sacar da região glútea para atacar a arte e os artistas. A arte é inimiga mortal do utilitarismo, certo, fundada na gratuidade do gesto estético, mas de fútil não tem nada. Quando acerta o ângulo, muda o curso de galáxias.

Não sei se atribuo essas lágrimas à tosse ou à vista cansada pela miríade de fios que daqui, quase esgotado o tempo regulamentar, vejo entretecidos entre Copas e vida. Não quero aborrecer ninguém nem dar a impressão de que atribuo a um evento internacional gerenciado por gângsteres algum poder mágico para bulir com as engrenagens político-existenciais que movem o universo. Não: essa briga rola longe dos gramados, com outras armas, outras regras. Não tive filhos com Alice (um aborto induzido), nem com Marília (dois espontâneos) ou com ninguém. Não tive filhos. Não transmiti o legado.

Muitos anos atrás, li num romance besta uma frase que nunca esqueci: há entre futebol e vida "uma assimetria, um descompasso no qual não me surpreenderia que coubesse toda a tragédia da existência". Eu acho que sim, deve ser isso mesmo. Sem fôlego, à espera vã da subida de uma plaquinha que informe quanto tempo me resta, é quase um mistério que eu continue torcendo com tanto fervor para que me seja concedida mais uma Copa - uma só, umazinha, a saideira - antes do apito final.


Sérgio Rodrigues (1962) é um escritor e jornalista mineiro que vive no Rio. Seu romance O drible (Companhia das Letras), um drama de família que tem como pano de fundo a história do futebol brasileiro, ganhou o prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) de 2014 em duas categorias, Melhor Romance e Livro do Ano, além de ser finalista do prêmio São Paulo e do Jabuti. João Máximo, decano do jornalismo esportivo, saudou o romance como "o melhor já escrito sobre futebol em qualquer idioma", e o craque Tostão, como "o livro que eu gostaria de ter escrito".

Entre os dez títulos que Sérgio publicou, de ficção e não ficção, destacam-se ainda o volume de contos A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, o romance Elza, a garota e o almanaque linguístico Viva a língua brasileira!. Seus livros foram lançados na Espanha, nos EUA, na França e em Portugal. É colunista do jornal Folha de S.Paulo e roteirista do programa de TV Conversa com Bial.

foto: Renato Parada


Camila Kohn é artista intermídia. Graduada em Artes Visuais pela Unesp, vive e trabalha em São Paulo. Entre pintura, colagem e instalação, tem como principal suporte o arranjo de objetos, criados e encontrados. Em 2018 apresentou a série de pinturas em grande formato Infiltrações e esteve na residência artística do grupo de pesquisa L.O.T.E. na Fundação Marcos Amaro (Itu, SP). Em 2019 e 2020 fez duas montagens de Três Relatos, a instalação itinerante em constante construção.