A data da folia

Jarbas Galhardo

E Joaquim, etéreo, via atônito aquele contingente de trezentas mil gentes e mais chegando, uma a cada 48 segundos, desfilando desolamento, descaso, despreparo. Olhou pra baixo, de onde vinha inumerável desgraça e ficou ainda mais triste, mais perplexo, ao perceber que ainda mais morto pareciam os vivos, que esmoreciam caídos no abismo da letargia.

Viveu o luto pelo vivos, paralisados, parasitados, imobilizados, acorrentados na caverna, sem perspectivas de um rastro qualquer de ânimo, vivos desalmados, sem risco de oferecerem um traço sequer de perigo, rebeldia, indignação. O Baixo Clero no poder tinha tudo sob controle, a fogueira da UTI lotada como recompensa a quem desafiasse a santa igreja armada. O supremo mandatário mandando bananas de menosprezo e dinamite para os cidadãos de bem, abandonados à própria sorte, à própria morte.

Mas, de repente, bipolar ironia, um brilho de lamparina, a esperança se travestia de um erro de justiça. E nessa fantasia, de carnavalesca revelia, o desfile seria outro, a ala das minorias, todas juntas, misturadas, seria majoritária, carros alegóricos, empurrados por verdadeiros idealistas, contariam a história não registrada, mas vivida, nos destaques, máscaras, vacinas, empatia, respeito, solidariedade, honestidade, uma escola inteira ensinando o que é ser humanidade.

E Joaquim de luto lavado, vívido, assimilado, vestiu a fantasia e entendeu porque, esse ano, adiaram a data da folia. É que ainda estava em tempo de ser feilz. 


Jarbas Galhardo é produtor cultural e diagramador da RevistaRia e colabora na produção geral da Balada Literária tanto nas edições Mês a Mês, quanto nas edições anuais, onde atua desde 2007. Estuda e procura aplicar filosofia em seu dia a dia há 6 anos, e acredita que o karma sempre nos é favorável, por mais estranho que pareça. Vem daí seu otimismo incorrigível. 

Leia também

Entrevistas

Vê Só

HQ Ria - edição #11