A genealogia celeste de uma dança

Texto de Juliana Leite
com Luciano Chirolli e direção de Bruno Kott

Entre junho e julho de 2020, um acontecimento celeste encobriu algumas cidades do país. Era fim de tarde quando o céu se converteu em um tecido tremendamente lilás, rosa, laranja, sem que as cores pudessem dizer, elas mesmas, onde começava uma ou terminava a outra.

É certo que não foi um fenômeno científico: a ciência, os meteorologistas, os astrônomos, os médicos, as rádios, os repórteres nada tinham a ver com o que se passava logo ali.

Só mesmo os bichos, as pedras, as crianças ou os loucos para precisarem tirar disso documentos para o futuro.

*

De repente, uma grande nave púrpura no céu.
É difícil dizer se foi mesmo de repente, ou se ela esteve sempre lá,
apesar de só agora termos olhos para a sua presença.

Continuamos com dificuldade em dizer como as coisas nascem,
E, no entanto, elas seguem nascendo,
À revelia da nossa inabilidade para narrá-las.

Narrar qualquer coisa agora parece tremendamente desnecessário
Não parece?
Excessivo, supérfluo.
Necessário mesmo é seguir vivo,
Seguir existindo.
E assim já duvidamos, perigosamente, de que são os sonhos
que nos conduzem à vida.
Nos esquecemos de que há sonhos que nascem da necessidade.

Da ânsia, da espera.

Essa invenção não é recente e parece urgente recapitulá-la.

No meio de tudo e tanto,
é fim de tarde e o púrpura se apresenta como um mapa abstrato e lúdico
pelo qual podemos nos orientar para uma nova cartografia.

Aquele que olha para cima,
que percebe que, para além de si mesmo, há um outro teto muito mais vasto do que a testa, esse sujeito entende, ou, se não entende,
intui,
que por vezes olhar para um céu violeta é aceitar um convite.

Está prestes a começar uma dança. Vê?

Nos meus retiros espirituais,
Descubro certas coisas tão banais,
Como estar defronte de uma coisa e ficar,
Horas a fio com ela.

Ficar horas a fio com ela.

Com o céu.
Consigo mesmo diante do céu.
Consigo.

De todas as almas já criadas, onde estará aquela que, ao olhar para o céu,
desconfia de que há ali algo guardado à sua espera?
Aquela alma que, ao ver a beleza, deseja profundamente poder dizer que o belo
é também um produto dos seus próprios olhos?

Em um papel que já se perdeu
está escrito que há um amor escondido em toda dança.
E o gentil enigma seria descobrir quais são os passos, o caminho
que leva ao encontro dessa nova companhia.

Nesse papel perdido está previsto
que todo encontro é, antes de tudo, o sucesso completo da telepatia.
À distância as almas já se intuem, se visitam pelas bordas.
Começam a ouvir uma música em comum, um som que vem de longe...
Enquanto ensaiam atrapalhados os primeiros movimentos.

Para a sorte dos vizinhos do amor, essa música toca em todos os planetas.
E rege as batidas da vida ainda que cada dançarino proponha
No próprio corpo
uma coreografia singular.
Essa música é audível agora, embaixo do céu violeta.

Ouve melhor quem apaga a cabeça e escuta com as pernas.

Está ouvindo?
Você já consegue ouvir?

Para entrar em sintonia é bom, primeiro, estar quieto.
Um silêncio dócil que compactua com o corpo,
com o cômodo,
com a casa,
o elevador,
a portaria,
a rua,
a avenida,
a cidade,
o país,
o continente,
o hemisfério sul,
o planeta,
a galáxia,
os multiversos.

E que ainda vai além.

Vai depois.

Depois, é preciso ter gana o suficiente para abraçar os acordes maiores, aqueles que, quando tocados,
te lembram gentilmente de que você tem um peito.

E de que é pelo peito que você se guia.

Há lá fora uma música e ela insiste em nós.
Rege uma chama constante antes mesmo de que se suspeite do fogo.
Essa música executa continuamente a mais bela partitura,
reconvocando para o salão aqueles que adorariam sair para dançar juntos.

Você existe?, você está aí?
Está ouvindo a mesma canção?

A paz imensa de não ter dúvidas.
De se entregar para o delírio sem sobressalto, porque
olhar para o alto, assim, com todos os olhos,
já é criar para si um minuto.
Um minuto que diz respeito à liberdade,
Em que tudo se refere à grande beleza,
ao presente e ao ausente na grande beleza.

Nesse minuto, com sorte, toda inspiração e expiração existem apenas pela continuidade do que é belo.
Pela comida que vive naquilo que é belo.

(Saiba, meu tão querido, não é preciso nem mesmo ser bom! Troca-se um bom homem por um homem comum de gestos insistentemente belos.)

O céu já espera por você e te convida para dançar,
e faz isso não para que você se distraia, não pense assim,
tampouco para que se ausente ou descanse de algo que existe aí, pesando os seus bolsos.
Não.
O céu está ali porque deseja te ver dançando,
Porque é lindo ver o teu corpo fazer o que ele pode fazer,
O que ele tem para fazer,
E tão urgente!

O teu corpo, esse continente de gestos
cheios de graça e presença,
onde mora desde sempre uma liberdade inventiva.

Você se lembra dela, da liberdade?
Por onde ela andará, agora?

Ver o teu corpo em movimento gracioso,
Levando a sério o desejo, o suor, os ângulos, os atritos,
Deixando um rastro tão leve no piso, no ar, no teto,
Que convoca todas as testemunhas que também querem descobrir
Afinal
Como mover as pernas para voar a dez centímetros do chão.

Lá de cima, de algum ponto da galáxia onde os navegadores de astros atravessam a rua,
o céu olha de volta e se regozija de finalmente te reconhecer um pouco mais livre, um pouquinho mais livre do que logo antes, pelos olhos marejados que só mesmo na face dos amantes incondicionais.

É simples. É muito simples. Não há nada que precise ser explicado.
Você dança para o céu e ele dança de volta para você.

Num instante, tudo está mais do que claro.
Não é mais necessária nenhuma linguagem sofisticada, nenhuma filosofia, gramática, régua, oráculo.

Os verbos estão livres e por isso nós os amamos ainda mais.

Há agora o espanto de ver as coisas grandes, as coisas inéditas,
tão grandes e inéditas quanto o cosmos
ou como um pequeno músculo do peito que, pela primeira vez,
pulsa cheio de pertencimento a esse cosmos.

Providências são tomadas à revelia do dono do corpo.
A imensidão diante dos olhos fará encolher toda a ironia,
todo o cinismo,
todo o medo,
constrangendo tudo o que não é amor dentro das cavidades.

Um lance de dados!
Se houver uma fortuna submersa, uma fortuna de um vintém ou dois, 
É nesse momento que ela se revelará, sereia cintilante, bem na superfície.

O afortunado desabrocha, entende o ritmo da ventania, da queda, do pêndulo, do giro, da ousadia que é ser alegre
Quando justo a alegria é a espécie mais rara, mais dourada, escapando pelas mãos.

Nesse momento, ele deixa de ser um completo estrangeiro.
Joga os braços em torno de si mesmo, cálido, abismado com o mergulho.
Se abraça e assim abraça o mundo,
Se tornando o continente para esse pequeno ensaio cósmico que as galáxias têm o compromisso de continuar encenando junto a nós,
para nossa absoluta sorte.

Abraçar o mundo, contê-lo,
ser com ele uma transa última, a comunhão final,
para então, docemente,
poder afastá-lo do peito, dos músculos, do pulso,
sem medo porque então o mundo já não ecoa o medo de nada,
já não diz respeito aos ossos, aos pelos, às cavidades, a nenhum suor.
O mundo recém-abraçado pode se entregar,
pode apenas ser,
na magnitude de toda a compaixão,
de todos os desejos,
de tudo que é pleno e calmo.

O amor escondido numa dança íntima está revelado
por dentro,
na dobra de si mesmo,
e se lança para o foxtrote estelar.
Dá a mão a alguém para a travessia entre as dimensões,
porque afinal pode ser bom dançar a dois,
a três,
às centenas de milhares.

Talvez nós, os enlaçados, os de mãos dadas,
terminemos encontrando no caminho os cavalos
que já estão à nossa espera por dentro do acorde maior.
E talvez terminemos possuindo, sem alarde,
a finitude,
a impermanência,
a humildade,
aquilo que vem e que passa,
e que perece:
a pequeneza de nossos próprios corpos.
Osso, carne e utopia, aquilo que existe e é bom,
e que então deixa de existir, e é bom.
O quão selvagens vamos terminar sendo?
O quão libertos?
O quão felizes?

A cavalo rumo ao baile definitivo,
Já podemos até desistir de sermos carpinteiros,
jogadores de xadrez,
professores de canto,
motoristas de ônibus,
lutadores fracassados de judô,
produtores de bromélias,
produtores de sementes,
de aromas,
atores,
homens,
mulheres,
percevejos,
águas-vivas,
quartzos rosa.
E podemos até mesmo desistir de sermos poetas.

(Entre os poetas e os percevejos, salvem-se os percevejos! — disse o poeta aos salva-vidas).

Já podemos desistir das identidades, das importâncias,
Das distinções, dos distintivos,
Das fardas, dos cargos, das saliências,
Podemos ser apenas uma pequena parte no meio do amálgama,
Viver por reflexo daquilo que agora vemos,
E já não podemos deixar de ver,
Nas esquinas celestiais.

A mágica de estar no escuro absoluto, no exato instante em que um toco de vela é ofertado.

O céu sabe o que está fazendo, ainda que nós não.
O céu sabe para onde está indo, ainda que nós não.
O céu é para todos, ainda que nós não.

Para qual lado vamos olhar a partir de agora
sabendo que, lá do alto,
os grandes olhos já nos buscam?

Para qual lado vamos olhar sabendo que,
aqui, do lado de dentro,
os grandes olhos já nos habitam?

*Em itálico: trecho da canção "Retiros Espirituais", Gilberto Gil O toco de vela toma a bênção de Érico Veríssimo.

**Texto escrito para videoperformance apresentada digitalmente em 2021, com Luciano Chirolli e direção de Bruno Kott.



Juliana Leite escreve. Seu primeiro romance, Entre as Mãos, recebeu o Prêmio Sesc de Literatura 2018, o APCA, foi finalista do Jabuti, do Prêmio Oceanos, Prêmio Rio e São Paulo de Literatura. Teve os direitos vendidos para o cinema e foi traduzido para o francês. Criou a dramaturgia de Onde Estão as Mãos Esta Noite, peça ao vivo encenada no Zoom com direção de Moacir Chaves. Integrou a residência artística da revista de arte contemporânea Triple Canopy (Nova York) e teve textos publicados nas revistas Época, Pessoa e no jornal francês Libération.

Seu texto apresentado na RevistaRia originou a vídeo-performance A Genealogia Celeste de Uma Dança, apresentada em 2021 com Luciano Chirolli e direção de Bruno Kott.