A matança dos porcos

Flávio Otávio Ferreira

Sobre o guarda-roupas nosso pai mantinha uma mala com vários pertences. Pequenos objetos e segredos que ficaríamos vida inteira sem compreender. Junto a todos aqueles objetos, escondiam-se suas facas e punhais de sangrar porcos. Nosso pai proibia-nos de qualquer aproximação de suas relíquias. Sequer podíamos encostar na maleta, intocada em seu pedestal de teia de aranha e poeira. Nosso pai falava em carestia e que os preços da carne estavam de acabar com o pouco ordenado, que mal dava para o arroz e feijão. Era preciso criar e engordar porcos. Assim, vinha ele das quermesses com seus porquinhos arrecadados nos leilões. Outras vezes, algumas galinhas que colocava no galinheiro. Algumas, por sorte, poedeiras. Ovos garantidos por um bom tempo.

Nossa casa era pequenina. Quatro cômodos a abrigar seis pessoas. Fora, um imenso quintal. Pés de laranja, limão, ameixa e pequenas moitas de cana. Naqueles dias, nosso pai abriu seu baú. Tirou de lá seus objetos, sentou-se em um tamborete e passou a tarde a afiar suas facas, punhais e a machadinha. Passava a pedra no fio de aço com o cuidado de um artesão. Com leveza e suavidade, tocava o corte com as pontas dos dedos. Assentia com a cabeça a cada gesto. Imerso em sua tarefa, não percebia nada ao redor. Nem mesmo meu olhar curioso ao longe a observá-lo. Parecia o atirador de facas de um circo que todos os anos aparecia na cidade - concentrado naqueles segundos que antecedem o arremesso, a roda a girar com a assistente da apresentação presa ao alvo. Toda apreensão do público e, zás! O olhar de nosso pai encontra o meu. Abaixo a cabeça e rabisco algumas letras pelo chão de terra batida. Ele me observa em silêncio.

Nosso pai é um homem de pouca conversa. Afastado de qualquer benquerença e de poucos gestos efusivos. Nossas criancices o aborrecem e tiram do sério. Não tem nenhuma paciência com as algazarras e brincadeiras quintal afora. Qualquer estrepolia é motivo de desnorteio e severas ameaças. Muitas vezes é preciso a intervenção de nossa mãe para apaziguar os ânimos. Somos quatro filhos. Eu o mais atrevido sob o escudo de ser o caçula, posição que pouco me vale quando o gênio explosivo de nosso pai se manifesta. Para evitar os aborrecimentos aproveitamos ao máximo a sua ausência. Quando no trabalho, corremos os quintais ao redor. Nenhuma cerca nos separa dos vizinhos. É tudo um imenso terreno. Terreiros que nunca terminam. Ao fundo dos quintais corre um pequeno regato. Uma imundície de esgoto e lama das pocilgas. Assim como nosso pai, toda vizinhança cria porcos.

Crescem as manhãs com os cantos dos galos e grunhidos nos chiqueiros. Na ausência de nosso pai, alimentamos os bichinhos, limpamos sua habitação e damos banho em cada um. Clemêncio e Gilda são as crias que restam. Nosso pai se aborrece com os nomes que damos aos bichos. Porco não é gente para esse tipo de cerimônia. Dar nome é pegar afeto. E, na hora do sacrifício, um tormento. A compaixão não deixa o bicho morrer. Nada de pena nessas horas, que o sofrimento é maior. Sofrimento do bicho e da gente com o coração cheio de piedade. E lembra-nos do Dorico - um capado sanhudo que os vizinhos criavam para o domingo gordo. No dia do sacrifício, toda a gente da vizinhança reunida no terreiro. Muitos olhos compassivos, admirando o espetáculo da matança do porco. Derrubaram o bicho, sangraram. Cobriram com as folhas secas de bananeira e atearam fogo para sapecar o pelo do animal. E, quando todos pensavam encerrado o ato, o porco levantou num pulo, grunhindo feito um demônio, correndo a derrubar os homens que tentavam por todos os meios acertar-lhe o focinho. Assim foi e assim era para nosso pai. Não fosse tanta gente ali. Não fossem todos aqueles olhos afetuosos sobre o porco. Não fosse aquele nome.

Nosso pai preferia um sacrifício discreto. Sem grandes perturbações. Nunca dizia a ninguém que teria matança de porco. Sentava-se à beira do fogão e fazia o necessário. Organizava as ferramentas. Limava e afiava os instrumentos. Mergulhava naquele silêncio que nos atordoava. Se perguntássemos se ia matar a Gilda ou o Clemêncio, ralhava conosco. Que deixássemos de amolação. Que ele é que sabia o que deveria fazer e como fazer. Não queria choramingo. Nem gente o aborrecendo com pouca coisa. Que fôssemos procurar o que fazer. Que isso não era de nossa conta.

Era um sábado de manhã como outro qualquer. Acordamos cedo. Abri a janela do quarto, que dava de frente com a pocilga. Nenhum sinal. Nenhum ruído. Fui ao terreiro e lá estavam os porcos. Um já repartido em duas bandas, sem nenhum miúdo dentro da barriga. O outro sapecado, mas inteiro. Impossível dizer qual era Gilda. Nosso pai, extenuado pelo trabalho. Mãos e braços cheios de sangue. Em uma travessa o coração ainda quente junto às outras vísceras. Cheguei devagar, com os olhos esbugalhados de espanto. Nunca vira nada parecido. Sangue por toda parte. O horror! O horror! O horror!

Depois deste acontecimento, não me lembro de outros porcos em nossa casa. Nosso pai destruiu a habitação dos animais. Trouxe muita terra e transformou o fundo do quintal numa imensa horta. Plantava-se de tudo: couve, alface, almeirão, taioba, inhame, pimenta, salsa, coentro, agrião. Um emaranhado de hortaliças substituíra os porcos no quintal. Em minha memória nada apaga a imagem de nosso pai com sangue dos pés à cabeça. Seus mais ágeis movimentos a destrinchar aqueles porcos que já não eram nossos dóceis animaizinhos. Nossos companheiros de algazarra nas manhãs daqueles tempos foram aos poucos ficando distantes, sob a névoa do esquecimento, em alguma gaveta da memória que agora remexo. Seus nomes se apagaram e, talvez, nem sejam esses de minhas lembranças.

FLÁVIO OTÁVIO FERREIRA é poeta e operário. Nasceu em João Monlevade, Minas Gerais, em 20 de outubro de 1980. Cresceu num beco da Rua Chicota, na cidade de Bela Vista de Minas, onde encontram-se afetos e memórias que o acompanham pela vida. Mora em Araxá. É graduado em Letras.

Publicou os livros Cata-ventos (KroArt, 2005), Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009) e A linguagem da casa esquecida (Saraquá Edições, 2021).