A morte é uma moça bonita

Fabíola Cunha

Ela chegou no meu terceiro dia acamado. Está ali, acocorada na quina da parede. Sente o lugar. Onça espiando os domínios antes de descer no rio. Repara no encaminhamento que o povo me dá. Mede as queixas, os ais, as fungadas de olho seco dos filhos e sobrinhos.

Pego meu terço pendurado na cabeceira. Não vou amolar Nossa Senhora com sonhos de cura. A moça chegou, já disse. Espanta agora a varejeira como se uma mosca pudesse lhe abusar. Brincando de ser gente viva. Eu vou rezar é pra acordar os anjos. Pra um mensageiro entregar a notícia que estou chegando.

Enrosco os credos, as glórias e os pais-nossos. A mente juntando alguma frase que se preste à salvação.

"Ó clementíssima Virgem Maria, minha soberana e Mãe, augusta Senhora do Monte Serrat, venho lançar-me no seio da vossa misericórdia."

A mão dura atrapalha a passagem das contas. Os dedos numa rijeza de madeira boa pra fogueira: teso e seco. "E ponho, desde agora e para sempre, a minha alma e o meu corpo debaixo da vossa salvaguarda e da vossa bendita proteção". Morrer é endurecer as carnes, entrevar as juntas, ressecar a pele. A água não acha os caminhos, cria limo e depois apodrece.

Não encaro. Vejo pelo rabo do olho. Podia ser uma dessas mulheres daqui, carregando água do açude com o pano enrodilhado na cabeça. A força de sustentar o peso a cada passada no chão vermelho. O cabelo dela é mais liberto. Um pé de salgueiro espalhado pelos peitos decretando presença. A diferença é o ar enfeitiçado de quem conhece o fim humano.

A primeira vez que soube dela, foi quando minha bisavó cuidava de um menino com febre terçã. Mesmo com todas as ervas colhidas na hora certa e toda a atenção que minha bisavó colocava na tarefa de curá-lo, o menino piorava.

Em meio a idas e vindas do fogão para o quarto, de panos, unguentos e chás, a curandeira é vencida pela pergunta da criança:

-Quem essa moça na cama, sorrindo pra mim?

Ninguém via, mas sabiam do que se tratava. A mãe danou-se a chorar.

- O pai pôs o chapéu na cabeça e se embrenhou no mato.

- Que moça bonita, mãe, quem é?

Naquele quarto cheirando a guiné, quioiô e sebo de vela, só o moribundo passava a vista no além vida. No fim, suspendeu a mãozinha pro tato que era só dele.

Eu agora sou o moleque. Venho ali com um capim na mão futucando buraco de gongo. Minha mãe areando panelas na pia do lado de fora da casa e meu pai indo pra feira com um caixote nas costas.

Sou eu ali, rapazote, barba rala querendo respeito dos homens e dengo das meninas. Marli no São João, sangrando a bananeira com a ponta da faca pra saber com quem ia casar. Casou comigo. É essa mulher que vai levar minha mão e entregar à nova esposa.

A moça sentou na cama, está mais nítida. Posso sentir sua pele de jenipapo. Que não me engasgue os caroços. Que ela fermente essa ida com o licor que vão beber quando eu atravessar.

Ai, essas paredes que viram meus primeiros desequilíbrios, engatinhar, levantar, testar o caminho, o desacerto dos pés na bebedeira, registram a ida, o passo sem retorno.

Marli puxa o credo. Seu afazer de quase viúva.

A moça roça minha pele de velho, respira de mim meu último ar.

Formada em História com Patrimônio Cultural, Fabíola Cunha foi introduzida no mundo das palavras por sua bisavó, uma mulher analfabeta. A matriarca criava mundos poéticos para que sua bisneta pudesse habitá-los. É autora dos livros infantis Brincando de Antigamente e A Revolta dos Legumes (no prelo). Participa como co-autora na antologia Negras Crônicas- escurecendo os fatos, no livro de poemas Asabeça- A cabeça que Voa e participa da antologia Poetas Negras Brasileiras, organizada por Jarid Arraes (pré-venda).

A historiadora atua como professora, escritora, redatora freelancer e é integrante do coletivo Nois Cria.