André Luiz Pinto

Caixa de Pandora

O mais aconselhável
é que se cozinhe, em banho-maria, a esperança.
Que se administre, gota a gota, a esperança;
que a sirva crua, ciente
das especiarias
que não virão.
É costume também
comprá-la
em caixas, pois
ela é o pior
que nos reserva
e o que temos de pior.
Deprimente
que nossa espécie
tenha acabado assim,
num formigueiro,
e que um candeeiro
ainda se acenda.


Cartilha

O que há de gigante é a linguagem incontornável,
extemporânea, anacrônica, da poesia.
Há quem a chame de poder. Eu a chamo
de força. Há quem prefira a palavra
empoderar, imponderável, empoderadamente.
São novas e outras as instruções de uso:
e não se diz mais todos, mas todes;
e não mais homens e mulheres,
mas cis e trans. Contra a bíblia
dos recalques, há um dicionário
de amizades, uma cortina de
espelhos em afronta aos imperativos.


Trans

Só agora SEI o que SOU
e essa combinação me completa
adão sem púbis
     mulher-foguete
                            (rocket-woman)
mistura de toda crença.
Não queiram
a coerência côncava
e convexa.
Não sonhem
com a alegria dos sábios
                                             por pretensões.
Nem pensem em cair
                            na graça das hipérboles.
Digo isso porque digo para mim
nada
    nem ninguém
              vão te diminuir.
Nem o amor cometido
                  - ainda cru
                      mas que para outro pareça em desuso.
Só agora celebro a glória
              de minhas maltrapilhas aporias
                                      malbaratadas agonias
em que escondo
                 um verdadeiro motivo.

Me dê motivo
                  e com o timbre
                                 do Tim


Cidade pequena

A família era vizinha ao cemitério.
O cemitério se via de casa.
Dele também se via o deserto,
o campo onde se jogava bola,
o crânio arranjado pelo coveiro
para os garotos brincarem.
Via-se também o destino
de nossa vida pela janela
naquela terra revirada.
Cedo ou tarde eu teria
de ir embora... Mas, se era
para ir embora, que fosse
além daquela quadra assombrada,
onde, toda noite, um rojão
de fogos fátuos era solto,
e com eles, as comemorações.


Poeta, e acumulador compulsivo

Não sou eu, é a casa que acumula
destroços - desafio
a passar pela porta
e não pisar pelo menos
em cinco - desafio
a ir até a cozinha sobre as fatias
de pizza largadas no chão.
Isso que você está sentindo
é o mormaço das palavras.

Sim, para fazer o que faço,
escala-se a garganta
cospe-se alguns versinhos - esses aí, que acabou
de escutar, estavam debaixo da mesa,
correndo feito um ratinho,
em meio a caixas & sonhos
empacotados.

ANDRÉ LUIZ PINTO nasceu em 1975, no Rio de Janeiro (RJ). Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor, entre outros livros, de Flor à margem (1999), Ao léu(2007), Mas valia(2016), Na Rua, em parceria com Armando Freitas Filho (2019), entre outros. Sua poesia foi tema nos documentários André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu e Autobiografias poético-políticas, ambos de Alberto Pucheu. Em 2019, publicou pela Ed. Patuá a coletânea Balanço, que reúne poemas de 30 anos de produção.