As mãos daquele cara

Carlos Eduardo Pereira

     Não digo que seja a pior situação desse mundo - uma tragédia - porque também não é assim. De verdade, eu nem me lembro dos detalhes do que aconteceu, ou pelo contrário, é justamente disso que eu me lembro, dos detalhes, o que me escapa é todo o resto. Portanto não pergunte de motivos, de contextos, que eu não vou saber. Tudo que eu tenho são imagens soltas.

     Se fosse o caso de alguém que escrevesse essa história, quero dizer, se fosse uma peça de ficção, um conto, por exemplo, esse conto não teria sequer um tema, o grande assunto. E dá para discutir se acaso existe uma história sem tema. É bem possível que haja, no universo de todas as narrativas já escritas em todos os tempos, talvez haja alguma com base somente na casca dos fatos. Um escritor qualquer, julgando pertinente escrever algo assim, porque é fundamental que seja pertinente ou não se teria porque escrever, esse escritor quem sabe seria capaz de encaixar as superfícies, umas coladas nas outras, e desse jeito passar o recado.

     Dá também para escrever pondo luz sobre algum personagem. E aí vem sempre a confusão com a pessoa do autor, já que cada personagem, sem nenhuma exceção, é, de todas as maneiras possíveis, um reflexo do autor num espelho. Digamos que esse autor seja um homem maduro. Assim, como qualquer indivíduo nessa condição, ele é obrigado a carregar pelas costas as suas memórias. Como resultado, não importa a persona que ele invente de criar, tanto faz se um sujeito numa missa de sétimo dia ou se alguma velhota selvagem, não faz a menor diferença. Por isso seja um narrador poderoso, de quem se sabe quase nada, ou seja um camarada falador, não se deve esquecer disso nunca: eles são todos o mesmo.

     Proponho um jogo: ocupe o lugar desse autor inventado. Então escolha um título, de preferência um título que indique o que vem mais à frente no texto. Só não entregue demais, prefira não escancarar. Tente uma frase de efeito, uma expressão que desperte interesse ao mesmo tempo em que esconda as reais intenções. Esconder é vital, procure contar sem contar. Siga como um cego o preceito que diz que uma história só existe se por baixo de uma outra história. Como o caso que outro dia li, não lembro onde. O sujeito analisava anotações, que por algum motivo ele chamava de anedotas, registradas no caderno de um artista russo. Tinha um fragmento mencionando um homem no cassino em Monte Carlo, que ganhava um milhão, que voltava para casa, e que, então, se matava. Diante desses dados saltam, preferencialmente, pelo menos dois caminhos a seguir - é apenas um conselho, levando em conta que os caminhos todos sempre acabam chegando no mesmo lugar. Caminho 1: narrar o suicídio no primeiro plano, com total tranquilidade, destacando a importância da destreza de se dar um nó eficiente numa corda, e a procura pelo ponto ideal para fixar essa corda no teto, que deve trazer relação com o lugar apropriado para se colocar uma cadeira por baixo. Caminho 2: narrar, com detalhes precisos, a partida de pôquer, descrevendo o ambiente onde acontece o jogo, a técnica que o jogador decide usar para fazer as apostas, e o tipo de bebida que ele pede ao garçom.

     Agora volte a pensar umas poucas pessoas possíveis de compor essa trama, talvez uma família, e um conflito unindo essas pessoas. Imagine um pai. Sugiro recuar no tempo, para em seguida avançar novamente. Esse pai quando jovem, fugindo de um destino de derrotas quase certas. Ele encontra uma moça, um pouquinho mais nova do que ele, ela também desesperada de escapar de um futuro tenebroso. A moça engravida, a pressão da correnteza é no sentido de que um homem honrado precisa assumir responsabilidades. E ele assume. A criança nasce e, por motivos que cabe apenas a você imaginar, não chega a ser registrada em cartório. Depois, uma tremenda capotagem, esse filho morto, essa mãe sobrevivendo tendo um outro filho na barriga, e - sobrevivendo, também -, esse pai.

     Enxergue uns elementos específicos nessa família hipotética. Se concentre nas mãos desse pai. São mãos de gorila. As palmas, como lixas de parede meio gastas. Perceba os calombos e cortes. E centenas de linhas riscando sua superfície, espalhadas qual mapa hidrográfico em que os afluentes chamam mais atenção do que o rio principal. Veja uma aliança encravada no anelar esquerdo. Sinta o frio dessas mãos. O cheiro permanente de álcool barato, e de acetona, pois as unhas destoam de tão bem tratadas, cortadas no sabugo para evitar o acúmulo excessivo de um sujo de graxa.

     Explore uns ambientes, de repente, de um sobrado. O quartinho-de-bater: sem janelas, sem basculantes, uma porta com retângulos de vidro embaçado na parte de cima e com uns frisos na madeira da parte de baixo, por onde entra algum oxigênio e sai algo do som que vem do seu interior, lugar das sessões disciplinadoras regulares, com vários tacos soltos no chão encerado, que fazem um ruído de encaixe-seco quando alguém pisa neles, e umas manchas de mofo na parede do fundo, parecendo hematomas depois de uma surra bem dada. O quarto-da-mamãe-e-do-papai: um altar junto à cabeceira, do lado da mãe, com imagens de santas carregando uma criança no colo, com fitinhas coloridas, com terços e com velas apagadas. O quarto-dos-meninos, mesmo tendo sido sempre quarto de um menino só: pintado uma única vez, há muito tempo, de verde-bebê, onde há de um lado uma cama de solteiro, e de outro um bercinho seminovo.

     Se conseguir, plante uma árvore. Coloque-a de frente para o sobrado, no canteiro onde, futuramente, ainda vão construir uma calçada, e acompanhe o crescimento dela. Observe seus galhos, o verde predomina, com qualquer ventinho ela chacoalha toda. Entra ano, sai ano, e a árvore ali. As folhas aumentando de tamanho, e mudando de cor, e o caule vai virando um tronco que um adolescente de braços compridos não consegue abraçar por ele mesmo. Uma casca grossa se forma com o acúmulo das estações, craquelada, são cortes em cima de cortes, difíceis de cicatrizar, e, cada vez mais, assumem seu marrom ressecado. Brotam dessa sua árvore amêndoas já murchas, leves demais, inúteis demais até para se brincar de estilingue. E suas raízes vão ficando expostas, rasgando o concreto, como quem necessita de fugir, encobertas apenas por camadas e camadas de folhas cor de abóbora, caídas num chão que ninguém se dispõe a varrer.

     Pode ser que já baste dessa história, portanto encaminhe um final. Teste as variadas possibilidades de desfecho: uma revelação impactante, uma surpresa, às vezes funciona, mas um fim de respeito é aquele em que acontece uma morte. E, veja bem, não falo de uma morte simbólica, mas sim de uma morte concreta. A morte de um pai que, num leito fodido de hospital, arrependido até os dentes das merdas que fez, com um pavor desgraçado de morrer, esse pai que já não come pela boca, e queima as esperanças finais aguardando a visita de um filho, e se recusa a partir desse mundo enquanto esse filho não vem, teimosia estúpida, sem saber que esse filho se encontra nesse mesmo hospital, no mesmo andar, e isso já faz umas dez ou doze horas, só que se mantém sentado num banco ao fim do corredor, e não pretende entrar no quarto (de jeito nenhum). O que esse filho espera é outra coisa. E é exatamente assim que ele vai continuar, sentado num banco ao fim do corredor, contando os minutos do relógio na parede, o tempo que for necessário.


Carlos Eduardo Pereira nasceu no Rio de Janeiro, em 1973. Graduou-se em História, pela UFRJ, e em Letras, pela PUC Rio, na habilitação Produção de Texto. Participou de coletâneas de contos, como a "Fake Fiction - contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade" (editora Dublinense, 2020). "Enquanto os dentes", seu romance de estreia, foi publicado em 2017 pela editora Todavia e foi semifinalista do Prêmio Oceanos e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018.