Atotô

José Falero

Teve a época da cachaça. Eu era bem mandinho nesse tempo, mas lembro. Os nego tudo se reunia pra tomar caipira de bergamota, ouvindo "Sobrevivendo no Inferno". E as bergamota não era comprada, não. Nada disso. Se os nego mal conseguia juntar dinheiro pra comprar a cachaça, imagina então comprar as bergamota. Fora de cogitação comprar as bergamota. Era tudo roubada lá do Zé do Brejo. E seguinte: naquele tempo, só caipira de verdade; não tinha suquinho da Xuxa. Os nego até dizia: "a legítima caipira: ou tu cai, ou tu pira". Mas caipira era só no meio da gurizadinha mais nova, tudo moleque, quinze, dezesseis ano. Os malandro mais velho gostava de tomar a cachaça era purinha mesmo. Deus o livre, os bicho era ruim! Só demônio, só diabão! Desses aí, boa parte tá morto hoje em dia, ou tá atirado nos boteco. Virou tudo bêbado, lógico. Tudo tiozinho bêbado hoje em dia, desses que nem passa na baia quando chega do trampo: já salta do bonde já na frente do boteco já e já vai entrando já e já vai pedindo uma dose já e já vai empinando... A primeira é talagaço e não tem boi; depois, beleza, só bicando na manhosa. Eu tenho pena é das mulher desses cara, na real. Os cara chega na baia tapado de marimbondo e não lava nem os pé pra dormir. Isso quando não bate nas pobre das nega veia, Deus que me perdoe. Ih, vários e vários malandro da época da cachaça virou esse tipo de verme aí, esse tipo imundície, esse tipo de fraco.

Hoje em dia, vários ano passado da época da cachaça, nós já tamo na época do gelo já. Que loucura, né, meu? Quem diria, né, meu? Esse tempo de agora, porra, isso ia ser ruim de imaginar na antiga, na real. Olha aí, olha bem, só te liga: qualquer cu pelado chega num boteco e pede um gelo. Ou dois. Três, quatro, se pá até cinco. Caralho, mano! Na antiga, tinha que fazer cinquenta grau pro malandro se animar de botar um gelo, a menos que fosse maluco do dinheiro, que tivesse uma condição melhorzinha. Hoje não. Pode ver, pode ver: os boteco tudo cheio de neguinho que não tem onde cair morto, tudo vá gelo. E vá raio também, mas, enfim, daí já é outra história já.

O fato é que o meu tempo de medonho foi depois da época da cachaça, que já tá distante no passado, mas foi antes dessa época do gelo de agora. Foi no meio, tá ligado. O meu tempo de medonho foi na época do vinho.

Na época do vinho, garrafa de um litro era de tomar sozinho, de cantoneira, ou entre dois, no máximo. Pra tomar de mulão, tinha que ser garrafão de cinco litro. Vou te dizer pra ti: tempo bom pra caralho! Tempo melhor, não teve. Era época de pião zunindo no chão e pipa voando no céu. Era época de carrinho de lomba: a Guaíba parecia um autódromo, e os pátio tudo parecia uma pá de oficina. Era época de futebol: o campo sempre lotado de nego pra jogar, fora a cambada na volta olhando. Era época de funda: as lâmpada dos poste sempre estourada, que a piazada não perdoava nada. Por causa disso, inclusive, o coração da Vila Sapo, que é a praça, ficava um breu só, quando caía a noite.

E nesse breu da praça, eu perdi as conta de quantas vez eu e os nego tudo - sempre uma pá de boneco, às vez dez, quinze nego - eu perdi as conta de quantas vez a gente se juntou nesse breu da praça pra encher a cara de vinho e maconha. Vá garrafão e vá bomba, Deus o livre! Porra, era massa. Nessa época, porco na boca era mentira. Só quando alguém matava alguém, daí beleza; mas não toda hora, que nem é hoje em dia.

Eu lembro que uma vez a cena no breu da praça foi longe. O assunto parecia que não ia acabar nunca: bomba atrás de bomba, garrafão atrás de garrafão. Bom, chegou uma hora que só tinha filósofo ali. E toda vez que eu via o garrafão na finaleira e a bomba na pontinha e já começava já a me conformar, pensando que era o fim, os nego tudo começava a se coçar e do nada surgia uma pá de moeda e nota amassada. Na Vila Sapo é assim, sempre foi assim e sempre vai ser assim: os malandro não conhece limite. A loucurada se estica até onde dá: enquanto tem de beber, os malandro bebe; enquanto tem de fumar, os malandro fuma. E outra: ninguém pede pinico. Jamais visto, pedir pinico. É tudo doido ponta-firme, tudo mil grau. O Diabo é que gosta de ver. Na Vila Sapo, ele tá sempre pelos canto, esfregando as mão, só olhando os mano se destruir de tudo que é maneira.

Mas não tem jeito: sempre chega uma hora que o assunto acaba, e nessa hora os nego tudo começa a largar, um por um. Naquela vez, não foi diferente. Quando já não tinha mais vinho, já não tinha mais maconha e já não tinha mais dinheiro, foi dois palito pro bandão de mais de dez cabeça se reduzir a trio. E eu fui um desses três que ficou ali, vegetando no breu da praça, tá ligado. Sei lá, nunca fez o menor sentido pra mim ficar louco e ir dormir. Hum!, ficar louco e ir dormir! Pra mim, isso é o maior desperdício. A minha loucura, eu sempre gostei de gastar ela acordado, na rua, vendo as coisa acontecer. E o que acontece na Vila Sapo, mano, tu não acredita. Principalmente o que acontece no meio da madrugada.

O trio que ficou vegetando na praça depois que o resto tudo saltou era eu, mais o Nego Tiriça mais o Nego Bota Fé. Na real, eu nunca cheguei a falar com eles dois sobre essa viagem de gastar a loucura na rua, mas acho que se pá eles pensava que nem eu.

Tava um frio que parecia até dois, e não tinha nuvem nenhuma no céu. Interiormente da minha mente totalmente demente, eu comparei a lua branca e morta que brilhava no céu com uma lâmpada, dessas que se acende pra iluminar o frio, o vazio e a fome, quando a gente abre a porta da geladeira no meio da madrugada. Que viagem! Muita viagem. Eu tava muito viajando. Daí, teve uma hora que o Nego Bota Fé me resgatou do mar dos delírio, porque ele tremeu inteirinho, fazendo "brrr!", igual um cavalo relinchando, e isso me chamou a minha atenção, tipo, isso fez eu me alertar e ficar esperto. Eu senti toda a minha viagem evaporando dentro da minha cabeça, enquanto o negão se encolhia todo, abraçando ele mesmo e esfregando os ombro com as mão. Daí, ele cantou: - "Quanto mais frio, mais em prol. Um amante do dinheiro pontual como o sol, igual eu..."

Já devia fazer uns dois ano que "Nada Como um Dia Após o Outro Dia" tinha sido lançado. Os fado já tava tudo na ponta da língua dos malandro. Mas esse aí o Nego Bota Fé não lembrava todo. Ele até ficou tentando lembrar, mas não conseguiu. Daí, me perguntou:

- Como é que é mesmo, Nego Estavo? Beleza, beleza, eu não vou me fazer de louco. Eu sei que tu que tá lendo isto aqui deve ter ficado pensando "meu Deus do céu, mas por que Nego Estavo?". Então, seguinte: deixa eu explicar essa porra desse meu apelido. É dois palito.

Teve uma vez, vários ano antes dessa madrugada fria aí, que eu comecei a contar uma história pros nego. Na roda, ouvindo eu falar, só malandro arriado, como sempre. E nessa história que eu comecei a contar, tinha uns mano comigo - uns mano que tinha dado fuga dos porco comigo. Tinha sido a minha primeira fuga dos porco, e por isso eu tava contando a história todo empolgado e pá. Daí, teve uma hora que eu falei errado: eu disse "nós tavo lá". Os nego tudo se arriou em mim, lógico. Ficou tudo tirando onda de mim e repetindo "nós tavo lá", "nós tavo lá", "nós tavo lá". Daí eu me irritei e disse que eu não era tão burro, e que eu sabia muito bem que o certo era "nós estavo lá". Porra, daí os nego não queria mais nada: se matou tudo de rir da minha cara. E foi assim que começou: "Nego Estavo" pra cá, "Nego Estavo" pra lá. Eu ficava louco com os nego me chamando assim, e foi justamente por isso que o apelido pegou.

O Nego Tiriça se adiantou na minha frente e cantou uma carinha do fado, pra refrescar a memória do Nego Bota Fé:

- "De roupão e capacete..."

- Isso aí, isso aí, isso aí mesmo - disse o Nego Bota Fé. - "No frio já é quente, ainda usando colete..." - E seguiu cantando o fado. O Nego Bota Fé tinha esse apelido porque gostava de ver os nego se foder. Tipo, quando os nego tava em dúvida se fazia ou não algum bagulho que podia dar ruim, ele ficava metendo pilha, dizendo pros nego fazer sim, só pra ver a merda pegar preço depois. E seguinte: ele metia essa pilha na maior cara dura, pagando uma de incentivador e pá. Ficava bem sério e começava a dizer "vai lá, mano, vai lá, que não dá nada, bota fé, bota fé". Um dia os nego se ligaro nessa manha dele e começaro a chamar ele de Bota Fé.

Já o Nego Tiriça tinha esse apelido porque só queria saber de sexo. Só falava em sexo. Qualquer assunto, ele dava um jeito de levar pro lado do sexo. Vivia tentando ver as calcinha das mina, vivia tentando espiar as tia dele tomando banho ou trocando de roupa. Já tinha sido pego uma pá de vez batendo punheta, sempre nos lugar mais inacreditável. Uma vez, parece que uma professora pegou ele escabelando o palhaço na sala, no meio da aula: vá soco na bexiga embaixo da classe, bem de cantinho. Não demorou muito pros nego começar a arriar que ele só pensava em sexo porque não comia ninguém, porque tava sempre a nadir, porque tava sempre na seca, porque tava sempre na tiriça. Daí ficou: Nego Tiriça.

De repente, o Nego Bota Fé parou de cantar, porque três malandro vinha descendo da Vilinha. Esse é o clima na madrugada da Vila Sapo: se tu não sabe quem vem lá, é melhor ficar frio. O que mais tem no bucho da noite da favela é malandro batendo coxa pra lá e pra cá, indo duma vila pra outra, e o motivo não é sempre que é bom. Pode ser nego que acabou de fazer coisa errada, pode ser nego que tá indo fazer coisa errada, enfim, pode ser nego que não quer ser visto e muito menos lembrado.

Nós tava protegido no breu da praça: a gente via os malandro, mas os malandro não via a gente. E quando eles passaro do lado da praça, nós demo recunha nos três. Mas, mesmo assim, fiquemo frio, não demo um pio. Nenhum deles era flor de cheirar. E outra: a atitude deles tava suspeita pra caralho. Eles tava caminhando meio rapidinho, tava meio nervoso. Eles tava trocando uma ideia meio tensa, também. A gente não conseguiu escutar o que que eles dizia um pro outro, na real, porque eles falava baixinho; mas, pelos gesto deles, dava pra notar que tinha alguma coisa estranha, alguma coisa errada... Sei lá, às vez parecia que eles iam parar de caminhar e largar na mão ali mesmo, no meio da rua; mas aí, do nada, parecia que eles tava era concordando em algum bagulho, como se eles tivesse irritado com alguma coisa que tinha acontecido e tivesse um apoiando o outro. Enfim, não sei. Só sei que eles passaro e seguiro pela Guaíba, indo lá pros lado da Viçosa.

Nas rua selvagem da selva periférica, ser malandro é obrigação. A morte não dorme nunca, a morte não descansa nunca, a morte tá sempre rondando; a gente aprende a sentir o cheiro da morte desde piá. E seguinte: quando a morte tá pela volta, é melhor ficar esperto. Não dá pra ratiar. Só que o cheiro de morte passou, depois que os três malandro foro lá pros lado da Viçosa, e daí a gente ficou sereno. O Nego Bota Fé até continuou cantando o fado. Mas daqui a pouco, já calou a boca de novo. Na real, ele foi interrompido - interrompido por uma saraivada. Uma saraivada que soou lá pros lado da Viçosa. Não era fogo de artifício: tá aí outra coisa que a gente aprende a diferenciar bem cedo, na escola da malandragem. Mais de dez estouro. Uns treze, quatorze estouro. Foi tudo um atrás do outro, bem rapidinho. Mas foi tudo igualzinho, igualzinho, e não teve dois estouro ao mesmo tempo: foi um de cada vez, do início até o fim da rajada, só que tudo assim, um atrás do outro, bem rapidinho. Por isso eu me liguei que tinha sido só uma arma atirando; não era troca de tiro nem nada: era só um malandro sentando o dedo noutro malandro, ou se pá atirando pra cima. Eu também me liguei que a arma só podia ser uma pistola: um revólver não ia ter dado tanto tiro; fuzil ia ter feito bem mais barulho; metralhadora ia ter atirado bem mais rápido. Então, a arma só podia ser uma pistola.

Agora, se parece fácil pra tu que tá lendo isto aqui imaginar que a saraivada teve alguma coisa a ver com os três malandro que descero da Vilinha e foro lá pros lado da Viçosa, beleza, palmas pra tu. Mas eu, o Nego Bota Fé e o Nego Tiriça nem pensemo nisso na hora. Não pensemo, porque já tamo acostumado com saraivada. A gente cresceu ouvindo uma pá de saraivada. Saraivada no início das manhã, quase na hora de sair pro colégio; saraivada no meio das tarde, quase na hora da coroa da gente chegar do trampo; saraivada no fim das noite, quase na hora de dormir. Então, mano, tipo, pra gente que nem nós, não é fácil, não rola esse barato de associar automaticamente uma saraivada com outro bagulho, com outro acontecimento. Pra nós, uma saraivada é igual uma brisa que bate por bater; uma saraivada é só uma coisa que acontece, sem chamar muito a nossa atenção, e a gente não gasta muito tempo pensando nela. Tanto que, um segundo depois daquela saraivada, o Nego Bota Fé seguiu cantando o fado, como se nada tivesse acontecido.

Depois dum tempo, eu comecei a sentir que a minha loucura já tava querendo chegar no fim: em menos de meia hora eu já ia tá são de novo, como se simplesmente não tivesse bebido nem fumado porra nenhuma. Essa é a hora da depressão. É a hora que a gente lamenta ter bebido e ter fumado, ao mesmo tempo que a gente lamenta não ter bebido e fumado ainda mais. É a hora que a gente começa a pensar na cama e a bocejar toda hora. E depois de cada bocejo que eu dava, quando a boca se fechava e a língua ficava tentando se acomodar ali dentro, eu ainda podia sentir bem forte na saliva grossa o sabor do vinho misturado com o sabor da maconha.

Daí, teve uma hora que o Nego Bota Fé percebeu que o Nego Tiriça tava muito quieto no canto dele, olhando pro outro lado da rua. - Qualé que deu, negão?

- Te liga lá.

O Nego Tiriça disse isso levantando as sobrancelha e fazendo um biquinho com os beiço, como se tivesse mandando um beijo pra baia da vizinha, do outro lado da rua. O Nego Bota Fé olhou pra lá. E eu também.

Tinha uma luz acesa lá dentro: dava pra ver pela porta, porque a porta tinha um vidro que ia da altura dos joelho até em cima. Era aquele tipo de vidro que tu pode abrir, sem ter que abrir a porta, tipo uma janela que faz parte da porta.

- Ela acendeu a luz agora há pouco - disse o Nego Tiriça. - Eu tava esperto quando ela acendeu a luz. Se pá ela tá desfilando só de calcinha pela baia.

- Nesse frio? - eu duvidei.

- Vai saber. Quando vê, ela é cheia de fogo. Quando vê, dorme até pelada, se ratiar. Na real, é pra isso que serve as coberta, não é, não? Ninguém dorme entrouxado de roupa. Eu tô pensando aqui... Se pá ela foi só no banheiro mijar ou largar um barro e já vai voltar pra cama. Será que vai dar pra ver quando ela passar de volta pro quarto?

- Vai dar pra ver é um borrão - eu disse. - Te liga lá: o vidro da porta é daqueles que não deixa ver nada, que embaça tudo.

- Porra, pior! - concordou o Nego Tiriça, estalando a língua e balançando a cabeça, inconformado. - Seguinte: acho que eu vou lá botar a cara no vidro. De pertinho, se pá dá pra ver um pouquinho melhor.

- Ah, sim, de pertinho deve dar pra ver tudo - disse o Nego Bota Fé. - Vai lá, mano, mete o carão lá no vidro, vai lá, que não dá nada, bota fé, bota fé.

E o Nego Tiriça foi mesmo.

Não deu tempo da gente avisar ele: quando ele já tava lá, com a cara colada no vidro da porta da vizinha, uma viatura da Brigada apareceu, descendo a Guaíba. Cheiro de morte. Nada tem mais cheiro de morte do que os porco, ainda mais numa situação que nem aquela que nós tava. Imagina: madrugada, favela, três preto na rua, um deles espiando uma baia, nenhuma testemunha pra desmentir qualquer história que os porco inventasse depois. Porra, cheiro forte de morte! Não tinha o que fazer, a não ser tentar salvar a própria pele. Por isso eu e o Nego Bota Fé demo uns passo pra trás, mergulhando ainda mais no breu da praça, pros porco não ver nós dois. Mas a minha preocupação maior não era nem ser visto, na real: era ver! Puta que pariu, eu tava prestes a ver o meu mano, o Nego Tiriça, tomar uma pá de tiro pelas costa! O meu coração ficou maluco, parecia um touro mecânico dentro do peito, e a sensação de pavor parecia que tava me comendo tudo por dentro, começando pelas tripa e pelo estômago. Ia acontecer! Ia acontecer bem na minha frente! Eu podia sentir! O cheiro de morte tava mais forte que nunca, tava insuportável! Mas o que aconteceu mesmo foi um milagre.

No exato momento que a viatura ia passar na frente da baia da vizinha, no exato momento que os porco ia ver o Nego Tiriça com a cara colada na porta, foi bem aí que a vizinha apagou a luz lá dentro, fazendo o Nego Tiriça desaparecer na escuridão do pátio. Daí, a viatura passou reto, indo lá pros lado da Viçosa.

O Nego Tiriça se ligou que a viatura tinha passado, e voltou puto da cara de lá do pátio da vizinha.

- Dois filho da puta, vocês, meu, dois filho da puta! - bufou ele, voltando pra junto de nós no breu da praça. - Por que que vocês não me avisaro dos porco?

O cheiro de morte já tinha passado já. Já tava tudo tranquilo e sereno, que nem baile de moreno. A minhas perna ainda tava tremendo, mas eu já tinha botado o susto pra fora num suspiro e já tava no controle de mim mesmo. Por isso, me senti à vontade pra dar uma pegada no negão.

- Ora, mas é lógico: nós não te avisemo porque tu é um pau no cu e tem mais é que se foder mesmo - eu falei brincando.

- Pior, pior! - concordou o Nego Bota Fé. - Na real, nós tinha era que ter avisado os porco, que passaro sem te ver. "Ali, Seu, ali, Seu! Pega, pega, Seu, pega!"

O Nego Tiriça não se aguentou e começou a rir com a gente.

- Ah, vai se foder! Dois palhaço, vocês dois. Na real, um palhaço passa vergonha perto de vocês, vai tomar no cu.

E nós três fiquemo ali, rindo litros. Eu não sei por que, tá ligado, eu não sei explicar, mas é massa, é gostoso ver que a morte passa perto o tempo todo, e ver que a gente tem a manha pra driblar ela, ou ver que a sorte paga pau pra nós e vive salvando o nosso pescoço. Claro que é foda ver que a nossa vida tá sempre numa porra duma corda bamba, só que cada vez que ela balança e se equilibra de novo, cada vez que parece que ela vai cair e não cai, aí não tem jeito, mano: a gente sente no peito que a gente é foda, e o sorrisão se abre de orelha a orelha.

O pátio da vizinha, que por pouco não foi adubado com o sangue do Nego Tiriça, não tinha cerca nenhuma. A vizinha até tinha colocado três pau cravado ali (um em cada ponta do pátio e um no meio), mas acho que se pá faltou dinheiro pro arame enfarpado. O fato é que aqueles três pau tava ali já tinha uma pá de tempo já, e foi apontando pra eles que o Nego Bota Fé falou:

- Olha lá, negão, quem foi que te salvou. 

Eu quase não levei fé quando eu olhei. Tinha três coruja pousada lá, uma em cima de cada pau! Mano, não é querer ser místico nem nada, mas, fala sério, qualé a chance disso acontecer? Qualé a chance dum maluco ter o pé-quente que o Nego Tiriça teve, justamente embaixo de três coruja? Aliás, qualé a chance de três coruja resolver aparecer e pousar assim, junto, uma do lado da outra, cada uma num pau?

Mas o Nego Tiriça estalou os beiço, duvidando que os bicho tinha salvado a pele dele. - Coruja significa morte, mano - disse o negão. - Se dependesse desses bicho aí, agora eu tava era atirado ali no pátio da mulher, com as paleta tudo furada.

Daí, foi a vez do Nego Bota Fé estalar os beiço.

- Não fala cocozinho, sangue bom. Na real, eu não sei se foi as coruja mesmo que te salvou ou não, mas coruja não significa morte porra nenhuma. Coruja é sinal de sabedoria, tá ligado - ele falou isso botando o dedo do lado da cabeça. - A minha coroa era de religião, na antiga, e me ensina vários bagulho.

- A tua coroa sabe o que que significa os número também? - eu perguntei.

- Ué, ué, por quê?

- Porque eu não tô encucado com as coruja. Eu tô encucado mais é com o número três, na real. Te liga só: nós tamo aqui, entre três, certo? Daí, teve os três malandro que descero a Vilinha e foro lá pros lado da Viçosa. Agora, três coruja... 

O Nego Bota Fé botou a mão no queixo e ficou pensando.

- Na real, eu não sei se o número três significa alguma coisa. Mas é o número do Obaluaê.

- Obaluaê? - disse o Nego Tiriça.

- Isso. É um orixá - o Nego Bota Fé enrugou a testa e inclinou a cabeça pro lado. - Porra, mano, pior que o Obaluaê não gosta de claridade...

- Tá, e o que que tem de mais ele não gostar de claridade?

Eu fui mais rápido que o Nego Bota Fé e respondi pro Nego Tiriça:

- Tem, que tu podia tá morto agora, se a luz da baia da mulher não tivesse apagado bem na hora certa.

O Nego Tiriça riu.

- Ah, vai cagar, vocês dois! Deve ter sido a mulher mesmo que desligou a luz. Não tem nada de mais nisso.

- Olha, se foi a mulher que apagou a luz ou não, eu não sei, porque eu não tô lá dentro da baia pra saber - disse o Nego Bota Fé. - O que eu sei é que, olha lá, ó: lá vem a Dona Márcia, com a Ju e com o Vini. De novo, três.

Eu olhei lá pros lado da Viçosa. Pior que lá vinha mesmo a Dona Márcia, de mão dada com o Vini e segurando a Ju no colo com a outra mão. Eu fiquei meio preocupado. Por que será que a tia tinha saído a bater coxa àquela hora, com as criança embaixo do braço? Quando ela chegou perto da gente, eu já fui logo perguntando:

- Que que deu, tia?

Ela revirou os olho e apertou os beiço.

- É o Vinícios. Passou a noite todinha miando, com dor de ouvido. Enfim, tô levando a criatura no posto agora, porque se deixar pra de manhã, já viu: eu fico até meio-dia esperando ficha. Aí, tem mais esse saquinho de batata aqui... Eu não quis deixar ela sozinha em casa...

Viúva. Marido morto a machadada lá em cima, na Quinze, confundido pelos traficante com o louco que andava assaltando o pessoal nas parada do bonde. Duas criança pequena pra criar, fora a Denise, a mais velha, de quatorze, que tinha fugido da baia e agora vivia troteando por aí, por tudo que é canto, que nem mendiga, grávida não sei de quem, chupando pau a cinco pila pra fumar pedra. Mano... Tu quer me ver doente? Canta pra mim uma bossa nova, dessas que fala da beleza da vida e do mundo.

Eu inclinei a cabeça pro lado pra tentar ver o rostinho da Ju: tava ferrada no sono, tadinha, com os bracinho em volta do pescoço da Dona Márcia. Depois eu olhei pro Vini: tava de mão dada com a Dona Márcia, e tava com a outra mão no ouvido que tava doendo.

- E aí, sangue bom, qualé que vai ser? Tá doendo muito?

O guri nem me deu bola. Tava virado pro outro lado, olhando lá pros lado da Viçosa.

- Que tanto ele olha pra lá, tia? - perguntou o Nego Tiriça.

- Ah, é, eu ia falar, acabei me esquecendo - disse a Dona Márcia. - Tem um infeliz atirado lá na rua do campo. Vocês não viro?

Eu e o Nego Tiriça respondemo ao mesmo tempo: "Não vimo".

- Quem é? - perguntou o Nego Bota Fé.

- Pior que nem sei, Bota Fé. De longe, não deu pra ver. Tá atirado lá pra baixo, perto do mato. Mas já tem uma viatura lá, na volta do corpo.

- Porra, eu vou lá dar uma bicada.

- Pior, eu também.

- Vamo lá, vamo lá.

- Então tá, guris - disse a Dona Márcia, se despedindo. - Deixa eu subir essa lomba fodida, que "o tempo ruge e a Sapucaí é grande".

A gente respondeu tudo junto: "Tchau, tia". Daí, quando nós tava indo lá pros lado da Viçosa, o Nego Tiriça comentou:

- A Dona Márcia até que dá um caldo bem gostoso.

E o Nego Bota Fé:

- Mas mete os pé uma hora, negão, mete os pé, que ela deve tá carente, bota fé, bota fé. Quando a gente já tava descendo a rua de terra que passa do lado do campo, nós vimo, lá embaixo, o corpo atirado, a viatura estacionada, e os porco na volta. Os três porco na volta.

- Se eles perguntar aonde é que nós vamo, nós dizemo o quê? - perguntou o Nego Tiriça. 

- É melhor não mentir, negão - eu disse. 

- Pior - concordou o Nego Bota Fé. - Vamo inventar de mentir, vamo acabar se atrapalhando ainda. Não: nós tava ali, de bobeira na praça, a tia passou e falou do corpo, nós viemo ver. Pronto.

Os porco nem disfarçava a cara de cu. Imagina: um Zé Ninguém morto por outro Zé Ninguém em Lugar Nenhum por motivo que não interessa: eles não fazia a menor questão de tá ali, e não via a hora de ir embora dali de uma vez. Quando a gente chegou perto, um deles, que tava anotando alguma coisa num bloquinho, perguntou, mas sem se dar ao trabalho de tirar os olho do bloquinho:

- Vocês conhece esse bosta aí?

Eu olhei pro morto, que tava de bruços, todo torto, deitado por cima dum braço. Sim, eu sabia quem era. Eu conhecia de vista. Eu sabia o nome dele. Eu não só sabia o nome dele, como eu também sabia o nome dos outro dois malandro que tava com ele, um minuto antes dele ir pra banha. Mas seguinte: eu não sou filho de pai bobo, e por isso eu respondi assim:

- Nunca vi mais gordo.

O Nego Bota Fé e o Nego Tiriça me acompanharo na mentira, lógico.

- Eu também nunca vi.

- Nem eu.

Eu notei um detalhe: dero um caminhão de estouro no malandro, uns treze, quatorze estouro, mas só que nem todos pegaro. É claro que eu não sei o que que aconteceu nos último momento de vida daquele malandro atirado ali na minha frente, mas pelo jeito ele tinha se ligado que iam matar ele e tinha saído correndo. Daí, quem deu os estouro nele, teve que atirar de longe, e por isso errou a maioria dos tiro. Só três tiro pegaro.

- Três tiro no meio da paleta... - eu comentei.

Pela primeira vez, o porco que tava anotando no bloquinho se dignou a me olhar com o canto do olho. Eu percebi que na real ele ia dar só uma bicadinha em mim e depois ia continuar olhando pro bloquinho, mas ele viu alguma coisa em mim que chamou a atenção dele, e por isso ele deu aquele golpe de vista duplo, tá ligado. Tipo, olha, não olha, olha, bem rapidinho. Daí, sim, ele esqueceu aquela porra daquele bloquinho, tirou a bunda do capô da viatura, botou as mão na cintura e ficou de frente pra nós, olhando eu e os nego um por um, com a testa enrugada.

- Vem cá: quantos anos vocês têm?

- Quinze.

- Quinze.

- Quatorze.

Ele abriu um sorriso - um sorriso cheio de raiva. Não sei do que que ele tava com raiva, na real. Nunca entendi. Eu acho que se pá ele pensou em pegar o nosso depoimento, e não deu, porque nós era de menor.

- Some daqui, seus filho da puta. Acabou a noite pra vocês. Não sei nem o que que vocês quer na rua essa hora. Vai, vai, vai!

Beleza. Não falemo nada. A gente só se virou e começou a subir de volta a rua de terra. E quando nós já tava meio longe, o porco ainda gritou na nossas costa:

- Cada um pra sua casa, hein? Se eu pegar vocês na rua, eu vou bater em vocês até eu me cansar!

A gente obedeceu: cada um foi pra sua baia. Eu já tava louco de sono, na real. Cheguei na baia só querendo me enfiar embaixo das coberta e desmaiar. Mas eu fui dar uma bicada na hora, antes de deitar. E foi assim que eu descobri que, enquanto eu me estragava lá na rua, o rádio-relógio também tinha se estragado, dentro da baia. Porque eu tinha noção que já devia passar de cinco da manhã, já devia tá quase amanhecendo, mas o rádio-relógio tinha parado de funcionar no meio da madrugada, e não tava avançando nas hora, ele ficava só piscando, só mostrando os número da hora que ele tinha travado: 3:33.

Eu lembro que, nessa vez aí, depois que eu me enfiei embaixo das coberta e desmaiei, eu sonhei com um maluco cheio de ferida. Foi um sonho estranho pra caralho, na real. Esse maluco cheio de ferida me protegia, ele não deixava ninguém me fazer mal. E ninguém gostava de ficar perto dele, nem de olhar pra ele, por causa das ferida dele. Mas eu gostava de ficar perto dele, porque ele me protegia, e quando eu olhava ele de perto, eu conseguia ver que ele era um cara bonitão. Com as ferida tudo dele, ele era muito mais bonitão do que as pessoa sem ferida. 

José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os supridores (Todavia, 2020). Escreve semanalmente para a revista digital Parêntese.