Bonecão

Irka Barrios

O problema se tornou tão grave que nos obrigamos a trocar Isabela de quarto. Bruno a carregou nos braços enquanto eu, sonolenta e meio apressada, juntei do chão seus objetos de maior estima: o urso de pelúcia e o travesseiro fedido, tomados de ácaros e secreções nasais de uma vida toda. Com as garras à mostra, a coluna arqueada e o pelo eriçado, Leopoldo nos observava da porta como quem diz "andem logo com isso". O corpinho amolecido de Isabela parecia sem vida, as pernas e os braços pendiam, assim como a cabeça. Desviei o olhar e tentei me concentrar nas tarefas que me cabiam para que pudéssemos dar o fora dali o quanto antes.

A tempestade havia arrefecido quando nos sentamos, Bruno e eu, na cozinha para um chá. Isabela deixara de relutar contra o sono e pudemos respirar por uns instantes. Só Leopoldo não cedeu. Escorado no canto da porta, fazia questão de mostrar as presas.

- Parece um filme - Bruno disse.

- Acha que devemos procurar um psicólogo?

- Amanhã - ele respondeu após empinar a caneca de chá -, sem falta.

Levantou-se e me estendeu a mão. Ao passarmos pelo escritório onde improvisamos a nova cama de Isabela, espiamos da porta. Dei um passo à frente, com vontade de me aproximar e beijá-la, mas Bruno adivinhou minhas intenções e me conteve. Colocou o dedo indicador sobre a boca e sibilou. Melhor não acordá-la. Aquele sono pacífico era cada vez mais raro.

Dormimos. Na manhã seguinte perguntei a Isabela se ela havia sonhado.

- Sim - ela respondeu -, com o bonecão.

- Filha, ele não pode te fazer mal - argumentei.

Ela abaixou os olhos para sua caneca e mordiscou um pedaço da torrada. Bebeu um gole e levantou, deixando mais da metade do café sobre a pia.

- Ô menina, assim vai ficar fraca - eu ainda tentei negociar. Ela nem me olhou.

Foi a loja de departamentos que instalou o bonecão. Na época, achamos muito divertido. A loja era a grande novidade do bairro e muitos moradores se entusiasmaram com a promessa de tornar um pouco mais comercial um bairro tomado de residências. E havia aquele terreno enorme, improdutivo, criadouro de mosquitos e roedores, depósito de sofás velhos, roupeiros empenados e colchões, ponto de drogas, ponto de prostituição. Ninguém nutria simpatia pelo terreno, a esmagadora maioria dos moradores do bairro concordava que ele poderia ter um melhor fim. Um ou outro vizinho, geralmente os mais chatos da associação, viviam impondo empecilhos. Mas assim que começaram os boatos de que havia uma rede de lojas interessada no local, juntamos um comitê às pressas e nos dirigimos até a prefeitura para pressionar. Não sei dizer se foi por conta da pressão ou pura sorte, mas o fato é que não demorou a sair uma decisão favorável à desapropriação do terreno. Estávamos muito animados para o início das obras, o que ainda demorou cerca de três meses. Sossegamos apenas no dia em que vimos a placa gigantesca com o anúncio, o mesmo que víamos nas propagandas da televisão. Houve festa, vizinhos promovendo churrasco na calçada e um foguetório patrocinado pelo proprietário da casa do final da rua. Grudada ao terreno, a casa era revestida de cercas e alarmes, um verdadeiro quartel-general dos equipamentos de segurança. Não havia como ser diferente, o vizinho sofria assaltos e invasões a cada seis meses.

O período da construção da grande loja intensificou nossa ansiedade, muita gente desviava de sua rota original para passar na frente da obra e verificar o avanço. Mas, para nosso alívio, tudo se deu muito rápido e em mais três meses a construção estava de pé. Em maio, duas semanas antes do dia das mães, ocorreu a aguardada cerimônia de inauguração, anunciada em rede nacional com diversas promoções. Bruno, Isabela e eu estávamos lá. Não achamos os preços tão atrativos quanto os que a propaganda anunciava, mesmo assim compramos roupas de cama novas, parceladas em dez vezes sem juros. A funcionária do caixa, uma vizinha jovem que nunca foi de se emperiquitar, ostentava uma trança dura e maquiagem colorida nos olhos. Seus dentes reluziam a iluminação abundante. Ela recebia o dinheiro do pagamento e oferecia mais um item pequeno: "vai que você chega em casa e se dá conta que não tem um saca-rolha? Não? E quem sabe um chocolatinho para a sobremesa?". As demais caixas seguiam o mesmo padrão, de fisionomia e de comportamento. O exagero de simpatia das moças nos seduzia. Sempre que possível, inventávamos uma desculpa para dar uma passadinha na grande loja e buscar algum produto, nem que fosse um pano de pia. E nos orgulhávamos de desfilar pelas ruas do bairro exibindo as sacolas plásticas verde e amarelas. Com o tempo, entretanto, as idas se tornaram mais esparsas porque, após muito relutar, admitimos que os preços eram inacessíveis para os nossos bolsos. Não demorou a iniciarem os comentários, diziam que a loja estava mais vazia e fofocavam sobre o futuro incerto de alguns funcionários. Mas alguém lembrou que a grande loja atrairia outros consumidores, dos bairros mais nobres, a pouca distância dali. Foi mais ou menos nesta época que inflaram o bonecão. Tinha a cara do dono da loja transformada em personagem de desenho animado. Um boneco tão grande que conseguíamos enxergar da janela de nossa sala. Juntas, assistimos àquele colosso tomar forma. Isabela olhava e dizia:

- Tenho medo dele.

Eu a acalmava:

- Boba, não tá vendo que ele tem uma capa? É um super-herói, igual aos dos desenhos. E olha que lindos os olhos dele, tão azuis.

Bruno nos interrompeu. Bateu a porta, pendurou o casaco no espaldar da cadeira e despejou a triste notícia. Sua empresa reduzira a carga horária de vinte e três funcionários. As coisas iam mal, a economia permanecia instável, a bolsa em queda, o dólar nas alturas e todas aquelas explicações que ninguém compreende muito bem, mas parecem plausíveis para a contenção das despesas. Eu o abracei por bastante tempo, e não percebemos Isabela se afastando. Só ouvimos o grito. Corremos até o quarto e nos deparamos com nossa filha trêmula, apontando para a janela. O bonecão era bem mais visível dali. Eu me preocupei, quando criança também tive medos irreais. A forma mais rápida de oferecer proteção à minha filhinha foi correr até a loja e empenhar meu cartão de crédito em mais dez prestações. Comprei uma cortina de tom claro, longa e sem transparência.

- Pronto, filha, se você não gosta do bonecão é só não olhar - Bruno disse enquanto aparafusava o estrado.

Isabela passou a apreciar a penumbra, reclamava quando eu erguia a cortina e nunca mais admitiu a persiana aberta. Ficava pouco tempo na sala e, quando nos dava a honra de sua companhia, recusava-se a olhar para o lado da janela. Sempre exigia que a fechássemos. Eu tentava colocar-me como uma ouvinte confiável, transmitir-lhe segurança e fazê-la desabafar, mas ela se transformava numa criaturinha irredutível: o bonecão era mau. E muito feio.

O aliado que Isabela encontrou foi Leopoldo. De uma hora para outra, o gato parou de se deleitar com o solzinho que batia no parapeito das janelas. Passou a se esconder, tornou-se arisco. Só não se separava de Isabela, seguia-a por todos os cantos. Nessa mesma época começaram os pesadelos. Ela acordava gritando e o sonho era sempre o mesmo: o bonecão a atacava. Com uma faca, com um revólver ou com as próprias mãos. Corríamos até o quarto e encontrávamos as cortinas abertas e Leopoldo retesado, mostrando os dentes.

A situação tomou um rumo tão grave que Isabela passou a dormir no nosso meio. Tentávamos enganá-la: ela pegava no sono e Bruno a levava para a cama. Deixávamos todas as portas abertas e contávamos com a vigilância de Leopoldo. E, claro, não ousávamos abrir as cortinas.

Na noite do pior pesadelo, aquela em que a transferimos para o escritório às pressas, dei-lhe razão: o bonecão parecia mesmo bem próximo da janela. Não sei se foram os clarões dos relâmpagos ou o sofrimento de minha filhinha que sugestionaram minha impressão. Na manhã seguinte, com uma enorme taça da café preto, aproximei-me da janela para melhor analisá-lo. Tentei, mas não consegui enxergar agressividade no boneco gigante. Os olhos eram redondinhos, amáveis, o sorriso amigável.

Quando encontramos um psicólogo que coubesse no nosso orçamento, as coisas estavam fora de controle. Isabela se recusava a entrar no quarto até para pegar brinquedos e, aos poucos, nos surpreendeu com outros distúrbios. O mais angustiante era o hábito de morder os cantos dos dedos. Ela cravava os dentes e arrancava a pele até fazer sangrar. Doía, na expressão dela a gente notava que doía, mas a gana era mais forte. Comprei esparadrapo e enrolei várias camadas nas pontas dos dedos dela. E intensifiquei a vigilância, porque a qualquer descuido, Isabela arrancava os esparadrapos e mordia os courinhos com vontade. Leopoldo a imitava, só não a ponto de se automutilar. Lambia as patas o tempo inteiro e era certo que este comportamento causaria feridas. Pelo telefone, a veterinária confirmou minha suspeita e agora eu tinha mais preocupações: comprar o protetor de cabeça em forma de cone e vigiar o gato. Minha filha regredira a ponto de eu ter que escolher roupa, sapato, meias e calcinhas, o gato se escondia para lamber as patas, Bruno chorava os cortes de salário, e eu andava exausta. Bebia o café me comunicando com o bonecão. Dirigia a ele os piores insultos de meu vocabulário.

Uma noite, após uma garrafa de vinho, convidei Bruno a participar de um plano que eu vinha bolando. Estacionaríamos o carro o mais próximo possível do bonecão, ele ficaria no volante e eu, com a ajuda de uma agulha de tricô, furaria o plástico que dava forma àquele monstro. Apresentei minha estratégia, pronta desde o dia em que ouvi, por coincidência, um funcionário da segurança comentar que a grande loja havia dispensado metade dos vigilantes. Restavam apenas dois, um para a frente da loja e outro para fazer a ronda. Busquei o tom mais ingênuo para puxar o assunto do bonecão. Elogiei a iniciativa, desejei melhores vendas e assim que consegui a atenção de meu interlocutor, perguntei se, por trás das câmeras de segurança, o bonecão era tão imponente quanto visto da rua. Mais um golpe de sorte, ele disse que não sabia, o bonecão fora posicionado num ponto cego. Aproveitando a tonturinha do vinho, contei tudo isso ao Bruno, mas ele não se abalou. Não estava de acordo com uma ação que classificou como terrorismo. Foi preciso Isabela, nossa filhinha tão doce e delicada, cortar os dedos, os braços e os pulsos com a lâmina do estilete da escola, para que Bruno me chamasse na cozinha e dissesse que sim, íamos furar aquele monstro.

Na manhã programada para a ação, eu tremia de medo. Segurava a agulha e ela escorregava no suor que vertia das minhas mãos. Usei uma peruca, uns óculos enormes e é claro que alteramos a placa do carro. Por incrível que pareça, Bruno tomou a frente quando eu estava para desistir. Dirigiu devagar, estacionou bem perto e deu um leve tapinha no meu braço: "vai". Eu saltei sem pensar, caminhei com bastante cautela até a minha vítima, desembainhei a agulha e a enfiei no calcanhar do bonecão. Olhei para os lados, ninguém por perto. Olhei para o bonecão e ele não parecia alguém que estivesse se esvaindo. Cheia de coragem, peguei a faca de pão, uma arma reserva para um caso extremo. Golpeei o bonecão no mesmo lugar e notei que um talho se abrira. Corri até o outro calcanhar e repeti a operação. O barulho do ar vazando soou como sinfonia. Mas não era o suficiente, eu precisava destruir o exaustor que alimentava o monstro. Não foi difícil acertar a faca de pão no meio das hélices. O exaustor fez um barulho rouco que foi se elevando devagar. Só se tornou alto o suficiente para chamar a atenção do guarda quando eu bati a porta do carro. Bruno acelerou no momento em que o exaustor explodiu. Não saímos cantando pneu, embora fosse nossa vontade. Saímos a vinte por hora, simulando perplexidade.

Da janela de nossa sala, observamos aquele bonecão desinflar aos poucos. O monstro foi murchando, murchando, e de repente os olhos redondos e alegres se mostraram bem assustadores, do jeito que nossa filha descrevia.

Levou cerca de meia hora, talvez um pouco mais, para o bonecão sumir de nossa vista. De noite, o jornal noticiou a procura pelos arruaceiros que furaram o boneco, bandidos que conspiravam contra o sucesso de uma loja tão importante para o bairro. No final da matéria, o dono da loja aparecia prometendo outro boneco, ainda maior.

- Ninguém vai nos parar - vociferou.

Isabela voltou para o quarto, mas seu comportamento não mudou. Ela, agora, fica na janela, dia e noite, olhando para fora, como quem espera.

IRKA BARRIOS é mestre em Escrita Criativa (PUC-RS). Autora de "O coelho branco" (Amazon, 2015) e de "Lauren" (Ed. Caos & Letras, 2019). Colaboradora do Escuro Medo e da Revista Ventanas, professora na GOG ideias. Atua na organização do coletivo Mulherio das Letras - RS. 

Foto: Alexandre Alaniz