Californiafake

Marcelo Rubens Paiva

Durante um ano cruzei com aquele O Pensador, que pensava, pensava, pensava imóvel na rota entre o quarto-sala bem decente do predinho em que morava e o lago artificial com praia artificial, no meio da universidade, Lagunita, onde eu ia fumar maconha, e onde soube que, se fosse pego, seria cana na certa, com deportação. Comecei a cantar sem parar Red Hot Chili Peppers:

Pay your surgeon very well

To break the spell of aging

Celebrity Skin is this your chin

Or is that war your waging?

Dream of Californication, dream of Californication...

Pague seu cirurgião muito bem para quebrar o feitiço do envelhecimento, pele da celebridade, esse é o seu queixo ou sua guerra pessoal, fútil, vazia, falsa? Fake, fake, fake. Californiafake. Sorrisos em excesso. Tudo de mentirinha. Califórnia dá bode. Califórnia, no final das contas, era um tremendo de um pesadelo com muita gente bilionária de pensamento binário, individualista, metida, babaca, que acha aquilo um sonho, ficar enfurnado bolando startups para ficar rico, ou melhor, milionário, ou quem sabe bilionário, pensando em si, somente em si, para si, pelo si. Cercado pela maconha mais bem colhida da face da Terra, que aos poucos foi sendo legalizada para uso medicinal e depois recreativo, não se podia fumar dentro de um raio de cinco milhas do campus, um estudante coreano me viu com um baseado na mão, sentiu o cheiro, correu e me alertou. Se eu imaginava que vivia um california-dream, constatei que os hippies acabaram há muito, provavelmente pouco depois da dinheirama da indústria da informática jorrar por aquele vale e veias, ou foram absorvidos por ela, e que a música California Dreamin' such a winter's day não fazia mais sentido, não tinha mais nada a ver com o lugar onde só se pensa em dinheiro, sucesso, gerenciar, empreendedorismo, onde estudantes ficam milionários da noite pro dia, com ideias simples, nerds ficam bilionários sem se levantarem da cadeira, enriquecem bolando paliativos, programas, games, joias e moedas virtuais, explorando o serviço de uma massa trabalhadora sem direitos trabalhistas, inspirando outros "gênios", que virou definição de quem ganha mais dinheiro numa rede em que ninguém sabe como será o futuro.

All the leaves are brown, and the sky is grey.

I've been for a walk, on a winter's day.

I'd be safe and warm, If I was in L.A.

California dreamin' on such a winter's day

Vai se sentir seguro em Los Angeles? Só se for branco. Só se não for imigrante ilegal. Só se nunca perder o emprego, a casa para um banco, o plano de saúde, e nunca ficar doente, mas nunca. Só não vê quem não quer, ninguém mais perde o coração em San Francisco, como diz outra música hiporonga, que my love waits there in San Francisco, o que é mentira, porque esse love está em casa, diante do teclado, bolando algo que lhe dê dinheiro, não quer ver ninguém a não ser um avatar virtual, que se no passado o love tomava LSD no parque, via o céu brilhar no deserto que cerca a cidade, via arco-íris em toda parte, agora está de olho no brilho de telas de relógios, smarts, tablets, notes ou laptops, em redes sociais, se comunicando, trocando informações, e como a pessoa não sai, não sabe paquerar, ter contato físico, jogar conversa fora, xavequinho romântico, papinho cabeça, e prefere o pragmatismo da foda: inventa aplicativos para encontrar uma transa remota ou um grande amor.

My love waits there in San Francisco

Above the blue and windy sea

When I come home to you, San Francisco

Your golden Sun will shine for me

Até já rolou um grande amor em São Francisco. Mas não mais. Rolam agora transas rápidas, ninguém está te esperando, a fila voa, o cupido é um algoritmo, não tem envolvimentos profundos, mas muita ansiedade no ar, abaixo do fog da baía ou da secura do deserto, cercados pelas chamas de florestas em fogo, chacoalhada por tremores e terremotos: a era do susto constante, da surpresa diária, do novo aplicativo ou rede social que devemos baixar.  


Marcelo Rubens Paiva é um escritor, dramaturgo e jornalista brasileiro. Filho de Maria Eunice Facciolla e Rubens Beyrodt Paiva. Pai do Joaquim e Sebastião. Autor de 17 livros, entre eles, Feliz Ano Velho, O Homem que Conhecia as Mulheres, A Segunda Vez que Te Conheci, e de 11 peças de teatro.