Carnaval 2022

Fernanda Hamann

Estava satisfeita que a pandemia não tinha destruído o nosso namoro, quase dois anos dividindo apartamento. Só assim pra segurar o garanhão da faculdade, repetiu o seu pai no zoom do natal. Essa piada nem me incomodava mais. Eu até achava charmoso, o tipo de bobeira que vem com a paixão: que homem potente, vem comigo enfrentar quarentena, vírus, bolsonaro, do seu lado aguento qualquer desafio. A sua primeira dose da vacina, a minha, a sua segunda dose, a minha. A cumplicidade doméstica. O rodízio dos cômodos compartilhados, fabricando pra cada um o seu mínimo de espaço subjetivo. Os nossos celulares se confundindo. Era o seu, pensei que era o meu. De repente, aquele aplicativo. Uma loira de minissaia, perna cruzada, à la sharon stone. Uma ruiva magrela que parecia menor de idade. Outra que já postava os peitos na foto de perfil. Contei nove mulheres, antes de jogar o telefone pro lado, sem conseguir enxergar mais nada. Tá vasculhando a minha privacidade?, você reclamou. Pedi desculpas, corri pro banheiro, pro chuveiro quente, o meu lugar de choro.

Nenhum de nós teve coragem de voltar no assunto. Nesse silêncio ruidoso, desenvolvi uma atração masoquista pelo seu celular. Depois de cada noitada de bebedeira e netflix, eu me empenhava no sexo pra garantir que o seu sono seria profundo. Quando te ouvia roncar, sabia que podia voltar lá, abrir o aplicativo, a sharon stone, a lolita, a peituda. Lia as trocas de mensagens numa satisfação torta. E na primeira hora de 2022, quando a gente estava de branco, bebendo espumante na varanda, brindando à queda na taxa de contágio, aproveitei que você foi na cozinha e dei outra espiada, uma morena linda, será que vocês transavam online? De novo, eu não soube disfarçar, e você esbravejou, meteu a máscara, saiu de casa.

Voltou de manhã, a máscara no queixo, o bafo de cerveja, propôs uma conversa. Eu te amo, mas não consigo ficar com uma mulher só, você disse com todas as letras a frase mais honesta que ouvi sair da sua boca. Nos abraçamos, choramos, trepamos, fingimos que não existia planeta pra além da borda do sofá em que caímos juntos. Levantamos quando não dava mais pra adiar a fome. Enquanto eu preparava uma omelete, você puxou o papo: e o carnaval?

O que que tem?, perguntei. E você disse que viu num filme uma história assim: um casal monogâmico que, só no carnaval, tinha um acordo de poligamia. Que filme é esse?, eu quis saber, mas você não lembrava, então deduzi que era um filme na sua cabeça. Na minha, passava o seguinte: essa situação de tristeza, raiva, paranoia, oitocentos mil mortos, essa proximidade com a morte faz a gente repensar a vida inteira. Acho que te surpreendi quando concordei rápido demais.

Fevereiro trouxe o milagre da flexibilização. Acordei com um bilhete no seu travesseiro: fui <3. O folião mais ansioso do carnaval paulistano. Eu, ao contrário, nem tinha fantasia. Mas o verão me empurrava pra rua. Com uma tesoura culinária, improvisei dois buracos pros olhos na máscara preta antiviral. Não liguei pras amigas. Preguiça de remendar os laços esgarçados pelo isolamento. Saí com roupa de ficar em casa: short jeans surrado, documento e dinheiro no bolso, blusinha de alça, sem sutiã, sem celular, sem álcool gel.

No ônibus, foi estranho sentir o vento quente soprar, pela janela aberta, no meu nariz exposto, na minha boca exposta, que queria engolir a paisagem urbana, antes claustrofóbica, agora libertária. Perto do viaduto, entraram um homem-aranha e uma mulher-maravilha. Depois um pierrô, uma colombina, um arlequim, com sacos de confete e serpentina. Chegando na vila madalena, já dava pra ouvir a bateria, a rua tomada pelo bloco. O motorista pegou uma via alternativa, o carnaval tem isso de mudar os rumos. Num certo ponto, desci com palhaços, bailarinas, heróis, heroínas; nos aglomeramos na massa de gente, um braço esbarrou no meu, um braço puxou o meu, mulher-gata, máscara negra, um sorriso frouxo, uma cerveja na lata, do ambulante, sem lavar, sem desinfetar, será que pode?, pode sim. Avancei no sentido do bloco, bem pertinho dos músicos, o som atravessava o peito, jogava o meu corpo pro mundo. Me enfiei no cordão em volta da banda, e um zorro do meu lado esquerdo levantava e baixava as mãos, me forçando a dançar também. Num puxão, ele me roubou um beijo, eu não resisti. Do meu lado direito, um policial, seria muito clichê, pensei, primeiro o ladrão depois o mocinho, mas no final foi isso mesmo, alguns clichês são deliciosos, o policial me beijou com rigor, disciplina, língua dura. O bloco seguiu até a Mercearia São Pedro, onde tinha outra muvuca, me larguei, me perdi, sem amiga nem namorado, sem bandido nem polícia, dei beijo em marinheiro, beijo em lobo mau, até numa borboleta, todo mundo trocando saliva, gosto, cheiro, tato, tanto tempo adiado.

Parei no balcão, pedi uma cerveja. Na minha nuca, senti a solidez de um olhar. Virei a long neck em seis ou sete goles. Não era impressão: tinha mesmo um olhar que me aquecia o pescoço por trás, lendo o rastro dos meus beijos, quem sabe até testemunhando. Levei um susto quando vi você, me encarando, do outro lado da rua. Acenei com alegria. Meu amor. Você continuou parado, olhando, sem máscara. Tirei a minha também. Saí do bar lotado, abri caminho no empurra-empurra, até conseguir te abraçar. Mas você se afastou. Oi, querido, a minha voz tremeu. Sua piranha, você gritou, e me empurrou com força, e eu tombei no asfalto, no vazio entre as pessoas.




Fernanda Hamann é psicanalista, escritora e pesquisadora das relações entre literatura e psicanálise. Publicou o romance Cativos (7Letras, 2015), a autoficção Coisas bizarras que você só descobre quando está grávida (Rocco, 2015), a biografia Teomila: guerreira da bola de fogo (Oito e Meio, 2018) e mais de dez livros como redatora e ghostwriter. Em 2020, venceu o edital Arte como Respiro do Itaú Cultural com o conto Resto. Atualmente, é professora na pós-graduação em Escrita Criativa do NESPE (Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais) e faz pós-doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.