Carta ao meu Vô Armin

Morgana Kretzmann

Oi Vô!

Sei que demorei a escrever essa carta. Quase 30 anos, né?

Mas é que a nossa despedida foi difícil, eu não queria deixar o senhor partir, coisa de criança que não entende ainda sobre a vida, muito menos sobre a morte.

Eu lembro daquele dia no hospital que estávamos só eu e o senhor no quarto, naquele quarto do lado da sala de enfermagem, e o senhor sentou na cadeira do lado da cama e chorou escondendo o rosto. Eu saí do quarto, fui até o corredor, me escorei na parede que dava para o seu quarto e chorei junto, mas escondida, não queria que o senhor sofresse ainda mais me vendo sofrer também. Demorei anos pra entender que seu choro era de despedida, porque acho que o senhor sabia que precisava ir, mas no fundo não queria.

Por isso estou lhe escrevendo, para lhe contar coisas que tenho certeza que vão lhe deixar faceiro, pois queria ter lhe feito sorrir naqueles seus últimos dias, mas não soube como.

Eu me formei em Gestão Ambiental num instituto federal de uma cidadezinha praiana linda, onde fui morar. Lembrava do senhor, do seu sorriso de lado e olhos sempre lacrimejados, em cada saída de campo que fazia com a minha turma da faculdade, indo em cada propriedade rural de agricultura familiar.

Ah! Agora eu moro em São Paulo, Vô, acredita? Sim, a sua Mogui (pois foi o senhor que me deu esse apelido) está morando em São Paulo. Sua neta, neta de leiteiro, agricultor, colono, sua neta que nasceu na barranca do Rio Uruguai, né, Vô?! Numa localidade de chão batido, lá na Barra Grande, que falava errado, muitas vezes comendo um dos erres, ou os dois, e colocando um "L" no lugar.

Vô, eu escrevi um livro, um não, dois, um infantil e uma novela. E também estou escrevendo uma série para a televisão. Lhe conto isso, pois sei que seu sonho era ver seus netos trabalhando em algo que os deixassem felizes. Eu estou feliz, Vô.

O livro infantil foi para o meu TCC e tem muito do senhor nele.

A novela se chama Ao Pó, o pó de terra vermelha da nossa Bela Vista, já foi lançado e pra minha surpresa, foi bem recebido por gente muito generosa. Pessoas queridas e experientes me ajudaram e trabalharam muito comigo nesse livro, até mesmo o grande escritor gaúcho e professor de literatura, Assis Brasil, ainda não acredito na sorte que tive.

Sabe Vô, o Dani se formou em zootecnia e ele tem uma filha, Anna Claudia, o nome dela, sua bisneta. Ela é muito esperta e nunca reclama de nada, é a criança mais feliz que conheço. Tem pouco mais de dois anos e já vemos muito do senhor nela. É muito segura de si e já sabe dizer não melhor que sua tia. Adora uma roupa nova, acho que puxou ao Dani.

Se não fosse a pandemia o Emanuel já estaria formado. Mas ele está se saindo tão bem, tão zeloso e trabalhador, cuidando de tudo lá embaixo, e cuidando muito bem, junto com o Dani, o senhor teria muito orgulho deles se estivesse aqui. Quer dizer, o senhor deve estar muito orgulhoso deles aí de cima.

Obrigada por ter me ensinado tanto, Vô, principalmente a não ter medo de sentir e de expressar meus sentimentos, antes, pequena, expressava chorando, hoje expresso escrevendo, mesmo ainda chorando às vezes.

Sei que nunca lhe disse, mas eu lhe amo.

Mogui.  


Morgana Kretzmann é escritora, autora do elogiado romance Ao pó, seu livro de estreia. Roteirista, atualmente trabalha em um novo projeto de série para uma plataforma de streaming. Editora da RevistaRia, a revista literária da Ria Livraria, que logo, torçamos, estará com suas portas reabertas. Atriz, atuou em diversos filmes, séries e peças de teatro, entre eles o curta-metragem, premiado nacional e internacionalmente, A Pedra, que abriu o Festival de Gramado de 2018 junto com longa-metragem Bacurau. Trabalha atualmente na produção de dois novos romances policiais que se passam no interior profundo de um Brasil extremo ainda desconhecido.

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