Carta para Adriana

Monique Malcher

Colagem de Monique Malcher

Escrevo o nome dele num papel do caderno pautado, rasgo o pedaço. Sozinho em minhas mãos. Um homem é mais que um nome, mas um nome se preenche de ações. Coloco para boiar no lodo que se forma embaixo da pia no quintal. Quebro um ovo estragado, que sulfura em cima do nome e o revela, como pensam que nasceu para fazer. Nem tudo nasce podre. A vida interrompida do ovo age interrompendo a maldade que finca nos ossos desse homem maldito.

Volto sempre para os lugares de que sou feita, as casas antigas da infância, para atar pensamentos, meditar ódios que não são permitidos falar na voz mais alta. Fala baixo, nos dizem, nesse disciplinar do corpo. Depois que aprendi que as palavras tem som, o meu não é mais o mesmo. Chacoalho perto dos ouvidos os ovos, os que estão em silêncio alimentam. É do barulho que se revela a podridão, foi assim que me ensinaram, ao menos para o mundo dos ovos funciona assim. Por qual razão nosso silêncio "tão mulher" alimenta esses nomes que escrevo no caderno e rasgo, rasgo, rasgo?


Acabam as folhas e não acabam esses edifícios que querem ser nossa morada.


Pensei em você esta tarde, enquanto viajo deitada na cama observando em sonhos o quintal e sinto o lodo nas mãos. Pensei em você, Adriana Araújo. Esse é seu nome, e não esqueço desde que vi seu rosto marrom com a bolsa dos olhos roxa enegrecida. Sem lágrima alguma, mas com todas prontas para cair do seu olhar. A lágrima retida é a que mais dói nesse acordo de ser forte.


O braço saudável segurando o outro repousado em tipoia.


Minha lágrima é um canivete que gostaria de retalhar a cara desse indigesto homem. Adriana, queria poder abraçar você, mas sei que no abraço não cabe tudo que lhe foi tirado naqueles momentos roubados. O sangue na calçada da padaria que paga seu salário, a perna dele acertando sua cabeça, o soco acertando o rosto. Seu rosto não sai dos meus olhos.

Quis também matar um homem que me tirou tudo — há sempre um no caminho —, tudo que era meu no amanhã e demorei anos para resgatar. Siga, minha irmã, que a vida é feia, horrorosa, mas também é uma vingança quente. Seu sangue naquela calçada vai secar. É uma marca, infelizmente. Nas calçadas brilham as mãos dos homens que nada constroem de bom para nós. Siga, sua preciosidade e carinho vão florescer ainda mais, que falemos sobre o que lhe fizeram, que lembrem de Márcio quando ele, apodrecido, feder no julgamento dos dias. Que o enxofre a coroá-lo seja uma lembrança de que não aceitaremos mais nenhuma Adriana na calçada.


— Você pode colocar sua máscara, senhor?


Foi apenas um pedido, que é mais do que um protocolo, é uma lembrança de afeto pela vida de todos que ainda estão aqui sobrevivendo, trabalhando, apesar desse vírus. É uma lembrança acertada de vida, por todos que partiram na hora errada. Dizem que Deus quem chamou, mas isso é resultado de um governo que mata, de uma ideia podre, mais podre que o ovo que quebrei em cima do nome dele. Márcio, o criminoso pai de tantos outros, soltos.

Nos oferecem um copo d'água para acalmar. Dentro de cada copo d'água reside a miniatura do mar. O mar também é um grande cemitério de todas as mulheres que foram jogadas no silêncio da noite. E tomamos a calma. E calamos de dia, de noite. Corremos. E corro contigo Adriana, em busca de ajuda. As pernas cansam. O sangue seca na calçada, mas você se levanta. Na foto em que lhe conheci, a mão saudável que segura o braço adormecido na tipoia em breve vai agarrar o mundo. Márcio se misturou ao lodo e ao ovo que confunde a podridão com a dele.


A terra há de comer.


Assistirei dela nascer a árvore da vingança, os galhos que esperam mulheres com vários frutos. O que fazemos do que nos fizeram? O que fizeram com os que nos esmagaram? E direi: apesar de.

Hoje, Adriana, eu pensei em você.





Monique Malcher é escritora e artista plástica nascida em Santarém, no Pará, que reside em São Paulo. Tem um livro publicado pela Editora Jandaíra editado pela escritora Jarid Arraes, Flor de Gume (2020). Pesquisa quadrinhos feitos por mulheres desde a graduação, é mestre em Antropologia e doutoranda interdisciplinar de ciências humanas pela UFSC. É uma das coordenadoras do Clube de Escritoras Paraenses. Organizadora da coletânea Trama das Águas pela editora Monomito Editorial, que reuniu 57 escritoras paraenses.