Céus revoltos

Ian Uviedo

Há uma antiga lenda taoísta, ela disse naquela tarde, sobre imortais que, por se comportarem mal no céu, são obrigados a passar um tempo na terra. Era o começo do inverno daquele ano, o frio e o vento nos obrigavam a ficar com as mãos no bolso enquanto andávamos pela avenida de um dia claro demais. Durante este tempo de exílio, ela continuou, os imortais realizam feitos extraordinários. Eu fiquei quieto, embora isso tenha sido antes de eu travar contato com um conceito também taoísta, o wu-wei, que pode ser traduzido por algo como "princípio da não-ação". Eu fiquei quieto porque não havia nada a ser dito, como geralmente não há. Apenas o que não possui substância pode adentrar onde não há nenhuma brecha por onde se entrar; porque o que não possui substância - o nada - já estava, já está, já estará lá. Não esperando, apenas - lá.

É claro, caminhando ao seu lado pelas ruas azuis e brancas da cidade, eu me perguntava se ela era imortal. Ela e seus feitos extraordinários: a forma como limpava os óculos pela manhã, moía o café e falava sobre poetas cuja obra pesquisava. O quimono vermelho, as garrafas de vinho, a atenção à corrente de ar que agitava o ipê na janela. Era só o que eu podia acreditar. Um escritor uruguaio diz que não devemos adorar um ser humano como a um deus, os deuses se irritam. Mas era só o que eu podia acreditar. Há muito tempo que troquei toda a espiritualidade por um punhado de cenas luminosas, anotações soltas em cadernos e maços de cigarro. Há muito que recebo o castigo dos céus revoltos e alimento minha fé em coisas que duram um segundo apenas, como a imagem de uma grande cidade refletida numa poça de chuva. Naquela tarde, nos despedimos, e ela, como qualquer imortal que cumpra pena neste purgatório, desapareceu. Mas deve voltar, não a vejo se comportando bem no céu. Deve voltar, em outro tempo, de outra forma, e todos os dias eu rezo para que aqueles que a encontrem saibam, com perfeição, o que estão testemunhando. E eu estarei aqui. Não esperando, apenas - aqui. 

Ian Uviedo é artista e escritor. Publicou uma dúzia de zines que variam entre contos, fotografia experimental, desenho e livro de artista. Em 2019 publicou sua primeira novela: Éter - Novela de Narcolepsia, pela paraguaya Editora de Los Bugres. Nos palcos, já levou suas performances poéticas para várias cidades do país e se apresentou ao lado de artistas de renome, como Juçara Marçal e Arrigo Barnabé. Atualmente faz experimentos audiovisuais. Em 2020, foi indicado pela revista Forbes como uma das personalidades de destaque do meio artístico e literário com menos de trinta anos. Seu segundo livro, Café-Teatro, a sair pela Laranja Original, está no prelo. Saiba mais em: ianuviedo.com