Chave aberta
Nado Cappucci

Franzino, cabelo prateado, marcas no rosto que registram onde mais se sorriu e onde mais se espantou, Seu Francisco cumpre a rotina. Café preto, rádio de pilha tocando notícias e um andar silencioso até seu comércio no final da rua. Tanto tempo de rua, tanto tempo naquela rua que o braço anda erguido, baixa apenas quando raramente não tem ninguém para cumprimentar.

Mal abre a porta de aço, a cada dia mais pesada, entra o primeiro cliente. Uma cópia, por favor! Bate o papo que for solicitado. Uma simpatia. Fala de tudo, menos futebol, nessa hora encurta. Gosta do esporte, jogou muita bola quando era moleque, não gosta da conversa idiotizante sobre o mercado personificado da bola. De resto, fala de tudo, a carga de leitura aparece nessas horas. Mas tem um momento em que silencia o mundo externo.

Assim que liga o mini torno que copia as chaves, é tempo suspenso. Não olha para o lado e não fala mais. Apenas observa a dança da chave bruta, reta, sendo moldada pela sua gêmea. Seu olhar é tão fixo que parece guardar o segredo da chave dentro de si próprio. Seu olhar é alimentado por infinitas formas que quanto mais se parecem mais se revelam diferentes. A sutil diferença faz com que a diferença exista como segredo, o restante é obviedade. Ele olha e guarda tudo, as mínimas e infinitas diferenças. Guarda uma quantidade de segredos capaz de formar uma tese. Calmamente, produz duas cópias da chave solicitada. Uma para o cliente e uma para si. Esse procedimento, em segredo, é copiado durante o dia todo, todos os dias.

arte: Guilda dos Cartografos e Encanadores de cidade, Raphael Morone

Depois do trabalho, já em casa, toma um banho quase místico, daqueles que arranca o dia do corpo. Pronto para a última ação sistemática abre a porta do porão e sem nenhuma pressa observa seu acervo. Dizem que observar o que se faz é uma das coisas mais importantes do fazer. Localiza e prepara o local das cópias do dia. Enquanto suspira com a satisfação de quem produz algo verdadeiro, encaixa uma a uma no mapeamento desenhado em quase todo o ambiente.

Aqui o silêncio é garantido. Sua postura tem a exata medida de alguém que atinge o gozo da autonomia. Uma franqueza consigo próprio de dar inveja. Não precisa de ninguém, não lança mão de estímulos, não veste roupa de artista, não fotografa, não coloca música minimalista para ativar um dos lados do cérebro. Simplesmente cumpre uma rotina nunca antes ordenada a ninguém. Um ritual de um homem só, por ele inventado, por ele praticado e apenas por ele observado. Por isso, não espetacular.

Seus passos impressionam pela regularidade. É um controle absurdo do corpo indo em direção ao próximo ato. Nem uma gota de ansiedade capaz de trazer variações. Dependendo da quantidade de cópias do dia, passa de uma a duas horas nesse processo. Apesar de inobservada, a estética é linda. As cores mudam com os anos, os primeiros mapas já não tem nem mesmo a cor das tintas, são agora tons de desbote e poeira, refletidos por uma luz direcionada pelo acaso de onde foi possível fincar um prego, puxar uma linha. O cruzamento dos fios, das lâmpadas, montava um céu de constelação própria. Não tem janela, nem poderia. É caixa de segredos, tem cheiro de segredo. Os mapas traçados à mão livre formam uma geografia muito mais sincera com a impossibilidade de cartografar o real. Ruas estreitas, com ou sem saída, são traçadas dependendo da largura guardada na memória de Seu Francisco. As chaves são fixadas e seus corpos metálicos agora compõem uma complexa trama de segredos refletidos entre si. Se alguém pudesse entrar naquele lugar, veria uma disputa de cores, traçados e feixes de luz, como fragmentos, em quantidade suficiente à remonta do todo.

No dia em que seu corpo foi encontrado na cama, o registro do que seria uma morte natural ganha contornos de investigação policial. No porão, foram encontradas quase duzentas mil chaves acumuladas ao longo dos 40 anos do seu ofício de chaveiro. Cada chave precisamente encaixada em seus respectivos endereços no mapa artesanal das paredes, teto e parte do chão. Mexendo os lábios o policial lê na capa de um dos diários encontrados: com as chaves do mundo, libertarei o mundo.


Nado Cappucci, é geógrafo com experiência nos campos da educação e crítica social. Mobilizado pela literatura e fotografia já não reconhece as fronteiras das linguagens e por isso, vive metendo o bedelho onde nem sequer foi chamado.


Raphael Morone é santista e mora em Belo Horizonte desde 2015. Escreve, desenha, pinta e busca, em gestos não tão acabados, tocar o tempo outro. Está presente quase sempre no instagram.com/raphaelmorone.

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