Dalva

Lilia Guerra

[...] quem não chorou, quem não se lastimou, não pode nunca mais dizer:
pra que chorar, pra que sofrer, se há sempre um novo amor, a cada novo amanhecer?

Pra que chorar - Vinícius de Moraes e Baden Powell por Alcione


Dalva era meninota ainda e já se engraçava com o Lindomar. O estranhamento parece ser menor quando um homem mais velho se envolve com uma mulher de idade muito inferior à sua. Se o contrário acontece, há sempre alarido. No caso de Dalva, a estranheza se dava pelo fato de ela ter apenas treze anos. E, Lindomar, seus vinte e tantos. A família parecia fazer muito gosto por Lindomar ter selecionado Dalvica. Como se ela fosse uma abóbora, exposta numa banca. Lindomar se aproximou vestindo o uniforme da companhia de transporte. Bastou que fosse portador da reconhecida camisa azul, para ser bem recebido. Tinha emprego fixo. Logo, era um bom partido. Atiraram a abóbora-menina, nos braços do freguês.

Por algum tempo, Dalva foi para ele como um bibelô. Não se casaram. Simularam um noivado, com direito a aliança fajuta. Se enfurnaram num mocó no quintal coração-de-mãe. Como não podia deixar de ser.

Logo que se juntaram, Dalva sentiu-se liberta das obrigações que cumpria morando na casa do pai e obedecendo a regência das irmãs. Dormia até perto de meio dia. Levantava abatida e ia tomar sol no murinho. À tardinha, se banhava, rebocava a boca de batom e se sentava à porta da rua, aguardando a chegada do marido. As crianças da mesma idade que ela, corriam, inventando jogos, liberando a energia que sobeja na meninice. Quando Lindomar apontava na esquina, usando o uniforme azul, ela ia ao encontro dele. Pendurava em seu pescoço. Exigia um doce, um agradinho. Caminhavam agarrados. Se trancavam. Não davam mais as caras.

A chegada do primeiro filho foi sofrida para Dalva. Desde a gravidez, se mostrou desconcertada. Passou a ter uma vontade doida de brincar com a meninada. Parece que, só então, se deu conta de que sua infância havia sido interrompida. Queria jogar taco, entrar no pique-esconde. As irmãs ralhavam.

─ Apois! Toma a tua linha, mulher! Vai machucar o bebê!

Quando a barriga começou a crescer, sentiu vergonha. Não punha a cara pra fora, a não ser obrigada. Olhava a imagem no espelho. Chorava, desolada com a transformação do corpo. Franzina, teve um trabalho de parto complicado, que quase a arrebatou. Voltou da maternidade enfraquecida, carregando um menino grande nos braços. Não tinha vontade de amamentar. Os seios delicados estouraram em feridas repletas de pus. O moleque se esgoelava de fome. Dalva se recusava a alimentá-lo. Foi preciso acudir o coitado com mamadeiras. Ela protestava, diante da lamentação irritante do filho. Desejava dormir sem ser incomodada, acordar naturalmente. Que levassem o chorão pra bem longe dela.

arte: A água é a alma - fotomontagem de Marcelo Ariel

Dolorinha interveio enquanto pôde. Até que, saturada com seus próprios afazeres, avisou que estava se retirando.

─ Quem pariu Mateus, que o embale!

Lindomar queria mais é distância. De manhã, vestia o uniforme, tomava o garoto do bercinho, colocava ao lado da mãe e se picava. Até o dia em que seu Genuíno, chegando com Bigu, ouviu a criança a berrar. Abriu a porta da casinha de Dalva. As cobertas estavam emboladas. O bebê, no meio delas. Sozinho. O quintal vazio. Todos compenetrados em seus afazeres. Nada de Dalva. Bigu tomou o pequeno. Tentou acalmá-lo. Ofereceu a mamadeira que encontrou sobre a pia. Fria mesmo. O menino enxugou o leite grosso num tiro. Depois, dormiu confortado, nos braços da prima.

Foram encontrar Dalvica já bem tarde da noite, sentada sobre um monturo, na Praça do Moinho. Gelada. Febril. A conduziram para casa. Entrando, ela deu de cheio com a cama vazia. Sentiu a vista escurecer. Brotou um grito apavorado.

─ Meu neném! Que é do meu neném, que deixei bem ali?

Trouxeram o pequenino. Se abraçaram pela primeira vez. Quando nasceu a menina, Dalva a achou engraçadinha, feito boneca. Penteava, trocava seus vestidinhos. Passava horas largada na calçada, com os dois filhos, à espera de Lindomar. Mas ele já não tinha horário fixo para chegar do trabalho. Havia noites em que nem chegava. Numa ocasião, veio juntar-se a ela uma tal Ivonete, moradora da Maloca. Se aproximou como se não quisesse nada. Puxou assunto.

─ Calor danado, não?

─ Apois! Eu já estava derretendo dentro de casa com esses dois. Abafado demais da conta.

─ A noite está boa para a farra. Eu, daqui a pouco, vou me arrumar. É dia de samba na Cachorra e é pra lá que eu vou. Tu não sai não, é? Nem para se distrair um pouco?

─ Espero por meu marido.

Ivonete sacou do bolso um cigarro amassado. Acendeu. Tirou uma tragada longa.

─ Teu marido... O que trabalha na companhia de transporte?

─ É sim.

─ E ele se demora?

─ Quase sempre faz horas extras. Têm dias em que nem mesmo consegue voltar para casa. Precisa ficar até tarde circulando no coletivo. Depois, vai para a garagem lavar os carros. Acaba ficando por lá.

─ Tu é muito da inocente. Canso de topar com teu homem na Cachorra, se deliciando no samba, agarrado com essa e mais aquela. Eu é que não caio em conversa de mulherengo.

Dalva era lenta para compreender assuntos daquela natureza. Ivonete girou o calcanhar e ela continuou ali, por muito tempo. Tentando tirar as espinhas do peixe que lhe haviam servido, temerosa de morrer engasgada.

Umas semanas depois, tomou coragem. Largou os pequenos com Bigu. Subiu o morro. Guiada pelos tamborins, chegou à roda de samba. De repente, esqueceu o que havia ido fazer ali. Se distraiu, admirando a dança dos casais, as mãos acompanhando a melodia em palmas. A fumaça, o movimento dos copos, das mãos às bocas. Os líquidos coloridos desaparecendo goelas abaixo. Arranjou um lugar e se sentou do outro lado. Nunca havia passeado em noite de lua. Saltou das criancices à vida de mulher casada. Mocinhas passavam por ela. Rindo, paquerando. Usavam sandálias e vestidos da moda, coisas das quais ela não participava, entocada na casinha, zelando pelos pequenos. Com o coração disparado, acompanhou o flerte de uma delas com um rapaz bonitinho. Como se estivesse vendo um filme no cinema, torceu pra que se beijassem. Era bonita a exultação noturna. Então, se lembrou do que havia ido fazer lá. De costas, vestido na camisa azul que lhe garantia vantagens de assalariado, avistou Lindomar. Agarrado numa dona. Sugando seu cangote. Se requebrando. Tão alegre ele estava. Dalva ficou muito tempo naquele canto, abismada da desenvoltura de Lindomar. Até que ele se retirou, rebocado à parceira. Dalva seguiu atrás deles. Perdeu a sombra dos dois de vista, entre os becos da favela. Desceu o morro sozinha.

Em casa, encontrou Bigu adormecida, ao lado das crianças. Se encolheu num cantinho da cama. Custou dormir, rememorando as visões. O que doía menos era a lembrança de Lindomar grudado na cadeiruda. Vontade de chorar sentia ao pensar no samba comendo solto. Nos lindos vestidos. Na fumaça. Naquela lua, que guiava os namorados. Em sua infeliz figura fracassada, encoberta pela frustração. Desejosa de sambar na roda, gargalhar. De ser leve. Voar.

Lindomar chegou pela manhã, com o embrulhinho de pão, leite e mortadela, reclamando cansaço, decretando silêncio. Estabelecendo que seu sagrado repouso fosse respeitado. Demorou se dar ao trabalho de olhar na cara de Dalva. Mas quando se atentou... ficou estremecido. Nunca tinha visto a pessoa que estava ali, parada à sua frente. Nem jamais voltou a encontrar a menina que havia deixado, no dia anterior. Aquela, se perdeu, perambulando entre as travessas da Cachorra. Quem desceu o morro foi uma mulher. A que estava ali. Dona de olhos perdidos, que já não o adoravam.

O conto Dalva, extraído do romance Rua do Larguinho, que será lançado em breve pela Editora Patuá, foi adaptado pela autora para a livre publicação. Ouça a canção. Viaje...


Lilia Guerra é paulistana, ariana de abril. Apaixonada por samba, plantas, flores e pela gatinha Madalena, boa camarada. Publicou seu primeiro livro Amor Avenida em 2014. O segundo, a coletânea de contos Perifobia, pela Editora Patuá, foi finalista do Prêmio Rio de Literatura.


Marcelo Ariel é poeta, ensaísta e performer. Ou o Silêncio Contínuo, lançado pela Editora Kotter em 2019, reúne 30 anos de sua atividade poética. Em 2020, lançou pela mesma editora Nascer é Um Incêndio Ao Contrário, com ensaios e crônicas. Vive em São Paulo, onde coordena cursos de escrita com Liliane Prata.