Das coisas e dois elefantes azuis virados de costas

Renata Belmonte

Sabe, ninguém sabe. E meu dia de ontem foi assim: acordei em torno de umas nove horas. Bastante atrasada, joguei o cabelo para trás e banhei apenas o corpo. Cheguei a ficar aborrecida quando, por descuido, molhei parte da franja, mas me prometi, como já havia feito outras mil vezes, que compraria uma touca de plástico, assim que saísse do trabalho. Vesti uma roupa antiga, a primeira que encontrei pela frente, tive apenas o cuidado de combinar o sapato com a bolsa, sempre achei o fim da picada calçado preto com acessório marrom e vice-versa. Engoli um suco de laranja e disse para o Pedro que não tinha tempo para conversar com ele naquela hora, pedi que ligasse para o meu celular, no final da tarde. Falei para a Carol fazer os deveres com atenção, prometi um castigo caso o contrário. Escovei os dentes, passei um pouco de batom e gastei quase cinco minutos tentando achar a chave do carro dentro de minha própria bolsa. Fiquei bastante irritada com a minha bagunça e prometi que ia organizar minha vida. No outro dia, tudo seria diferente. Minha casa vai ficar um brinco, praticamente aquelas de filme americano dos anos cinquenta. Eu vou começar a dormir cedo, assim nunca mais me atrasarei para o trabalho. Os meninos terão das dezenove às vinte e uma horas para me falarem sobre o seu dia, para contarem suas coisas. O único assunto proibido é o pai, a nova namorada do pai, o novo apartamento do pai, a nova vida do pai. Já basta ter que me encontrar com ele aos domingos. Filho tem que ficar com a mãe, porque é ela quem cuida mais, é ela quem se responsabiliza por tudo. É muito fácil pegar para passear nos finais de semana, comprar roupas novas, aumentar a mesada. Difícil é dar as broncas do dia a dia, admitir que a filha adolescente é uma péssima aluna, discutir com ela sobre o horário das festas, sobre o que deve usar etc. Pelo menos, o menino não dá trabalho, é muito ajuizado, já está na faculdade. No meio do caminho, parei numa sinaleira. Uma senhora bem gorda, dentes desconhecidos, rugas fortes riscando o rosto, cabeça enrolada em um pano, me pediu uma-ajuda-pelo-amor-de-Deus. Eu até tinha uns trocados, mas sabia que o sinal já ia abrir, então falei: fica para a próxima. Ela me lançou um olhar ofendido como se me perguntasse: e quando é a próxima? Será que você não vê que uma velha como eu não tem próxima? Com essas condições, você acha que ainda vou viver muito para esperar a sua próxima? Por dois segundos, cheguei a me sentir culpada pela minha própria inércia, depois deixei de me importar. Afinal, diariamente me pedem dinheiro. E é bom que sobrem essas moedas, na próxima parada, vou trocá-las pelo amor de Deus com um desses meninos malabaristas, pelo menos sei que estou investindo em arte. Fechei a janela e a observei indo na direção dos outros carros, praguejando essas coisas que o povo de antigamente costuma resmungar. Algo que deve ser o contrário de Deus lhe abençoe, estilo o Diabo que lhe carregue, essas coisas. Dei risada desses meus pensamentos bobos, realmente, é uma diversão dirigir, é o único momento em que posso ficar sozinha comigo mesma sem interrupções, sem coisas para resolver, sem telefonemas para atender. Liguei o rádio e estava tocando uma música do meu tempo, acho que se chama Don't Dream It's Over, não sei como é o nome da banda que toca, sempre digo que vou comprar o cd e acabo esquecendo. Hoje, quando sair do trabalho, com certeza, vou passar no shopping para fazer isso, aproveito a ida e vejo a touca de plástico. Eu adoro escutar essa música, ela me transporta para os meus dezoito anos, para as minhas primeiras sensações como mulher, para o prazer da liberdade, para meu primeiro namorado... É uma pena que meus dezoito anos tenham durado tão pouco. Ainda vivendo minhas experiências iniciais, tive que assumir uma maturidade precoce, um casamento fora de hora. Pedro nasceu antes de eu completar dezenove, era um menino lindo no colo de uma menina linda. Não me surpreende o fato de meu marido ter escolhido pela separação, aguentamos coisas demais juntos. Quando fiquei grávida, ainda éramos cheios de sonhos, pensávamos que ia ser tudo mais fácil do que realmente foi. Eu mudei muito, ele mudou muito. Já fazia um tempo que as coisas não andavam bem entre nós. Eu gostaria de ter conhecido outras pessoas, de ter me apaixonado e desapaixonado várias vezes como acontece com qualquer adolescente. Eu adoraria não ter vivido tudo com tanta seriedade, com tanta tensão. Não que eu não ame meu filho. Não sei como seria a minha vida sem ele. Apenas acho que ele poderia ter vindo em outras circunstâncias. Teria sido melhor para todos. Mas não me arrependo de não ter tido coragem de fazer um aborto. Sim, confesso, pensei em fazer, só que não consegui colocar a ideia em prática e é isso que importa. A Carol veio cinco anos depois, já numa fase de mais tranquilidade. É tão parecida comigo! Bagunceira, desobediente, animada, vaidosa... É por isso que fico no seu pé, tenho medo de que faça o que fiz, que não escute os meus conselhos e acabe cometendo uma besteira, estragando a adolescência, se comprometendo pelo resto da vida. Cheguei no prédio do escritório e a rua estava lotada, não tinha onde estacionar. Dei algumas voltas e resolvi parar em um beco próximo. Saltei e comecei a andar depressa. No meio do caminho, pensei que tinha esquecido de travar o carro, então resolvi voltar e acabei desistindo na mesma hora. Eu sempre acho que meu carro está aberto e, quando volto, percebo, pela milésima vez, que me enganei. Eu acho que isso de trancar o carro se tornou para mim tão involuntário quanto piscar os olhos, por isso decidi com firmeza que não ia retornar. Além do mais, eu estava muito atrasada e meu sapato teimava em machucar meus pés, fazendo aquelas feridas que acabam virando calos. De tão apressada, tentei parar de ficar tentando pisar apenas nas listras brancas da calçada, maluquice tem hora e lugar. Desviei de umas garrafas vazias encostadas na esquina da rua e entrei no edifício do escritório. Subi no elevador e apertei o botão indicativo do doze, o número do meu andar. Lembrei que não gostava desse número besta, nem treze, nem onze, insignificante, sem-graça e pretensioso. Estava me olhando no espelho, quando as portas se abriram. Neide apareceu com a sua cara habitualmente oleosa, temos que discutir uns processos urgentes mais tarde. Fiz que concordava com a cabeça e, antes de ir para a minha sala, passei na da Carla. Abri a porta e não havia ninguém. Percebi que ela tinha mudado a decoração, no canto de sua mesa, virados de costas, estavam dois pequenos elefantes azuis vestidos em uma espécie de colete de indiano. Não sei nem o porquê, mas os achei um tanto estranhos. Não combinavam com o estilo do escritório, pareciam vivos, eram incomuns, objetos atípicos naquele ambiente. Senti um mal-estar invadir a minha alma, uma sensação de inadequação tomou conta de mim. Estranha sou eu por achar essas miniaturas esquisitas. Além do mais, todo mundo sabe que elefantes de costas significam sorte e dinheiro. Fui para a minha sala, sentei-me na cadeira e liguei o computador. Peguei os processos que estariam na pauta no dia e comecei a lê-los. Um tempo se passou até meu celular tocar. O que o Pedro quer me ligando essa hora? Disse a ele que estou super ocupada. Melhor atender, talvez seja algo importante. Atendi.

Sim, sim, agora relembrando acho que sim, sim, tinha como saber. Acho que vou ligar para Neide, talvez ela tenha notado algo de estranho. Não, não, não, ela é minha inimiga. Não, não, é melhor ficar sozinha, quero que todos esqueçam que existo, quero que me deixem em paz, quero sair desse lugar e não voltar nunca mais. Sim, sim, vejo os sinais, apenas neste momento, compreendo, vejo os sinais. Assim foi o meu dia de ontem: saí atrasada para o trabalho, parei na sinaleira e não dei dinheiro para a velha mendiga. Ela me rogou uma praga. Liguei o rádio e estava tocando uma música do meu tempo, Don't Dream It's Over, lembrei da minha adolescência, da gravidez, do casamento. Estacionei o carro perto do escritório, meus pés doíam, desviei de umas garrafas, apertei o doze, vi a Neide, entrei na sala da Carla, observei os dois elefantes. Sim, sim, sim, tudo está fazendo sentido. A mendiga e sua praga, Don't Dream It's Over, a gravidez, a dor dos pés, o doze, os dois elefantes. Não, não, não, não pode ser! Como eu não vi, como não consegui compreender a mensagem? Se tivesse ao menos caído um temporal, se um corvo preto tivesse cruzado o céu... Não, não, não é justo! Eu não tive culpa de não perceber, eu não tive culpa de não compreender. De quem é essa voz que falou comigo, de quem, de quem, de quem? Por que me avisou quando já não dava mais tempo, por que não percebi para poder impedir? Por que, Deus, por que, por que, por quê? Por que você está fazendo isso comigo, por que não me deu os sinais de uma forma mais precisa? Por que não me deixou saber que era a despedida, por que não me permite sentir como foi o nosso último contato, por que, por quê?

Você falou assim: Mãe, preciso contar uma coisa. O que, o que, o quê? Já olhei pelo seu quarto, Não, não posso suportar, o quarto não, mexi nas suas caixas, revirei os seus álbuns, procurei por um diário. Já liguei para seus amigos, Não, tia, me desculpe, não sei dizer. Olhei o lixo na esperança de algum papel perdido, algum bilhete, qualquer coisa, qualquer coisa, meu filho. No seu caderno da faculdade, nada, nos seus desenhos de cidades inventadas, nada, nada, nada, nada. Vamos, filho, me diga, me conte, me fale. Vou fechar os olhos e recriar aquele momento, Sim, Pedro, podemos conversar. O que você queria me dizer, o que pretendia me falar? Seria algo relacionado com seu pai, sua irmã, sua faculdade? Diga, meu filho, conte, fale, não me deixe assim! Meu filho, por que, por que você está fazendo isso comigo? Não, meu filho, não assim sem me avisar, sem um último abraço, sem o nosso habitual beijo jogado no ar de despedida.

Ah, meu filho, por que você tinha que morrer?

Em seu enterro, os elefantes me disseram: Foi tudo sua culpa, foi tudo sua culpa. Lembra o que você disse, ontem, pela manhã? Você não queria esse filho, você pensou em fazer um aborto, você queria voltar a ser livre, desejou nunca ter ficado grávida. Seu desejo foi concretizado, aí está o seu filho, morto... Não, meu filho, é mentira! Eu sempre o amei, desde pequenino, desde que você era apenas um bebê. Eu não sou sua assassina, meu filho, eu não sou, eu não sou. Diga para eles que fui uma mãe boa, que lhe dei tudo que precisava. Neide, o que você está fazendo aqui? Aliás, o que todas estas pessoas desconhecidas estão fazendo aqui? Nos deixem em paz, voltem para suas casas, vocês não passam de uns abutres, fingem que se importam, mas só querem saber os detalhes mais terríveis para depois repetirem pelo telefone e ficarem aliviados por não ter sido com vocês. Vá embora sua mendiga velha, pare de rir do meu desespero, era você quem deveria estar neste lugar, a próxima da fila é você. Não, não, meu sonho não está acabado, meu filho vai voltar para a minha barriga, vai nascer de novo, vai se levantar e dizer que tudo não passa de um engano, de um mal-entendido. Vamos ser muito felizes juntos, eu, ele, Carol e Jorge, vamos voltar a ser uma família unida. Você vai se formar, eu vou lhe entregar seu diploma, sua sala vai ser ao lado da minha. Nada vai nos atrapalhar, nenhuma praga sua, sua velha filha da puta, vai destruir minha vida, vai acabar com a vida do meu filho. Vocês vão ver, seus dois elefantes imbecis, vocês vão ver, vocês vão ver...

Atendi. Não, não é o Pedro. Estou ligando do celular dele para avisar que houve um incidente. Sinto muito, seu filho morreu.

Ah, meu filho, por que você morreu, por que, ontem, você fez isso comigo, por que com você e não comigo? No fundo, meu filho, eu sempre achei que quando algo de ruim vai acontecer, o mundo se prepara para enviar sinais, achava que existia uma lógica por trás de todos os acontecimentos ruins, eu pensava que, na hora certa, eu saberia os indícios para poder me preparar ou, quem sabe, impedir. Não, não há lógica em nada. Essa coisa horrível que eu sinto é, e pronto. Estranha, sem nome, terrível, realmente, uma coisa, pesada, enorme e azul. Vou ter que viver para sempre com esse peso, jamais vou esquecê-lo. Que esse Deus secreto o receba de braços abertos e que o ame tanto quanto eu. Sabe, meu filho, agora, eu acho que ninguém de nada sabe...

Acabou adormecendo. Ela não sabia que ele iria lhe responder: Esqueça, mãe, é bobagem. Falo com você em outra hora. Ela também não sabia que, em um dos seus velhos livros de Clarice, estava a seguinte frase: "A vida não pode se brincar porque, em pleno dia, se morre".

Amanhã acordaria, mais uma vez, sem a touca de plástico, o cd e, agora, seu filho.


Este conto faz parte do livro O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006)


RENATA BELMONTE é autora de quatro livros: Mundos de uma noite só (Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2021 e Semifinalista do Prêmio Oceanos de 2021), Femininamente (Prêmio Braskem de Literatura, 2003), O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006) e Vestígios da Senhorita B (P55, 2009). Baiana, Doutora em Direito pela USP e Mestre pela Fundação Getúlio Vargas, ela também atua como advogada.