Deixa eu bagunçar você

Sandra Modesto

A solidão me desloca das palavras. Desloca Sara das palavras.

Mas eu só preciso delas. Preciso de Sara. Do abraço, do riso, da minha busca. Da boca dela, da boceta, nossas histórias escorrendo às escondidas. Mesmo assim, coesas de tesão.

O ruído esculpido nesse meu atravessar de não conquistas. Quando o que me consola, é extravasar molhada enfiando meu dedo rumo ao meu clitóris.

É noite. O corpo flertando com o espelho. No espaço entre gavetas abandonadas, algumas lembranças, espartilho, rendas.

Sem libido pelos saltos dos sapatos. Enfia todos no vagão do armário.

Só, percebo a mulher que um dia eu fui. Acaricio cada vírgula corrida, rímel seco, batom vencido, vaidade do avesso.

Como o confronto com a libido com o acariciar do antes resistiu?

Sara, não sei se você sabe. Não, não, não vou contar.

Abro a caixa de fotografias antigas. Minhas avós, meus avôs, minhas tias, tios, primas, meu clã. Descobri há pouco tempo histórias de traições femininas, e ri alto do lado de cá. Pensando bem...

Jogo tudo dentro do peito. É no memorial dos sentimentos, que a gente recria que a gente esquenta água, passa um café, respira e mascara o dia.

Um dia eu conto pra Sara. Deixa eu me bagunçar primeiro.

SANDRA MODESTO tem 60 anos.

Nasceu e mora em Ituiutaba, MG.

Graduada em Letras, pós-graduada em Educação, professora aposentada. Autora dos livros "Tudo em mim é prosa e rima" (Editora Autografia) e "Acenda a Luz" (Editora Kazuá). 

Textos incluídos em cinco antologias: "Elas e as letras - Diversidade e resistência" (Editora Versejar, 2019), "Ruínas" (Editora Patuá, 2020), "Parem as máquinas" (Selo Off Flip, 2020), Antologia Prêmio Selo Off Flip, 2021, Antologia Corvo Literário, 2021.

Publicações em revistas digitais e impressas: LITERALIVRE, Ruído Manifesto, Araras, Torquato e Philos.

É membro do coletivo Mulherio das Letras, nacional.

Cronista do site Crônica do Dia.

Escritora no site CORVO LITERÁRIO

Considera-se uma aprendiz da vida.