Dois poemas no escuro
Daniela Rezende

sem título

casa-corpo: um dia claro, à beira da praia. uma casa, uma janela. tudo escuro aqui dentro; tudo claro lá fora. o sol, nosso grande sol, radioso, grandioso, pleno de luz e calor. olho pela janela e vejo o mar; ele vem e vai e vem de novo, cada vez mais perto. a maré subindo. as ondas cada vez mais agitadas, maiores, largas. e ao mesmo tempo tudo tão calmo, tão vazio, tão deserto. um deserto de água. só se ouve as gaivotas, circulando em vôos sobre a areia quente e molhada. quente e molhada. quente e molhada. casa-corpo: um dia claro, à beira da praia. acho melhor sair e ficar à espreita dessa maré que não deixa de subir; saio. a escuridão de dentro me deixara cega para tanta luz. mas o dia está lindo, azul, luminoso. grávido. começo a caminhar pela areia. sem perceber me distancio de casa. sem perceber o mar continua o seu caminho, seu trabalho incansável levado pela lua. árvore de diana. começo a caminhar pela areia. as gaivotas continuam o seu sobrevôo; os círculos em sombras sobre a minha cabeça. longe, muito longe, centenas de passos adiante, olho para trás: meu corpo está lá, ficou fincado na areia molhada e quente. e a água do mar invadindo tudo. molhada e quente, quente e molhada. meu corpo está lá, não pude carregá-lo comigo. e agora já estamos muito distantes, ele e eu. essa é a minha casa.

arte: Entremente, Alexandre Madeira

sem título II

o escuro: tateio. mãos sobem, ávidas e desesperadas, pela mesinha de cabeceira. busco a luz, a luz que dorme ao meu lado todas as noites. há algo errado: há algo no escuro. ele respira silencioso; ele espreita a minha vigília e sei que está lá. mãos ávidas e desesperadas que tateiam no escuro e não encontram nada. e se. de repente, a forma conhecida, o metal, o fio, o interruptor. clique - e nada acontece. não há luz; há apenas um brilho momentâneo, um flash, que logo se esvai. e ele ali, no escuro, à espera e à espreita. não é possível, não posso, mas tenho que levantar e testar o interruptor ao lado da porta. mas e se. e se. tremendo, as mãos voltam a tatear: dessa vez, móveis, paredes. ambiente familiar e conhecido de dia; quarto repleto de perigos à noite. mas e se, e se. tateio; respiro; espreito. chego ao interruptor. clique. nada acontece. estou em prantos, mas e se. mas e se. sinto agora a sua respiração em meu pescoço; ele ofega, ele relincha. a solução é caminhar pela casa e encontrar alguma luz que reste. algo que funcione, lâmpada, fiação, interruptor, vela, lanterna. a lanterna de emergência na caixa de ferramentas no quartinho. última solução possível. mãos, ávidas e desesperadas, que tateiam o escuro ávidas e desesperadas. as mãos dele, a respiração dele dentro de meus cabelos, o suor dele em bagas pelo meu corpo. caminho devagar no escuro com a sua sombra colada à minha sombra. no escuro. e se. e se. não há luz. não há luz. a última solução possível é se entregar. a única solução possível é dançar um tango argentino. e torcer. torcer para quê. o escuro repleto de bichos. e se.


Daniela Rezende é escritora sem livros publicados. Graduada em História da Arte e Mestra em Letras - Teoria Literária e Literatura Comparada, mora em São Paulo, onde atua como arte-educadora há quase uma década. Escreve, pesquisa e possui interesse nas questões relacionadas à literatura e ao gênero. Há alguns anos, só lê mulheres.

foto: Laura Crispim


Alexandre Madeira (Rio de Janeiro, 8 de julho de 1983);Artista Plástico, diretor de arte de cinema e professor de arte cultura, graduado pela faculdade de Belas Artes da UFRJ, trabalhou como diretor de arte no Clipe Musical "Argay", 2015, e na Série para a TV Brasil "O menino que Engoliu o Sol", 2020 ; como concept art, color key e pintor de cenários trabalhou nos curtas de animação 2D: "O Despejo...", 2008," O Saci", 2008 , "O caminho das Gaivotas", 2010 e Na série "Sítio do Pica Pau Amarelo", 2013. Realizou como artista plástico duas exposições individuais: Retrospectiva - Prédio da Reitoria UFRJ (2008) e Coquillages - Chalon sur Saône (França, 2010)

Sobre a Obra:
Título: Entrementes
Técnica: Gravura Digital
Ano: 2020

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