Ela não é como eu

Vanessa Passos

Estou preocupada com minha filha. Não cresceu muito, mas é precoce demais, inteligente demais, respondona demais. Prevejo que a transição da infância para a adolescência não será fácil. Nunca encostei a mão nela e não pretendo começar a fazer isso agora, que está prestes a menstruar. Mas ela me deixa sem escolha. Meu sangue sobe só de lembrar dela revirando os olhos para mim e batendo a porta do quarto. Nessas horas, imagino que ela deveria se trancar ali e só sair quando tivesse passado essa fase da puberdade. Ela é filha única, não tenho com quem comparar. As poucas amigas mães que tenho, seus filhos são garotos, é totalmente diferente.


Ela não sabe. Tenho fibromialgia. Venho escondendo há alguns meses, mas tem sido cada vez mais difícil e os remédios não têm resolvido. Em meus momentos de desespero, deito na rede e pergunto ao meu cachorro velho o que faço com ela. Ele me olha com seus olhos tristes como se entendesse a minha dor, ou talvez seja só desespero.


Fecho os olhos. Todo o corpo dói. Faço cafuné nos meus próprios cabelos, mas não consigo cochilar como das outras vezes. A dor está muito forte. Lembro da minha infância. Sempre calada. Bastava meu pai olhar para mim para eu saber que tinha feito algo de errado e ia apanhar quando estivéssemos sozinhos. As lágrimas caíam silenciosas, porque ele não admitia choro escandaloso. Sempre gostou do silêncio.


Esses jovens não são mais como antigamente, resmunga Dona Edith ao ver minha filha sair sem se despedir de mim nem tomar a benção. Confirmo com a cabeça e ela me olha com pena. Sinto raiva. Não quero que tenham pena de mim, não quero que saibam da minha doença.


Ficamos eu e o cachorro velho. Os pêlos esbranquiçados embaixo do focinho. Fico melancólica, porque sei que logo estarei só de novo - ele não vai durar muito. Talvez eu também não. A dor hoje está mais forte, como eu já previa que ficaria, e fico repetindo que basta cada dia o seu mal. Mas as dores do presente sempre nos parecem insuportáveis.


Hoje não vou tolerar a arrogância dela, falo em voz alta. Ela, tão pequena, parece tão grande quando me afronta, chego a pensar que sinto medo da minha própria filha e que, como Dona Edith me disse, já perdi completamente o controle da situação. Talvez. Mas ainda guardo um fio de esperança.


Ela entra pela porta. Estou esperando que fale comigo, mas ela me ignora, como se eu fosse um móvel da casa. Vai ter uma surpresa quando chegar no seu quarto. Os fios arrancados da internet. Ela vai gritar. Ela vai berrar. Vai brigar comigo. Dona Edith escuta, pensa em intervir. Eu a observo gritando, meio anestesiada da dor e de tanto remédio que tomei. A voz dela vai ficando distante, mas consigo ver sua boca se mexendo.


Fecho os olhos e finalmente resgato uma memória perdida. Ele me virando, enfiando em mim, segurando minha boca e depois me jogando feito um bicho. Eu nunca consegui gritar, não consegui dizer nada, nem para a minha terapeuta. Minha filha me chacoalha perguntando pela internet, e volto ao presente. Estamos eu e minha filha na sala, o cachorro deitado perto do sofá nos olha de orelhas baixas. Ela continua gritando e eu fico feliz porque sei que ela não é como eu. Ela não ficaria em silêncio.





Vanessa Passos é escritora, professora de escrita criativa, consultora literária, pesquisadora, produtora cultural e mediadora de leitura. É Doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Teve textos vencedores em diversos concursos literários e participação em várias antologias. É autora dos livros Manual de estilo e criação literária com a artesã Lygia Bojunga (2018), Fábrica de histórias (2019) e A mulher mais amada do mundo (2020). É também idealizadora do Programa Formação de Escritores. É fundadora do Pintura das Palavras, criou o curso 321escreva (curso online de escrita), dá consultoria literária e promove eventos literários. O Pintura das Palavras hoje já alcança mais de 12.000 pessoas nas redes sociais, aspirantes a escritores.