Entre os trilhos
Edvaldo Ramos Leite

Mais um serviço no túnel do metrô. Terminei a manutenção e posso voltar ao meu posto na outra extremidade. A circulação só retorna ao amanhecer. Trilhos adiante e dois caminhos: ida e volta. Fortaleza dorme em cima de mim e caminho aqui embaixo como um fantasma. [Está escuro. Estamos sozinhos.] Ratos, morcegos e eu. Carrego minha garrafa com água na mão e nas costas a mochila de equipamentos. Ponho os fones enquanto caminho. Vou passando as playlists. Uma a uma. Artista por artista.

arte: Paisagem imaginada 1, Bruno Z. Maschio

Nada sobra do que andei ouvindo. Tudo o que é recente me atropela com você deitada comigo na rede num domingo. As trilhas sonoras dos filmes que eu gostava, você viu todos. Decorou as falas e as melodias, viraram nossas piadas internas. As minhas bandas, que você não gostava, ouvia pra tirar sarro. E foi mais fundo. Pra me conhecer, pra fazer parte. Foi no que eu ouvia nas fitas k7 dos anos noventa que eu trocava com amigos de colégio num tempo em que você não era sequer sombra. Vasculhou as músicas dos meus outros relacionamentos. Para superá-los, pra tirar delas o peso de ciúmes infundados. Aprendi a gostar de pop por sua causa, comecei a ouvir rap e reggae. Você descobriu R.E.M. e The Smiths. Me fez camisas, me deu quadros e misturamos nossas vidas no oceano de sons que nos construiu.

Já vejo meu posto, lá na frente, entre os trilhos. De onde saí até aqui, revirei o celular e não achei nada que não fosse de nós dois. Quando chegar lá, vou descarregar as coisas nos armários, entrar na minha cabine para atualizar relatórios do serviço. Então deitar e encarar duas horas de tentativas de afastar os pensamentos de você. Quando estava comigo, todo esse trajeto era lindo. Porque depois disso, ia chegar em casa, deitar do teu lado e dormir contigo teu último pedaço de sono.

Sem sono pra mim, sem trilha sonora. Sem a chegada de mansinho na cama, deitando de conchinha com cuidado pra te ouvir dizer que me ama, encontrando minha mão entre os teus seios no abraço.

Saio do subterrâneo. Chego no posto com os fones nos ouvidos derramando o silêncio da solidão pra dentro do meu corpo cansado. Não sei quantas vezes vou emergir das entranhas da cidade com esse choro preso no peito, rumo a uma cama vazia. Só sei que se tiver alguém de novo que me faça atravessar esse túnel feliz e cansado, vou esconder dela pelo menos uma canção. Uma canção que seja só minha.


Edvaldo Ramos Leite editou as zines "Paranoia" e "Plano 9" divagando sobre terror, pessoas e cidades. Escreveu contos e crônicas no blog Domo Solar. Fez o Curso Intensivo de Escrita Literária do projeto Pintura das Palavras e participou das antologias "A Chama Depende do Combustível" e "De Todas As Maneiras Que Há De Amar". Estudou Enfermagem, Cinema e trabalha com trens. Realiza experimentos com vídeo e poesia no canal Biziborne. 


Bruno Z Maschio reside em São Paulo. É mestre em ciências sociais pela PUC-SP, com a dissertação "Os Nomes de Arthur Bispo do Rosário"; dançarino e pesquisador no Núcleo Experimental de Butô; artista transdisciplinar que habita as fronteiras entre as artes do corpo, artes plásticas e arquitetura. Obsessivo pelo céu e pela pesquisa do sagrado na vida cotidiano. Participou da mostra de performance Verbo e em 2017 foi residente do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea no Rio de Janeiro.

Sobre a arte:
Título: Paisagem Imaginada 1
Ano: 2020
Técnica: nanquim, carvão e giz pastel sobre papel.

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