Adrienne Myrtes e a escrita da esperança sem motivos

Entrevista da escritora e artista plástica Adrienne Myrtes, por Morgana Kretzmann

Além de escritora, você trabalha na área médica em São Paulo. Está na batalha vendo de frente esse novo luto que o Brasil vive. Como você vê e vive esse luto diante do covid? Pensa em escrever algo sobre isso?

Eu trabalho no SUS faz dezoito anos, trabalhei muito tempo na ponta, em unidade básica de saúde, e estou em uma coordenadoria há cerca de dois anos. Esse sempre foi um trabalho difícil, mas com a pandemia as definições de dificuldade foram atualizadas com sucesso.

Tenho acompanhado desde o início o medo e as buscas por respostas para o SARS-CoV-2 na saúde pública; é doloroso ver a evolução do estado pandêmico porque foi uma crônica anunciada. Testemunhamos o que aconteceu no mundo e ainda assim fomos incapazes de nos precaver de forma eficaz, ineficácia essa que tem origem em várias razões, mas a principal ainda é o contexto político, anterior à pandemia, que tem contribuído para o agravamento do quadro. Complicado também é verificar o quanto o vírus evidenciou as doenças sociais da pobreza, da ignorância, da falta de condições sanitárias, pra não dizer do individualismo egoísta cultivado em nossos tempos.

Eu sou uma das pessoas que continuou saindo pra trabalhar durante todo o período de isolamento e isso me permitiu ver, nas ruas, o retrato dessas condições que enumerei. Perdi alguns amigos para a doença, convivo com a falta e a incredulidade que algumas mortes nos causam, mas o luto que vivo abarca toda a luta que, a meu ver, já perdemos. Todos perdemos.

Estou com um romance novo em processo, a Covid-19 não tem como estar fora dele.


O luto no Brasil poderá ser superado? Como?

Não me sinto com propriedade para dizer do Brasil em termos desse luto, só acho que, por mais doloroso que seja, é importante que o luto seja vivido.

Penso que somos uma nação por nós desconhecida, o país ainda não consegue sequer se resolver em termos de identidade coletiva, que dirá se resolver em relação a um luto desse tamanho. Tenho esperanças, não porque tenha motivos, mas porque preciso dela pra levantar da cama todos os dias, para que no futuro possamos saber quem somos e o quanto somos células de um mesmo organismo. E que, nessa condição de células, ou trabalhamos em cooperação ou adoecemos e matamos o organismo e, por consequência, morremos todos.

Como isso pode acontecer eu não faço a mínima ideia, mas vou improvisando alguma colaboração nesse processo com meu trabalho literário.


Quais livros você leu durante a pandemia que lhe trouxeram algum alento?

Confesso que tenho lido pouco durante a pandemia, no ano passado gastei muito do meu tempo de leitura vendo séries, em sua grande maioria apenas para entretenimento. Precisei de alívios que me tirassem do lugar de indignação e sofrimento e me fizessem rir. Dos quase quarenta livros que li (tenho o hábito de relacionar minhas leituras por ano) muitos me trouxeram alento por motivos diversos, em sua maioria porque encontrei neles a humanidade necessária pra me salvar da estupidez diária.

Sei que vou cometer injustiças porque precisaria citar vários outros, mas vamos lá, dez, por ordem de leitura:

1 - As Margens do Paraíso (Lima Trindade);

2 - Solo para Vialejo (Cida Pedrosa);

3 - Arraial do Curral Del Rei (Adriane Garcia);

4 - Ao Pó (Morgana Kretzmann);

5 - Maria Altamira (Maria José Silveira);

6 - Claro é o Mundo à Minha Volta (Thiago Medeiros);

7 - Antônia (Santana Filho);

8 - Salomé (Iaranda Barbosa);

9 - Nem Sinal de Asas (Marcela Dantés);

10 - Desamparo (Fred di Giacomo)


Você está trabalhando em um novo projeto literário? Poderia nos falar um pouco?

Estou com a escrita de um romance em curso, o processo tem sido lento por uma série de fatores, o mais óbvio é que tenho tido menos tempo para dedicar à escrita porque estamos trabalhando em ritmo intenso no SUS; ano passado tivemos férias e feriados suspensos, por exemplo. Outro motivo é o cansaço que esse cenário traz consigo, muitas vezes não tenho energia para ligar o computador e escrever, mas vamos caminhando porque em contrapartida existe a necessidade da escrita que me empurra para o texto.

A princípio a história tem duas narradoras e o cenário da pandemia como pano de fundo, estou tateando as narrativas, as personagens têm me contado aos poucos sobre si, estou atenta, ouvindo e seguindo as duas pra descobrir o que elas querem me dizer.


Indique para os nossos leitores um filme, ou série e um livro.

Filme: Paterson, de Jim Jarmusch, embora não seja novo, foi lançado no Brasil em 2017, eu só assisti há pouco, no festival Sesc em Casa. Mas vou indicar também uma série que está na Netflix: Please, like me, é australiana, meio comédia, meio drama, seus personagens irritantemente humanos me foram boas companhias nesse tempo pandêmico. Livro, vou indicar um que li mais de uma vez e estou relendo nesse momento: Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado.


Adrienne Myrtes nasceu no Recife/Pernambuco e vive em São Paulo desde 2001.

É artista plástica e escritora. Participou de algumas antologias, destacando: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, (Ateliê Editorial, 2004), 35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum, (Bertrand Brasil, 2007) e Assim você me mata (Terracota Editora, 2012). Publicou: A Mulher e o Cavalo e Outros Contos (Alaúde e eraOdito, 2006), o romance Eis o Mundo de Fora (Ateliê Editorial, 2011) cujo projeto recebeu o Prêmio Petrobras Cultural 2008/2009, a novela Uma História de Amor para Maria Tereza e Guilherme (Terracota Editora, 2013) e Mauricéa (Edith, 2018), finalista do Prêmio Jabuti, 2019.

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