Ed Marte e a luta coletiva por realidades mais plurais

Entrevista de Ed Marte, artista não-binarie, por Morgana Kretzmann

foto: Tamás Bodolay 

Sobre a Academia Transliterária, por favor conte para os nossos leitores como ela surgiu. Quais artistas a fundaram? Quantas pessoas participam dela hoje?

A Academia TransLiterária surgiu há cinco anos em Belo Horizonte, criada pelos artistas João Maria, Nickary Aycker, Pitty Negreiros e Titi Ryvotril. Eles tiveram essa ideia numa mesa de bar e convidaram outres artistas trans da cidade. A Academia é um coletivo de artistas, poetas, cantoras, performers, escritoras, formado na sua grande maioria por pessoas Trans, Travestis e outros corpos LGBTQIA + que trabalham com performance, intervenções urbanas, saraus de poesia e formação artística para outras pessoas da comunidade. O coletivo trabalha com pesquisa e investigação estéticas e linguagens artísticas para a difusão e protagonismo da arte e cultura T e periférica. É a primeira iniciativa em Belo Horizonte de caráter fundamentalmente artístico dentro de uma cultura trans, ainda invisível e pouco representada. Hoje participam do coletivo 15 artistas.


Você se candidatou a vereadore por Belo Horizonte na última eleição. Como surgiu essa oportunidade? O que você aprendeu de novo com essa experiência? Se puder, nos conte alguma curiosidade da campanha.

Essa história começou em 2015 com o surgimento do coletivo Muitas Pela Cidade que Queremos, do qual faço parte desde a sua criação nesse ano. O coletivo é composto por pessoas integrantes de vários movimentos sociais da cidade e surgiu com reuniões nas tardes de sábado, nas praças, para conversar e debater temas como ocupação dos espaços públicos, políticas públicas para todes na cidade, em diversas áreas, como mobilidade urbana, educação e saúde. Nesses encontros decidimos ocupar o espaço institucional através das eleições municipais, e em 2016 lançamos uma campanha coletiva com 12 candidates para vereança de Belo Horizonte. Foi uma campanha que ganhou a cidade, envolvendo pessoas de lutas diversas, coletivos e artistas. Na época elegemos duas vereadoras, e uma delas foi a mais votada nas eleições daquele ano, a Áurea Carolina.

Um dos nossos slogans era Votou em uma, votou em Todas.

Depois das eleições, com essa vitória, criamos a Gabinetona, um mandato coletivo com todas as candidatas que participaram do processo e quiseram construir esse projeto político. Participei dessa construção e trabalhei no mandato desde o início, sempre pelas lutas e pautas LGBTQIA +, juventude, artes e cultura, performatizando uma outra política. Em 2020, o coletivo Muitas lançou uma campanha com 12 candidates a vereadores e a candidatura majoritária de Áurea Carolina. O desafio maior foi fazer essa campanha em tempos de pandemia e isolamento social. Fizemos muitas lives, conversas, debates nas redes sociais e encontros online, mas o melhor das campanhas são as conversas com pessoas nas ruas, nas praças, esse debate olho a olho, que nos ensina muito. Foi muito importante colocar meu corpo e voz nas redes com nossas pautas e ouvir também todes nesse formato. Durante a campanha eu saí de bike, máscara e capacete nas ruas com todas as medidas sanitárias, e era reconhecida pelas pessoas quando passava, gente que dizia que acreditava na minha luta. Ouvindo as pessoas, aprendi que não estamos sozinhes nas lutas, sempre podemos contar com outres corpos aliados, e que nossa luta é pela sobrevivência e resistência coletiva. Uma das coisas mais interessantes da campanha é que recebi mensagens de amigues querides dizendo que as crianças adoraram os vídeos da campanha e toda a identidade visual. Nas ruas, em outros tempos, em outras campanhas, sempre encantei as crianças com alegria. E isso é muito gratificante para mim.


Quais são seus planos artísticos, sociais e de vida para quando o apocalipse passar?

Depois que esse apocalipse passar, quero ganhar o mundo todo, viajar com minha arte para todos os lugares que sonhei em ir um dia. Quero continuar na luta política através da minha arte, do corpo nas ruas, nos lugares públicos, sempre com muita alegria e bom humor. Quero ser estrela do cinema nacional, usar da imaginação e criar personagens diversas. Viver e amar todes, ser feliz , sempre na coletividade, apoiando todes. Tenho esperança em um mundo mais alegre em que possamos viver em comunidade, plantar e comer alimentos saudáveis.


Como de praxe, por favor, indique um artista, um livro ou um filme para nossos leitores

Artista visual e cantora fabulosa: Ventura Profana.

Livro: Não Vão Nos Matar Agora, de Jota Mombaça.

Filme: Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio. 


Ed Marte é artista não-binarie. Trabalha com performance, teatro, cinema e poesia visual, utilizando das relações entre o corpo, espaço e público, arte e vida. Educadore popular e professore de Kundalini Yoga. Integrante dos coletivos Academia Transliterária e Filme de Rua.