Fabio Maciel e a arte que vem de tudo
entrevista exclusiva com o escritor e ilustrador Fabio Maciel, por Morgana Kretzmann

1 - Fabio, nos conte quando e como tu começou a ilustrar?

R - Como toda criança, eu gostava de desenhar, continuei durante um período da adolescência e, por vários motivos, acabei deixando de lado e parei por vários anos. Nos anos 2000 eu voltei a rabiscar alguma coisa e, em 2015, ilustrei o meu primeiro livro. Desde então, ilustro quase todos os dias.

2 - Pra ti como é sobreviver de arte no Brasil? Como tu enxerga a dicotomia entre o criar artístico e o lucro?

R - Viver de arte é impossível, eu não consigo. Ilustrar livros em um país de não-leitores é pura teimosia, é sublevação. Não culpo as pessoas, acho que o consumo de arte (incluo dentro desse guarda-chuva a literatura etc.) não é prioridade num país desigual e cada vez mais pobre. Situação agravada significativamente pela conjuntura atual. Um dos últimos livros que ilustrei, por exemplo, custa cerca de 60 reais. Esse valor faz muita diferença. É quase o valor de um botijão de gás. Como disse, não consigo viver exclusivamente da minha arte. Eu tenho outro emprego. Não vejo problema na relação "criar artístico" e "lucro". Seria perfeito conseguir sobreviver somente de arte. Renunciaria a todos os outros trabalhos.

3 - Hoje tu vê as redes sociais como ferramenta de divulgação de trabalho para artistas já consagrados e artistas que estão começando ou como um lugar cômodo, que pode afetar a produção, a criatividade e o foco desses artistas?

R - As redes são um grande lixão. Apesar disso, não é possível ficar de fora. Uso as redes para divulgar meu trabalho e para manter contato com outros artistas (e reclamar do desgoverno atual). Quase todos os dias descubro um ilustrador no Instagram. Eu sigo um cara do Teerã, por exemplo. Eu nunca iria chegar a esse artista fora das redes sociais.

4 - Quais teus ídolos? Em quem tu te inspirou quando começou e quem te inspira hoje?

R - Não sei se tenho ídolos. Já fui chamado de iconoclasta e acho que sou mesmo. Mas tenho muitas referências: histórias em quadrinho, cinema, fotografia, música, tudo tem um impacto no meu trabalho. Eu gosto muito de cartazes e os soviéticos ainda são os melhores nessa linguagem. A imagem na música também é uma grande inspiração, da arte punk do Raymond Pettibon às capas de LP's da Blue Note e da Elenco (Cesar Villela). Da xilogravura ao desenho digital, roubo tudo o que me agrada.


Fabio Maciel é escritor, ilustrador e otras cositas mas. Nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1978, onde vive. Já publicou mais de dez livros para crianças, jovens e adultos. Mais sobre o autor em <fmaciel.com>

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