Jeanne Callegari e o caminho da percepção sintética

Entrevista da poeta, artista sonora e produtora cultural Jeanne Callegari, por Ian Uviedo

1. Jeanne, de onde vem o primeiro impulso para a criação de Caio Fernando Abreu - Inventário de Um Escritor Irremediável (Editora Seoman, 2008)? A paixão pela obra, a curiosidade pela vida, ou quem sabe as duas coisas?

Ótimos motivos, e a escolha teve sim algo a ver com eles, mas a primeira razão foi mais pragmática: a busca de um tema para o trabalho de conclusão de curso em Jornalismo, que eu cursava na UFSC, em Florianópolis. Eu tinha 22 anos e tive a ideia - um tanto megalomaníaca, por supuesto - de fazer uma biografia. Uma biografia não-exaustiva, mais curta, mas uma biografia. OK, mas de quem? Eu queria alguém com uma trajetória interessante, que tivesse circulado por aí e feito coisas legais, e cuja história ainda não tivesse sido contada. Para além disso, eu, que já escrevia na época, e de alguma maneira idealizava isso de ser escritor(a), quis investigar como é que se formam esses seres, onde nascem, o que comem, como passam seus dias, veja sexta-feira no globo repórter etc. Claro que essa parte falhou, por óbvio, cada artista segue um caminho particular e diverso. Mas à parte isso, o Caio era exatamente o que eu buscava. Tinha rodado bastante, circulado em diversos meios, vivido a contracultura de forma intensa, além de não existir, então, nenhuma biografia dele. E, embora a paixão não estivesse lá de cara, eu já gostava dos textos dele que tinha lido, uma admiração que, à medida que eu lia a obra completa, foi aumentando. No final, foram quatro anos convivendo com o Caio, lendo suas cartas, entrevistando as pessoas que o conheciam, me cercando das referências que ele gostava, livros, discos, artistas etc. Virou quase um amigo, um membro da família, alguém com quem eu tinha conversas imaginárias. O trabalho final foi apresentado em 2005 e foi muito bem recebido, a banca sugeriu a publicação. Aí eu ampliei a pesquisa, fiz novas entrevistas - foram pouco mais de 60, no total -, reescrevi, e o livro saiu em 2008.


2Vivemos num país que sofre de uma crônica perda de memória. Poetas, escritores e escritoras, artistas e pensadores são constantemente esquecidos sob a erosão da passagem dos anos somada a uma ignorância que relega a produção artística nacional ao segundo, terceiro e último plano. Caio Fernando Abreu é um escritor hoje bastante popular, tanto nos meios acadêmicos quanto populares. Frases atribuídas a ele pululam nas redes sociais e cada efeméride sua é celebrada veementemente. Mesmo assim, você poderia dizer que, no processo de reunir informações e material sobre o poeta, apareceu alguma dificuldade, algum empecilho que esbarrou nessa zona escura onde muitos de nossos artistas são deixados?

Quando comecei a pesquisa, em 2004, o Caio ainda não tinha virado um hit das redes sociais. Boa parte da sua obra estava esgotada e era difícil de achar. Rodei muitos sebos atrás de edições raras (a Estante Virtual, que hoje centraliza um pouco essa procura, só iria aparecer, e timidamente, no final de 2005), outras ganhei de presente da família do escritor. Mas tive sorte, também: o volume que reúne parte da correspondência do Caio - que era um missivista compulsivo, escrevia muito e longamente para amigos e conhecidos -, editado por Italo Moriconi, tinha sido publicado pela Aeroplano em 2002, e esse material foi fundamental na minha pesquisa. Já havia, também, muita gente estudando a obra do escritor nos cursos de Letras. De lá pra cá, muita coisa do Caio foi reeditada, sua obra passou a ser publicada por editoras maiores, surgiram outras biografias e trabalhos sobre ele. Fico alegre de ver que o interesse por ele e por sua obra continuam a crescer.


3. Depois da biografia, você publicou três livros de poesia, o Miolos Frescos (Patuá, 2015), o Botões (Corsário Satã, 2018) e o Amor Eterno 2 (Garupa e Pitomba, 2019), além de ter tido poemas publicados em diversas antologias no Brasil e no exterior. Como foi a transição da biógrafa para a poeta? Já havia uma produção poética oculta este tempo todo?

Na época da biografia, eu já escrevia, mas não poesia. Tentava algo na prosa, contos, até um romance eu fiz. Mas a coisa só foi engrenar mesmo quando topei com a poesia, anos depois, já morando em São Paulo. Foi muito por acaso que numa certa noite me vi digitando alguns poemas, soprados na minha orelha enquanto dormia. Não eram bons poemas, pelos meus padrões de hoje; mas na época vi que tinha alguma coisa ali. Tinha caminho, mais caminho que nos contos que eu escrevia. Naquele momento não entendi bem o porquê, mas hoje creio que é pelo tipo de percepção mesmo, aquela coisa de a mente da prosa ser mais analítica e a da poesia mais sintética. E aí começou. Foram alguns anos de estudo, leitura e prática até achar que era hora de mostrar meus poemas e mais uns tantos até sair o primeiro livro, o Miolos Frescos, de 2015. Nesse meio tempo, eu já tinha me formado, trabalhado em redações e desistido delas, o Jornalismo entrou numa crise da qual ainda não saiu, se é que um dia sairá. Desde então escrevi muito pouca coisa em prosa, ao mesmo tempo que comecei a experimentar a poesia fora do papel e do livro, na performance, na voz, nos diálogos intermídia com a imagem, com o som.


4. Como anda a sua produção nestes tempos pandêmicos? Algum novo projeto no horizonte?

Em termos de livro, a publicação do Amor Eterno 2 deu uma esvaziada, por assim dizer; tenho escrito, mas quase nada de poesia, ou pelo menos quase nada que eu goste. Mas isso é assim mesmo, daqui a pouco volta. Tem algumas coisas que quero fazer, algumas linhas que estou começando a explorar, mas ainda muito no início do início. Para além disso tem o Macrofonia!, projeto de poesia e performance ao vivo que eu organizo desde 2017 e que vamos retomar assim que a pandemia permitir (ou adaptar para o meio online, caso se comprove que isso não vai acontecer); ganhamos dois editais para realizar uma temporada em 2021. Quero continuar também as colaborações com amigues, coisas que fiz em 2020 e me deixaram muito alegre, como os videopoemas e cartazes, além das explorações sonoras.


5. Para terminar, poderia indicar um livro para o público leitor da RevistaRia?

Pode indicar um livro que ainda não existe? Esse ano sai pela editora 34 a obra completa do Leonardo Fróes, ser e poeta imenso, e que acaba de fazer 80 anos. Apesar da importância do poeta, boa parte de sua obra hoje está esgotada e é difícil de achar; a reedição é uma excelente notícia, bem-vinda e necessária. 


Jeanne Callegari é poeta, artista sonora e produtora cultural. Publicou os livros Amor eterno 2 (Garupa e Pitomba!, 2019), Botões (Corsário-Satã, 2018) e Miolos frescos (Patuá, 2015), todos de poemas, e Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Em suas performances ao vivo, trabalha com os cruzamentos entre palavra, voz, ruídos e paisagens sonoras. É curadora e organizadora da Macrofonia!, noite de poesia e audiovisual ao vivo em São Paulo (SP), realizada desde 2017.