Jotabê Medeiros e as lacunas da memória

Entrevista do escritor e jornalista Jotabê Medeiros, por Morgana Kretzmann

1. Jotabê, conte para os leitores da RevistaRia qual é a maior dificuldade em escrever uma biografia? Há perfis mais trabalhosos que outros?

Acredito que a maior dificuldade é mesmo encontrar a tese principal. Uma biografia precisa ser algo que se propõe a esclarecer uma questão sobre o biografado. Geralmente, essa tese está expressa já no título. É como no jornalismo: você pode escrever uma imensa reportagem, com dezenas de entrevistados, com texto ágil, envolvente. Mas aí você pára e pensa: agora preciso de um título que resuma todo o meu esforço. Se você não tem um título, a reportagem começa a capengar. Acho que a biografia é igual: se você terminou e não sabe o que ela revelou, está inacabada. Não há perfis mais simples e outros mais complexos, tudo se resume em descobrir o que você quer dizer.


2. Como foi a mudança de respeitado crítico musical para biógrafo de muitos leitores? Como, no dia a dia do trabalho, tem sido, em termos de escrita e modo de fazer, essa mudança?

Tenho ficado bastante surpreso com a receptividade. As pessoas, em geral, gostam de saber mais sobre os personagens, elas querem respostas para as lacunas, para as angústias - toda biografia sempre suscita novas questões. Aí, a publicação de uma biografia acaba sendo uma grande empreitada coletiva, porque todos os dias as pessoas surgem com novos assuntos e novas abordagens para o biografado, e isso enriquece o relacionamento entre o autor e o leitor. Estou em pleno desenvolvimento de minha escrita.


3. Você está isolado, na roça, desde que começou a pandemia. Como tem sido esse novo normal? Acredita que mudaremos nossa forma de agir e interagir mesmo depois de todos vacinados e de todas as perdas e traumas?

Alternei essa condição de roça e cidade um pouco, agora estou mais na cidade de novo por causa dos compromissos editoriais. Acredito que, nos últimos onze meses, descobrimos a fragilidade da nossa vida social, que muito do que fazemos no dia a dia tem um componente meio de vácuo, de esforço pelo hábito, que há muito de desnecessário nos repetidos deslocamentos e compromissos e na ansiedade. Passamos a bancar apenas o essencial e isso é um aprendizado. Vamos ter que redescobrir agora a solidariedade, acho que será a base de uma sociedade que viu suas vigas-mestras - o trabalho, a competição, a representatividade pública, a diversão contínua - serem um tanto abaladas.


4. Nos fale um pouco sobre seu próximo livro?

Meu próximo livro é uma nova biografia de um personagem muito complexo, ao mesmo tempo que é muito popular. Eu ainda não posso falar sobre ela porque estamos em processo de finalizar alguns detalhes, mas posso dizer que é alguém que todo mundo conhece, e sobre o qual TODO mundo tem uma opinião. E essa opinião nem sempre é coincidente.


5. Por favor, pode nos indicar um livro e um trabalho musical para os nossos leitores?

Eu gostaria de indicar duas obras:

Swing Lo Magellan: disco da banda Dirty Projectors, um disco de uma refinada sonoridade e elétricas atmosferas, entre a ambiência figurativa do folk e umas digressões abstratas muito originais e levemente psicodélicas.

Mil Sóis: um livro do poeta italiano Primo Levi que renova a fé na palavra como suporte fundamental da percepção, do sentimento e da humanidade. Um livro de cabeceira para sempre.


Jotabê Medeiros é jornalista, trabalhou nos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Veja SP, é editor de cultura da CartaCapital e publicou os livros O Bisbilhoteiro das Galáxias (Lazuli), Belchior - Apenas um rapaz latino-americano e Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia Livros).