Marcela Dantés e a delicada literatura após a morte

Entrevista da escritora Marcela Dantés, por Morgana Kretzmann

Marcela, você escreveu um livro de contos, Sobre Pessoas Normais, que foi muito bem recebido pela crítica, e agora chega com um romance, Nem Sinal de Asas, que é fabuloso. Como é transitar por esses dois universos da escrita? Onde você se sente mais à vontade?

Acho que não posso dizer que me sinto à vontade em nenhum dos dois formatos - pra mim, a escrita vem sempre com um certo desconforto, um incômodo que fica ali, sobrevoando todo o tempo e que, desconfio, seja algo como uma força motriz para que se escreva mais.

Eu venho da publicidade, o universo das frases de impacto, das pequenas e supostamente poderosas mensagens persuasivas, da esdrúxula regra de que em um outdoor só cabem treze palavras. Então, já sou um pouco (ou bastante) condicionada a buscar um ritmo mais acelerado, talvez mais cortante. Nesse sentido, o conto me dá um pouco mais de segurança: não se deve contar tudo, não há um aprofundamento do universo de cada personagem, mesmo que elas apresentem traços super complexos, é como um recorte de uma situação maior, um frame forte e definitivo. No romance, por outro lado, são meses de pesquisa, uma construção minuciosa dos perfis, um espaço temporal muito maior, que é quase um convite para o erro, para a contradição. Eu tive uma dificuldade grande para me adaptar à ideia de que a história de Anja, protagonista de Nem Sinal de Asas, ficaria comigo por anos: o processo completo foi de 2017 a 2020.

São exercícios diferentes, demandam esforços muito diferentes, mas acho que são complementares. Agora, depois de tanto tempo imersa nos processos do romance, não me sinto em condições de iniciar um novo projeto de fôlego e tenho investido meu tempo em narrativas mais curtas.


Nem Sinal de Asas é um livro que surgiu a partir de uma matéria de jornal que você leu. Nos conte um pouco sobre o processo de pesquisa e de escrita dessa história.

A matéria da jornalista Sílvia Pontevedra no jornal El País me marcou muito. Contava a história de Maria del Rosario, que morreu sozinha em seu apartamento, no município de Culleredo, na Espanha, e cujo corpo só foi encontrado cinco anos depois. Cinco anos. Por vários dias eu me peguei pensando nessa morte e, principalmente, nessa solidão. Foi muito difícil entender como uma pessoa podia chegar nessa situação tão extrema de exílio, de não ter ninguém que pudesse sentir a sua falta, reclamar o seu corpo, colocar um cartaz de procura-se. E, aí, pesquisando um pouco, eu descobri que não era um fato isolado, que é, inclusive, bem frequente em muitos países da Europa. Essa semana mesmo, encontraram um corpo de um homem de sessenta e poucos anos, que estimam que morreu há mais de nove. E não é exclusividade de idosos, encontrei vários relatos de pessoas bem jovens, uma delas que morreu no dormitório da Universidade e seguiu sem ser encontrada por três anos, a televisão ligada por todo esse tempo.

Uma grande parte da minha pesquisa passou por esse tema e me lembro de ser tomada todas as vezes pelo mesmo espanto de quando eu li a primeira matéria. Também procurei a Sílvia, a jornalista, assim que decidi que precisava transformar essa história em literatura. E esse encontro foi fundamental para o processo de escrita: a Sílvia foi uma parceira de pesquisa e me trouxe informações muito valiosas. E, como se não fosse suficiente, voltou à cidade para conversar com a Guarda Civil, com os vizinhos, buscar dados que me pudessem ser úteis na feitura do romance.

Para além disso, fiz um curso de cuidadora de idosos, a profissão da protagonista, para tratar com mais propriedade dos temas da sua rotina. E há também a questão do espaço, o prédio onde tudo acontece que é, de alguma forma, um personagem do romance. Houve muita pesquisa de arquitetura, algumas visitas à possíveis locações. Acho que todo o processo foi permeado por essa busca por respostas, um tentar entender quem são essas pessoas tão solitárias e quais caminhos elas percorreram para chegar onde chegaram.


Qual a maior dificuldade para escrever um livro a partir de uma história real? Você teve contato com alguém que conheceu a pessoa que foi encontrada morta no apartamento?

Houve uma preocupação grande com o respeito à história e à protagonista da notícia, a Rosario não no sentido de ser fiel ao que lhe aconteceu, mas no sentido de ser cuidadosa ao tratar do tema, de honrar a memória de alguém que já tinha tanto peso para carregar. Não é um livro-reportagem e nem nunca teve a pretensão de ser: as coincidências das histórias se encerram no argumento principal, o corpo que é encontrado cinco anos depois da morte. Ainda assim, por muitas vezes eu me senti invadindo uma intimidade, devassando um espaço e uma morte muito particulares e isso foi, na maior parte do tempo, bastante delicado. Acho que por isso, inclusive, o fato de não se ter tantas notícias da Rosario antes de sua morte (ela era completamente sozinha, afinal) foi muito positivo: me forçou a construir uma vida toda nova.

Meu único contato com as pessoas na Espanha foi com a Sílvia, que por sua vez conversou com vizinhos, policiais, médicos responsáveis pela autópsia. Não encontrou, o que faz todo sentido, amigos, familiares, pessoas que pudessem contar da Rosario além da sua morte. E em sua matéria, ela define muito bem, era uma mulher que vivia na ponta dos pés e esse traço Anja carrega consigo, como uma homenagem, se é que é possível dizer algo assim.


 Por último, como é de praxe na RevistaRia, pode nos indicar um livro e uma série ou filme que ajude nossos leitores a passar os dias quarentenados?

Vou indicar a leitura de Uma Vida Pequena, da Hanya Yanagihara. São mais de setecentas páginas de uma narrativa contundente e muito sensível. Me parece um bom projeto para esses tempos tão malucos.

E indico, também, a série The Leftovers, da HBO. Apesar de ser de 2014, é muito atual e trata com delicadeza temas como perdas, afetos e o medo.


Marcela Dantés nasceu em Belo Horizonte, em 1986.

Seu livro de estreia, a coletânea de contos Sobre pessoas normais (Ed. Patuá), foi semifinalista do Prêmio Oceanos. Em 2016, foi a autora residente do FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, a convite do escritor José Eduardo Agualusa.

Em 2020 lançou seu primeiro romance, Nem sinal de asas (Ed. Patuá).