Patrícia Galelli, a arte, um soco e um afeto 
entrevista exclusiva com a escritora e artista Patrícia Galelli, por Morgana  Kretzmann

P: Você acredita que exista um movimento cultural beat no Brasil?

R: Essa pergunta eu não sei responder e, admito, tentar me faria esbarrar na miopia do achismo. Uma porque o Brasil é um país continental, outra porque sei que escritores/pesquisadores/tradutores que se debruçaram sobre o tema também não se arriscariam. Mas é uma pergunta que me instiga a pensar. De algum modo, consigo ler cenas de contracultura no Brasil. Escamoteados por tempos diferentes, mas sincrônicos, penso sobre o que seria ser contracultura hoje no Brasil. Então, basta olho para o que estamos sobrevivendo como artistas: governo facínora, volta ao index de livros proibidos como a tentativa do governo de Rondônia (isso foi logo ali, em fevereiro de 2020); intolerância e perseguição religiosa; negacionismo; desmatamento e genocídio indígena, etc. Tudo isso acontecendo no agora - essa volta ao que nunca ficou no passado - e aí, temos que observar a busca pelo autoconhecimento cooptada pelo marketing digital e pelos coachings, o uso de drogas controladas (estimulado pela indústria farmacêutica), mantendo a anestesia e a servidão voluntária; o consumismo sempre inovando.

Contrapondo isso tudo, vejo a contracultura nos pontos de encontro das mentes livres. Influenciados ou não pela geração Beat, vejo artistas, escritoras, editores na batida para não desistir do desejo por um outro mundo possível: gente tentando ser um humano um pouco melhor do que a média da espécie; gente enfrentando quem tem tanto medo do diferente que tenta aniquilá-lo. Eu vejo cena de contracultura quando nos colocamos contra a censura de livros e da produção artística, contra a violência às mulheres, contra o genocídio indígena, contra a devastação que o agronegócio insiste em fazer, contra o fogo na Amazônia e a destruição das matas em todo o país, contra um estado policial que tortura as periferias, contra a desigualdade social, contra o racismo, contra a homofobia. Nesse redemoinho de passado, de uma forma de vida que não faz mais sentido há tempos, somos contracultura quando não deixamos de acreditar que a arte - nas mais diversas linguagens - é liberdade.

Também é contracultura quando não aceitamos mais o velho modo de fazer as coisas, quando não nos perguntamos sobre a equidade de espaço a mulheres e negros. Olhando para a geração beat mesmo, nunca li Ted Joanes, por exemplo. E por que demorei tanto a conhecer a extraordinária Diane Di Prima? Tinha mais mulheres encarando a misoginia ainda mais evidenciada no pós Segunda Guerra, quando depois de usarem a força de trabalho feminina queriam que voltassem à servidão dos lares, num contexto repressor mesmo para os homens. Pesquisando, encontrei Joyce Johnson, Elise Cowen. Se os homens estavam sendo transgressores, imaginem essas mulheres! Mas na história são sempre secundárias: Joyce Johnson aparece como companheira de Kerouac; Elise como datilógrafa de Ginsberg.


P: No futuro, pós-pandemia, quando as relações com as ruas, com o outro, provavelmente passem a ser muito diferente das relações que vivemos até aqui, como você acha que a cultura será afetada?

R: Cultura é um termo complexo e que possibilita pensar vários aspectos, mas a verdade é que já estamos afetados até a medula e precisaremos ser criativos. É evidente que vamos conviver com esse vírus - ele simplesmente passou a existir e não irá embora quando encontrarem uma vacina.

Durante esses meses de quarentena, e respondendo isso num momento em que ainda preciso cuidar para não tocar o meu próprio rosto, imagino que no aspecto da convivência: se estávamos em outro patamar nos relacionamentos e nas liberdades sexuais, isso está afetado. Se ainda estávamos evitando olhar para as nossas sombras e para as dores emocionais, isso está afetado. Se tínhamos alguma dúvida sobre a obscenidade das grandes fortunas e da desigualdade social, isso está afetado. Se havia a dificuldade de compreender a importância dos artistas e de como essas vidas importam para mantermos a sanidade, isso está afetado. Se alguém ainda duvidava que nunca tivemos uma democracia sólida, isso está afetado. Se negávamos a nossa capacidade de sentir ódio a ponto de nos assemelharmos ao que abominamos, isso está afetado. Se alguém ainda tinha alguma reticência sobre a necessidade de fortalecer um estado de bem-estar social, isso tem que estar afetado. Se alguém não acreditava na violência contra mulheres dentro de casa, se ainda não tinham percebido o grau de exaustão que causa o serviço doméstico não remunerado, isso precisa ter sido afetado. Se alguém ainda, por cretinice ou estupidez, acha que a pesquisa nas Universidades é balbúrdia e desnecessária, isso continuará nos afetando completamente. E a lista continua.

No aspecto da produção cultural, assunto caro para mim, senti tristeza em perceber que nos querem "artistas da fome", como no conto de Kafka. Mas lamento informar que não somos. Dito isso, é extremamente necessário ter políticas públicas menos miseráveis para a arte e a cultura. Ainda estamos brigando para que existam, num momento em que deveriam estar avançando, passando de nível (mas não, no meio disso tudo temos que aguentar a "leveza" desconectada da Regina Duarte). É preciso passar de nível: o formato de editais de incentivo e estímulo à produção, escassos e descontinuados, devem existir, mas não como única possibilidade para realização de projetos. É necessário construir outro formato de apoio à produção, difusão e fruição das linguagens artísticas, para que garantam a vida e o trabalho de quem produz continuadamente. Acho que o grande desafio é pensar em formas para que artistas existam com dignidade, pois são os que podem oferecer o que compreende bens culturais, cujo acesso é direito de todos. O estado brasileiro poderia começar cumprindo o artigo 215 da Constituição Federal.


P: Na sua opinião como artista, mulher, que mora fora do eixo rio-são paulo, qual será o papel a da arte no Brasil pós-covid-19?

R: É fundamental. Embora não consiga prever o que restará. Algumas instituições culturais e patrocinadoras já escolheram que artistas e que arte vai existir no pós. De todo modo, fico pensando que, se fosse possível aprender alguma coisa com uma pandemia, com um vírus invisível e letal e democrático, gostaria que fosse a capacidade de tirarmos sozinhos os antolhos da visão do cavalo manso que nos habita. Mas, como não somos capazes, precisamos da arte. Assim, se os artistas não escolhidos sobreviverem e a arte fizer o que faz de melhor nesse pós-pandemia, dou por suficiente: provocar, chacoalhar, nos fazer engolir as generalizações daninhas, nos dar um soco no estômago e outro na cara. Eu sei que estamos frágeis, então que possamos ser mais gentis e afetuosos uns com os outros. Mas a arte, a arte precisa nos bater até que, como uma massagem cardíaca feita de porradas, passemos a reagir.


P: As cidades de Florianópolis e de Concórdia tiveram importância no seu trabalho? Em que sentido?

R: Penso que sim, de algum modo. O meu primeiro livro, Carne falsa (2013), escrevi ainda quando morava em Concórdia, cidade de cerca de 70 mil habitantes no Oeste de Santa Catarina, onde nasci. O livro não é sobre a cidade, mas a forma como lidei com a linguagem, fragmentária e elíptica, veio muito do corte de carne na indústria frigorífica, instalada até hoje lá no centro. E, de algum modo, passar a maior parte da minha vida convivendo com a morte inumerável de animais, vendo passar caminhões lotados de porcos ou aves que eu sabia que virariam linguiça, embalagens nos supermercados e embutidos, marcou certa crueza na minha forma de ver as coisas. No Carne, isso esteve presente na forma dos textos sobre situações de amor, morte, sexo transferindo para as relações íntimas a dor de quem não tem saída.

Florianópolis é onde vivo faz nove anos. Aqui, escrevi Cabeça de José (2014), Um bicho que (2015/16), onde fui presente na produção cultural e pude ampliar meus olhares, meu repertório, desenvolver minha sensibilidade e uma vida social, que eu não tinha. Apesar de provinciana e com seus problemas, Florianópolis tem gente que soma na contracultura, é uma cidade linda e habitável, é respirável. Tem ar pra não deixar desistir. É onde pude amar uma forma de vida que caibo, compartilhada com Dennis Radünz, uma forma de vida em que respiramos literatura, arte e desejo de que outro mundo seja possível. Daqui, experimento a linguagem, pesquiso processos artísticos, compartilho leituras, preparo meus primeiros livros para criança. 


Patrícia Galelli (1988) é escritora e artista. Assina a coluna Vértebra da mão, na Revista Gulliver. Tem formação em jornalismo e é mestre em Processos Artísticos Contemporâneos (Universidade do Estado de SC - Udesc). Publicou os livros Carne falsa (Editora da Casa, 2013), Cabeça de José (Editora Nave, 2014), Prêmio Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura (2013); o conto Gávea (selo Formas Breves/e-galáxia, 2014) e a publicação de artista Um bicho que (Miríade Edições, 2015/16). Publica ainda em 2020 os livros para crianças Gato-átomo, também premiado pelo Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura (2019), e Oficina de pai pelo selo Nave-nina, da Editora Nave.

foto: Ayrton Cruz