Paulo Lins, o Brasil e o roteiro que não deu certo
entrevista exclusiva com o escritor e roteirista Paulo Lins, por Ian Uviedo

1. Se filme fosse, em que gênero estaria encaixado o Brasil atual? Uma tragicomédia, quem sabe? Ou o terror é mais exato?

R - A situação política do país, com tantas mortes que poderiam ter sido evitadas, mas que não o foram por causa de um presidente que se importa mais com a economia do que com a vida da população, é uma tragédia, um horror. E um horror também pelas pessoas que votaram nele. A burrice tomou conta. Lembra daquela frase do Nelson Rodrigues, "os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade."?, então, é isso: os idiotas estão vencendo.

Vejo que nessas pessoas há muito ódio por quem evoluiu intelectualmente, e espiritualmente, através da arte, do conhecimento, da ciência. Alguém que se utiliza de coisas como o celular, o avião, o computador, não pode ser contra algo que é cientificamente comprovado no laboratório. Mas as pessoas que se juntam ao Bolsonaro, e o apoiam, são absolutamente incapazes de compreender isso. E nós, que pensamos e trabalhamos com arte, ficamos aterrorizados com tamanha burrice.

2. Face aos últimos acontecimentos, muito tem se falado do "roteirista do Brasil". Ao mesmo tempo, a discussão pública tem se valido cada vez mais do termo "narrativa". Como roteirista de diversos filmes e séries televisivas e autor de clássicos da literatura nacional, como você avalia a apropriação desses termos?

R - Diferente da vida, o roteiro tem que ser lógico. Uma situação muito absurda, disparatada em relação ao resto da história, não convence ninguém. Lembro daquela frase de Fernando Pessoa: "literatura, como saber se é poesia ou filosofia?". A ficção está muito mais ligada à ciência filosófica do que à própria realidade. A prosa tem a mesma premissa. Qualquer obra de arte, na verdade, precisa fazer sentido. E o Brasil não faz sentido, é insano. Não é nem surrealista, porque o surrealismo é inteligente. Ninguém pode dizer que sabe o que está acontecendo. Pelo menos não agora, talvez daqui alguns anos.

Estou estudando atualmente o fim do segundo império, D. Pedro II e a coroação da princesa Isabel. D. Pedro II foi um intelectual, ligado às artes, enquanto a maior parte da população permanecia sem estudo. Só à luz da história para perceber o impacto disso, que segue até hoje, que o ensino de qualidade é reservado às classes média e alta, e o povo continua fora do colégio. Eu, como pessoa de esquerda, petista, posso dizer que em quinhentos e vinte anos de país, só dezesseis deles foram com um governo sério, que se atentou a questões básicas, como ensino popular e distribuição de renda, tirando o Brasil da linha da miséria.

Enfim, um bom roteirista, com experiência, não escreveria sobre o que estamos vivendo. O Brasil não daria um bom roteiro.

3. Na sua opinião, qual a mais exitosa adaptação cinematográfica de um livro? O que faz uma adaptação ser boa?

R - A adaptação de um livro é muito difícil. Muitos diretores costumam dizer que o filme estava pronto, não é verdade. Acredito que o diretor não tem que ser fiel ao livro, mas ao espírito do livro. Mesmo que a trama seja alterada, que você corte ou acrescente personagens e situações, se você tiver sido tocado profundamente pelo que o autor quis dizer, e se guiar por isso, terá uma boa adaptação.

No processo de construção de um filme, que geralmente tem duas horas, muita coisa fica de fora. Na época do Cidade de Deus, o Meirelles me dizia isso, que várias cenas não iam caber. Agora, com a liberdade de tempo da série, por exemplo, fica mais fácil.

Uma das minhas adaptações favoritas é o filme Lavoura Arcaica, que Luiz Fernando Carvalho fez com o livro de Raduan Nassar. Na época, as minisséries nem estavam em pauta, e o que o LFC fez, um filme de quatro horas, poderia ser hoje uma série com oito capítulos de meia hora.

4. Para terminar, pode indicar um filme e um livro para os leitores da RevistaRia?

R - Um filme que eu adoro é o Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman.

E um bom livro para os dias de hoje é o Pedagogia do Oprimido, do Paulo Freire. É um livro genial, que todo idiota deveria ler. 


Paulo Lins é poeta, romancista, roteirista de cinema e televisão e professor licenciado. Autor de clássicos como "Cidade de Deus", romance adaptado para o cinema com quatro indicações para o Oscar, e "Desde que o Samba é Samba", que terá sua adaptação para a televisão em breve. 

foto: João Wainer