Rodrigo Carneiro e a intensidade do diálogo entre as linguagens

Entrevista exclusiva do músico e escritor Rodrigo Carneiro, por Ian Uviedo

foto: Johnny Macedo

1. Rodrigo, o seu livro de estréia, o Barítono (Editora Terreno Estranho, 2018), é cheio de referências ao universo musical, a começar pelo título, passando por regatas da banda Kiss, engraxates que são a cara do Buddy Holly, crianças indagando o que é o rock'n roll, até chegar no clássico verso já fui salvo pela música/ tantas vezes, que, diante dela/ sou um amontoado de dívidas constrangidas. Como você enxerga a relação entre poesia e música, dentro e fora da sua criação? São departamentos diferentes ou já se tornaram indissociáveis?

Creio que sejam indissociáveis. Aliás, a poesia cometida na Grécia Antiga, por exemplo, tinha como nascedouro a canção. Eram dizeres entoados que, no decorrer dos séculos, foram parar nas páginas dos livros. Isso sem contar toda a magnitude da tradição oral africana. As mitologias indígenas. No meu caso, a obsessão pela música é um troço gritante. Os versos que você citou, do poema Absoluto Possível, me definem. O apreço pela palavra também. Tanto que, em 2017, eu ministrei um ciclo de palestras no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo chamado "Literatura e rock'n'roll: a intensidade do diálogo entre as linguagens", onde pude mergulhar ainda mais na investigação. E ela segue.

2. Na Mickey Junkies as letras são em inglês, o que já parece ser uma diferença significativa entre sua produção poética e sua produção musical. Quando você escreve, as letras e os poemas vêm do mesmo lugar? Há uma diferença no processo?

É curioso. Nos Mickey Junkies, as palavras estão à mercê ora de um riff de guitarra do Érico Birds, ora da pulsação do contrabaixo do André Satoshi ou de uma levada de bateria do Ricardo Mix - ou tudo ao mesmo tempo. O método de trabalho tem muito a ver com a dinâmica das jam sessions. Ainda que um ou outro integrante traga algo de casa, as ideias são desenvolvidas - e subvertidas - em conjunto, a partir do que surge nos ensaios. E o discurso e seus caminhos me são sugeridos nas audições dessas células rítmicas que se tornarão canções. Composições essas que têm lá a sua estrutura pré-definida: parte a, parte b, refrão etc. Há, portanto, digamos, delimitações impostas pelos signos de um estilo musical e pelo nosso próprio rock pauleira romântico. Já na feitura dos poemas não existe nada disso. As decisões cabem única e exclusivamente a mim. Estou por minha conta e risco. Pra dar aquela dramatizada básica, existe só o silêncio, a negociação entre os demônios internos e a página em branco (risos).

3. O seu primeiro disco é de 1995 e o primeiro livro só veio dar as caras vinte e três anos depois, em 2018. A escrita de poemas é algo recente em sua vida? Ou havia uma produção poética oculta esse tempo todo?

O fascínio pela escrita é companheiro antigo, mesmo que durante a infância e a adolescência eu fosse mais ligado ao desenho. Arrisquei alguns versos diante das primeiras paixões platônicas, mas a produção poética data do início dos anos 1990, período da eclosão dos Mickey Junkies - cujo nome remete tanto a um certo camundongo quanto ao Junky (1953), estreia literária de William S. Burroughs. Nessa toada, influenciado pelo spoken word dos beats, pelo dub poetry jamaicano e envolto na psicodelia noventista, co-fundei, ao lado de figuras como Rodrigo Brandão, Luiz Ferrante e Cazé Pecini, o grupo de prosa e poesia Festivos Gozadores - uma homenagem aos Merry Pranksters, a trupe amalucada liderada por Ken Kesey, descrita no livroO teste do ácido do refresco elétrico (1968), de Tom Wolfe. Além dos encontros semanais de leitura de textos no nosso QG informal, nos apresentamos em casas noturnas, ateliês e faculdades - certa feita, na FAAP, fomos vistos e elogiados pelo saudoso Luiz Carlos Maciel, que lançava Geração em transe: memórias do tempo do tropicalismo (1996) na capital paulista. Participamos também de um evento poético realizado num hospital psiquiátrico. Quando da dispersão do grupo, passei a dizer os meus escritos ao modo solo, dando prioridade às performances ao vivo. Há poemas meus, por exemplo, nos álbuns Miolo (2002), de Anvil FX, e Na confraria das sedutoras (2008), do 3 na Massa, onde Tarde Demais é lindamente recitado pela atriz Alice Braga. E nesse meio tempo, havia também a minha atividade jornalística, cujo enfoque sempre foi música e literatura. Houve acenos com relação a possíveis publicações, mas foi preciso que a gloriosa Editora Terreno Estranho fosse criada para que Barítono existisse de fato.

4. Qual o próximo passo? Há algum livro no horizonte, ou quem sabe um disco guardado na manga?

Também editado pela Terreno Estranho, meu próximo livro sai no primeiro semestre deste 2021. Ele deve se chamar Algumas histórias de amor entre outros poemas. O álbum Pupilas Horizontais (2020), do Bufo Borealis - idealizado por Rodrigo Saldanha e Juninho Sangiorgio -, acaba de ser lançado em vinil. A faixa de abertura, "Fênix hesitante", é um poema meu. No registro, divido as vozes com Fernanda Lira. Outro poema batucado por mim, Insuportável, dá título ao segundo single do vindouro disco solo de Luiz Thunderbird, Pequena minoria de vândalos. Faixa e clipe estão disponíveis nas plataformas digitais. E os Mickey Junkies também vão lançar singles no decorrer dos próximos meses. Uncertain steps, A obsessão e For the rest of my life estão em fase de mixagem.

5. Para terminar, pode indicar um disco e um livro para o nosso público leitor?

Um de cada é muita crueldade (risos), mas vamos lá: o disco é Maravilhas Contemporâneas (1976), segundo álbum do imenso Luiz Melodia. Além da musicalidade exuberante, há a poética poderosa do cabra. Waly Salomão e Torquato Neto, que entendiam do riscado, eram fãs do que escrevia o artista. E o livro é Devoção (2017), de Patti Smith. Precisamos escrever, mas não sem um esforço consistente e não sem certa dose de sacrifício: para dar voz ao futuro, revisitar a infância e para dar rédea curta às loucuras e aos horrores da imaginação antes de oferecê-la a uma vibrante raça de leitores, diz a espetacular senhora na página 119.  


Rodrigo Carneiro escreveu para os jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S. Paulo e Valor Econômico, para as revistas Bravo!, Rolling Stone Brasil, Alfa, Brasileiros, entre outras. Há textos dele publicados nos livros Zappa, detritos cósmicos (Editora Conrad), de Fabio Massari, e Discoteca básica, 100 personalidades e seus 10 discos favoritos (Edições Ideal), de Zé Antonio Algodoal. Foi editor-chefe e apresentador do site Showlivre.com, além de curador da área de música para instituições culturais. Assinou a pesquisa, as entrevistas e a consultoria do DVD O Fim do Mundo, Enfim, 30 anos do festival punk 'O Começo do Fim do Mundo' (Selo SESC). Faz locução publicitária e também é cantor e letrista da banda Mickey Junkies.