Exílio
Toni Moraes

arte: Último drink, Jackeline Westphal

O berro do navio ressoa pelo porto apinhado. É um grito apressado, último aviso para quem pretende partir. Tu sobes à bordo. Trazes nas mãos maleta e chapéu, mas o que te pesa mesmo é o que carregas no peito e nas lembranças. Tu sabes disso. Hesitas. Não há o que fazer. Embarcas. Ainda tens tempo de ouvir a Sé bater às nove. Outra vez o vapor fala. Assobia uma triste canção de despedida. Olhas para o cais. Nenhum dos adeuses que vês é teu. Nenhuma lágrima lamenta a tua partida, nem mesmo a que risca a tua face e que enxugas com o dorso da mão, onde ainda sentes o cheiro da pólvora e o ranço da morte. Partes porque precisas. Partes porque já não há mais Jandira. É nela que pensas enquanto o navio se afasta do porto. São as lembranças que guardas desde tenra idade que te empurram para outro lugar. Um lugar em que não existam as manhãs em que Jandira te levava para a beira do rio, onde vias a panapaná buscando a Ilha das Onças, na outra margem, bem na quentura de antes do almoço, e te afagava os cabelos enquanto sorvias do seio da cunhantã o leite que dividias com o outro. Buscas um sítio qualquer que não te recorde a voz de Jandira, nas noites em que não conseguias dormir, a narrar como as lágrimas da Lua criaram aquele rio em que tanto gostavas de te banhar. Só tu sabes o quanto te assombram as tardes de mormaço em que ela, sempre ela, somente ela, te desabrochou para o mundo, dentro de um velho barco encalhado; o resto de luz que se imiscuía dentre as frestas da madeira rajando o corpo felino que jazia satisfeito ao teu lado. Corpo por ti cultuado, templo onde praticavas a tua fé com devoção e que só aceitavas dividir com o outro, matéria daquela mesma matéria. Foges da cólera ao descobrir que o outro era também matéria da tua matéria, sangue do teu sangue. Ainda carregas a virulência que te acossou ao saber que havia um outro, além do outro, a quem aquele corpo se entregava. Sentes ainda o peso do revólver na tua mão esquerda, e nos teus olhos, cegos de fúria, o peso daqueles outros olhos, resignados, semelhantes em tudo aos teus. Tu te vais. Queres abandonar o vislumbre dos pés que não tocam o chão, o nó da corda, maldito e bem-feito, que não se desfez, a frieza do corpo que adoraste, templo em ruína. O teu pranto e o pranto do outro, teu irmão, irmanados também na dor. As entranhas do navio gritam palavras de vapor e te resgatam das tuas próprias armadilhas. Já não enxergas o porto das tuas misérias. Mas sabes que o carregarás contigo aonde quer que tu vás. Sabes que não existe o exilar-se de si.


Toni Moraes é escritor, editor e pesquisador de literatura brasileira. Nascido em Belém, em 1986, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela UFPA. Mora em São Paulo desde 2010 e atualmente é editor e sócio da Monomito Editorial. Em 2017 publicou o romance O ano em que conheci meus pais e em 2018 o livro de contos Eu estou morto. É mestrando do programa de Literatura Brasileira da FFLCH-USP e em 2020 foi um dos vencedores do concurso internacional Cuentame un cuento, promovido pela Universidade de Salamanca, com o conto Febre.

foto: Rafaela Gama


Jackeline Westphal é artista visual e graduada em Filosofia pela Universidade de Brasília. Suas pinturas e desenhos são motivados por seus traumas, tudo que dói e tudo que traz conforto para a dor. Procura, através do pincel, comunicar o que não consegue por meio das palavras e tem as artes enquanto motor principal da manutenção de sua saúde mental. (Sobre)vive em Brasília a contragosto.
Mais no insta, @jackelineart_

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