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Ana Izabel Mello Affonso

Sempre penso nas esquinas desconhecidas que espalhei por aí, e sei que sou o único que nunca será vítima de nenhuma delas. Acho melhor mesmo que elas existam sem o meu consentimento formal e reconheço que perdi algumas esquinas nesses anos. Entre o encontro de uma esquina com outra, eu olho bem de perto o merdinha que criei. Olhe lá, ele escolhe palavra, apaga parágrafo, mata o trabalho, enche a garganta de ganso de café, esquece o fogo aceso e deixa o macarrão empapar. É um merdinha feito de certidão de nascimento e reflexões de curso de alfabetização. Quando nasceu, achei que serviria, ao menos, para alguma tarefa de uniforme, fazer aquela vidinha de neblina que se esconde pelos bairros da cidade. Cresceu sem graça. Com a cueca entre as bandas da bunda, o merdinha cutucava o rabo até desobrigar a cueca daquele sufoco.

Ele sabia que eu era sua testemunha, sabia que eu podia ouvir aquele arfar vindo do quarto enquanto a mãe fazia nescau na cozinha. Quando fez uns treze anos - eu já andava desinteressado da conta de seus aniversários - o moleque quis ir para a terapia, insistiu com a mãe, bateu pé, disse que tinha dúvidas e que eu vivia o observando. Mostrou as fuças de um gaúcho ruivo que atendia na Tijuca e firulava a ele, com coragem, sobre a vida doméstica e depois passava no Bob's para encarar um sorvetinho de morango perto dos pombos e ladrõezinhos da Praça Saens Peña. Eu o seguia pela cidade.

arte: Daughters, Jackeline Westphal

Bobagem, bobagem. Espere um momento. O merdinha quer ser um subversivo da linguagem. Quer enganar seus leitores. O merdinha conhece muito bem a estrutura do conto, ele sabe que deve dar aos acontecimentos alguns limites e um tempo determinado ao texto. O merdinha inventou um desejo por ser escritor quando tinha dezesseis anos. Se achava o próprio Rimbaud, mas não tinha ideia que esse Merdinha era um merdinha muito mais borrado do que ele. São depravados. Os escritores circulam por aí achando que os ritmos são convenções dos espíritos mais ordinários. Até mesmo os que só se acham escritores, os não publicados, os aspirantes, os injustiçados, olham-se no espelho como conhecedores de todos os mistérios. Ah, o merdinha, cagado pelo convencimento, escrevia poemetos sem pedir nada em troca. Encontrou um manual e começou a copiar os estilos, passou por uma fase russa e teve a fase machadiana. Reclamou da vida e da injustiça em todas as suas fases literárias e cometeu floreios impronunciáveis. Menino fingido. Menino um pouco melado. Minha frustração em carne. Encheu e uniu páginas inteiras de adjetivos e advérbios de modo e saiu a engordurar todo o papel disponível.

Uma vez o merdinha escritor deu de muitos amores por uma menina que morava perto da praia, ela descia a ladeira e o figura se arrepiava pela musa bronzeada. Escreveu sobre areia, pedras, ossos de baleia, chamou a menina de Moby Dick e pude me convencer totalmente que a figura não entendia nada sobre literatura ou tetas. Quando a mãe morreu, ele escreveu por doze meses sobre baboseiras que já haviam se perdido na reta, fingia que vivia uma tristeza só dele por direito e dava à dor comum a todos os seres humanos forma de palavra. Complexo de escritor, fingia que falava o tempo todo com alguém. Procurava exaustivamente as palavras que dão sentido ao rumo da vida. Hoje o merdinha finge que é romancista até na hora do almoço e se transveste de poeta até durante a viagem para casa. Já faz tempo que o moleque é adulto completo.

O mundo não acerta propriedade para guardar página, folhas e mais folhas escritas para satisfazer a vontade de escrever livro, essa arenga de deixar um legado como escritor. Queria entender essa confusão que existe entre vaidade e justiça entre os que escrevem. Será que não já foram escritos todos os livros importantes? Basta empenho para as releituras, aproveitar o jeito das palavras, mudar de opinião, justificar as maldades humanas a partir de um personagem bem escrito. Mas sempre sobra a vaidade do escritor. O merdinha é desse time, tem um armazém de vaidade onde ele teima que é injustiçado porque nunca foi lido. Sente coceira na parte de trás do ombro direito e se dobra, estica seus dedos numa tentativa de ser bicho, contorce a cara e acaba marcado por manchas vermelhas. Sempre se movimenta com esse ar de lagartixa surpreendida pelo gato que volta antes da hora. O merdinha desde seu primeiro soluço tem essa vibração que me assusta.

Ele de vez em quando confunde o meu nome e finge que não me conhece, sente que estou por perto e esquece da minha existência. Quando alguém diz meu nome, ele sai da sala. O merdinha depois de um tempo finge que sou um pedinte na rua. Vai pro quarto e me chama de narrador em tudo o que escreve. Junta seu vocabulário e escreve como se eu fosse o dono da voz que na verdade é a dele. Fiquei sabendo que ele se faz passar por mim. Usa o meu nome e se chama de merdinha, para me deixar mal na vizinhança. Ele sempre foi assim. Maltrapilho de presente. Gente tem esse jeito, chupador de tempo que passa sem volta, que não percebe que a vida anda mesmo sem seus palpites. Eu continuo onde sempre estive. Já estava aqui antes desse merdinha, antes das esquinas e das baleias brancas. Repito que não me importo. O merdinha é só mais um, e já vi passar muitos. 


Ana Izabel Mello Affonso nasceu na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, e é o que escreve. Especialista em engenharia sanitária, já foi estudante de literatura brasileira e hoje faz preparação de livros técnicos na área de saneamento ambiental.


Jackeline Westphal é artista visual e graduada em Filosofia pela Universidade de Brasília. Suas pinturas e desenhos são motivados por seus traumas, tudo que dói e tudo que traz conforto para a dor. Procura, através do pincel, comunicar o que não consegue por meio das palavras e tem as artes enquanto motor principal da manutenção de sua saúde mental. (Sobre)vive em Brasília a contragosto. 
Mais no insta, @jackelineart_

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