Irka Barrios e a raiz profunda do medo

por Morgana Kretzmann

Foto: Alexandre Alaniz

Irka, com que idade você começou a ter contato com o gênero de terror ou o horror na literatura? Como aconteceu?

Quero começar agradecendo o convite e dizendo que estou muito feliz pela oportunidade. O interesse aconteceu por culpa da boa e velha curiosidade. Como a maioria das pessoas que são admiradoras de terror, meus primeiros contatos se deram pelo cinema. Sempre que converso com outros autores e autoras que gostam do gênero, as histórias se parecem: uma espécie de fascínio que inicia a partir dos 6 ou 7 anos. Fui uma criança muito medrosa, lembro que até do Incrível Hulk eu tinha medo, da hora em que os olhos de David Banner se avermelhavam e ele iniciava a transformação. Acho que, sem querer, associo os olhos de David Banner às minhas descrições. Eu olhava, com as mãos sobre o rosto, espiando no meio dos dedos. A curiosidade me impelia. Hoje compreendo as explicações: não somos anormais ou pessoas com tendências psicopatas, somos espectadores que buscam as emoções intensas que a ficção de horror oferece. O sublime, a suspensão da descrença, a catarse, tudo isso mexe com emoções ligadas à infância. É o que nos remete, de imediato, a um mundo em que os limites estão muito borrados e as regras subvertidas, embora a rebeldia que esse mundo nos apresenta pertença ao monstro, o que é tema para enormes questionamentos. Na literatura, eu demorei um pouco mais a me aproximar do terror. Sempre gostei de autores latino-americanos e é óbvio que podemos discutir o horror que há por trás da cena do fuzilamento de Arcadio Buendía (em Cem Anos de Solidão) ou da avó gorda que é carregada numa liteira enquanto prostitui a neta (em A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada), mas é um horror diferente, real e até meio poetizado. São cenas que causam revolta, asco, outras reações que também são ligadas ao horror, embora não ativem nosso sistema de autopreservação. Quando nova, eu buscava o medo puro, de apertar os maxilares. E eu o encontrava em Stephen King.

Nos conte um pouco sobre o processo de escrita do seu aclamado livro Lauren e como a história surgiu?

A história emergiu por algum canto obscuro de meu subconsciente. Eu cresci numa cidade muito pequena no interior do Rio Grande do Sul, cheia de lendas e histórias sobrenaturais. O interior é interessante porque qualquer coisa fora do normal acontece logo ali, no cemitério, na beira do rio, numa estrada de chão, no bosque. Antes da Lauren, eu havia escrito dois contos (não publicados) dentro do gênero terror: um sobre uma mulher de meia idade que se hospeda num hotel fazenda para relaxar e acaba presenciando uma cena animalesca, e outro sobre dois garotos explorando a casa de uma velhinha considerada bruxa. O primeiro pertence ao universo dos vampiros e o segundo ao do lobisomem. A Lauren é livremente inspirada numa menina que exerceu grande poder imagético na minha infância. Ela se chamava Leonice e vivia em Santa Rosa. A família passou a alegar poderes sobrenaturais em Leonice e houve grande repercussão na mídia da época. Se não me engano, o caso apareceu até no Fantástico. Bom, a garota Leonice cresceu, casou e disse, numa entrevista, que mantinha os poderes. A diferença era que aprendera a controlá-los depois de adulta. O desfecho, infelizmente, é triste. Leonice enfrentou um câncer bem agressivo e morreu há cerca de dez anos. Quando compus a personagem, pensei muito nela, na solidão de uma garota com poderes desconhecidos, no bullying que provavelmente sofreu, no assédio da imprensa e dos curiosos. As pessoas dizem que tudo não passava de invenção da família de Leonice. Eu duvido. Quem, com 12 ou 13 anos, gostaria de ser tratada como uma esquisita ou "garota poltergeist"? Além do sobrenatural, que me interessa bastante, há as questões que rondam a sexualidade da mulher, em especial na adolescência, com o bombardeio hormonal e os hábitos comportamentais, tão repressores quando se trata de uma garota. Impossível não ligar tudo isso a uma situação de extremo terror.

Qual o espaço e a importância da mulher hoje na produção de livros desse gênero no Brasil?

Sou muito entusiasta das mulheres que escrevem terror. Se você refletir bem, tudo o que permeia o universo sexual da mulher remete às simbologias utilizadas nas narrativas de horror. Historicamente fomos retratadas como feiticeiras, amantes do demônio, gestantes do filho do demônio etc. Em geral, um autor homem contava a história. Não é de se admirar que raramente somos protagonistas, mas servas de uma criatura muito poderosa (e do gênero masculino). Quando percebi o quanto de ódio e preconceito pode se originar a partir das histórias de terror que lemos, assistimos e ouvimos, pude entender o problemão que é ser mulher nesse mundo. É revoltante. A importância das autoras é crucial para virar esse jogo. Precisamos ressignificar conceitos, mudar o olhar, a perspectiva. Não é o caso de extirpar o medo de dentro das narrativas, mas de estimular a sensação a partir de situações que não repercutam crendices arcaicas muito próximas da misoginia. As autoras têm trabalhado isso de forma competente. Aos poucos vamos percebendo resultados interessantes. Quanto às brasileiras, encho o peito de orgulho ao perceber que temos diversas autoras se dedicando ao terror. Posso citar a Claudia Lemes, Nikelen Witter, Larissa Prado, Andrezza Postay, dentre outras.

Lauren se passa numa cidade do interior. Você também nasceu numa cidade de interior. Como é escrever sobre, trazer à tona, a invisibilidade que existe em relação a pessoas e a histórias que se passam em cidades pequenas?

Eu acho bem interessante o olhar que parte da perspectiva do morador interiorano e nunca deixo de me surpreender com a diversidade cultural do Brasil. Escrever sobre o interior é algo natural, como se tudo o que ativa a minha imaginação tivesse a ver com o cenário de uma cidade pequena. A literatura brasileira está em constante mudança, o que é ótimo. Os interesses se ampliam e, penso eu, o número de leitores aumenta quando determinados grupos se sentem representados na ficção. Uma coisa que percebi quando li Ao Pó (Morgana Kretzmann, ed. Patuá, 2020) é essa identificação. Algo como "eu sei do que ela está falando, eu sou de lá, daquela região, e é assim mesmo que as coisas acontecem". Agora estou lendo Nossa Parte de Noite, livro em que Mariana Enriquez fala de Misiones, de Oberá, de Posadas, locais que ficam bem pertinho de minha cidade natal. Eu leio e concordo, leio mais e concordo de novo. É quase como se eu estivesse contando a história junto com a autora.

Por último, poderia indicar um livro e uma série do gênero para os leitores da RevistaRia?

Série nacional, eu assisti Desalma, da Ana Paula Maia. Gostei bastante de alguns aspectos e um pouco menos de outros. Preciso dizer que é muito difícil agradar o pessoal que curte terror. No meu grupo Escuro Medo, um site que comenta filmes, séries e livros, dificilmente há concordância. Então vou indicar outra série, que se chama Cidade Invisível. Não é propriamente terror mas tem bastante cena sobrenatural. A produção é belíssima. Eu sei que houve algumas polêmicas sobre apropriação cultural, desrespeito às crenças dos povos originários, mas não vou me pronunciar sobre este aspecto que mal compreendo. Indico a série pela boa produção, boas atuações e apresentação de criaturas lendárias numa visão interessante. Livro, vou indicar A Floresta, do Daniel Gruber, porque ele foi muito cuidadoso ao descrever uma personagem mulher e o universo das bruxas. Também vou indicar O Berro do Bode, livro de contos da Verena Cavalcante. Verena tem uma pegada crua, perversa, acho um pouco parecida com a Ariana Harwicz.

IRKA BARRIOS é mestre em Escrita Criativa (PUC-RS). Autora de "O coelho branco" (Amazon, 2015) e de "Lauren" (Ed. Caos & Letras, 2019). Colaboradora do Escuro Medo e da Revista Ventanas, professora na GOG ideias. Atua na organização do coletivo Mulherio das Letras - RS.