Leopardo

Marize Castro

Leopardo

A 3 passos de mim
um leopardo
aquece os flancos.

Tamanha audácia
umedece meus lábios.

Emudeço sob o orvalho.
Lanço-me cega
sobre a lança da fera.

Passeio os olhos
buscando regatos
onde eu possa lavar
a alma e o sexo.

A 2 passos de mim
um leoprado
gira, incessantemente, a omoplata
com uma agilidade
de quem se sabe eterno
e um desleixo
de quem se sabe único.

A 1 passo de mim
um leopardo
me lambe as coxas
com o hálito
de quem se sabe no foco
                                      fauno.
                                        Fátuo?

(Marrons Crepons Marfins, 1984)



certo moço quer que os meus versos
levem-no ao paraíso

digo-lhe que meus versos foram escritos
sob a mais pesada névoa, neles não há alegria

nenhuma festa

ele insiste, diz que eles o fazem feliz
levam-no para a vida, livram-no da morte

digo-lhe que os escrevi
enquanto certa língua
                                   deslizava
sobre meu sexo
sugava meus seios
até machucá-los
(e eu adorava)
dividia minhas nádegas
e lá ficava, lá dentro

onde é tudo
cais
líquido
sombra
luz

ele, o certo moço, insiste
quer que eu lhe ensine o caminho
em que tapeçarias vermelhas estendem-se
sobre palácios noturnos

então percebo que seus cabelos
                                                   dançam

e seus olhos
são de uma bondade
que jamais
vi

(Habitar teu nome, 2011)

A poeta MARIZE CASTRO (Natal/RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço.festim.mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011), A Mesma Fome (2016) e Jorro (2020). Sobre ela, escreveu a professora e pesquisadora Nelly Novaes Coelho no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: "Poeta em tom maior, expert em Comunicação, jornalista, editora e uma das fortes vozes femininas da poesia brasileira contemporânea, revelou-se em livro, em 1984, com a publicação de Marrons Crepons Marfins que surpreendeu crítica e público pela força e originalidade de sua palavra". Sobre Marize Castro, afirmou o poeta e crítico Haroldo de Campos: "Em seus versos há algo de fundamental, algo entre o belo e o verum, a verdade em beleza, um cuidado especial com a síntese, um encontro com a poesia".