Mãe

Márcio Benjamin

Vou acender grande fogueira
Pra iluminar meus três irmãos
FAUSTO NILO

A mulher só sentiu parecido quando pariu os três. Assim que os meninos foram, um por um, arrancados de dentro dela, o vazio lhe preencheu de imediato as carnes, como sendo assim um descampado lhe tomando o peito.

No prato a comida já andava fria, o garfo se pendurava entre os dedos engilhados como a gangorra do parque que os três disputavam quando eram pequenos.

Era bem tarde da noite. O vestido enlutado já fedia a saudade e a suor. Foi uma luta dispensar todo mundo, o mundo todo.

Pode ir. Não. Eu fico aqui. Amanhã se vê. Amém.

Agoniada, sacudiu a cabeça espantando do juízo aquele mar de braços em torno de si, aquele turbilhão de abraços lhe arrudiando o juízo como um agouro.

Mas e aí, Dona Dete? E os meninos, afinal, quedê?

A dor era seca, como seca era a pancada que vinha vez por outra a lhe socar o coração, de mão fechada.

Quedê?

Lágrimas já não tinha mais.

Tanto que disse, tanto que pediu, tanto que falou: Meu Deus.

Mas sabia que não tinha jeito, rapazinho era igual a gato novo, precisa ir, cheirar, provar.

Pediu sim que não fossem, que deixassem pra depois, que tinha sonhado, que andava com uma agonia no peito desde cedo.

Mas quem disse?

Ainda ouviu os sussurros de noite, o bater das panelas, das gavetas. A sombra por debaixo da porta como que em dúvida, afinal se afastando.

E dali, deitada mesmo, pediu a Deus que os protegesse enquanto guardava a sua angústia dentro do travesseiro.

Da notícia soube antes mesmo que Edinho, o mais velho, começasse a abrir a boca; os lábios trêmulos, olhos vermelhos, marejados, torcendo o chapéu nas mãos empoeiradas, só podiam trazer coisa ruim.

Era preciso reconhecer os corpos, os três. Jogados num aterro pra dentro da estrada pro lado da rodovia, na beira da cidade. Tanta da bala nos corpos magros, pra quê tanta?

A lembrança vinha com crueldade, sem parar. Tanta da coisa boa, meu Pai, por que logo essa?

Mataram enganados. Mas eles não disseram, não falaram? Não tinham documento, foto da mãe na carteira? Da farda?

- Oxe, e quem acredita em palavra de preto, Dona? - Disse o funcionário da delegacia.

Enganchada na parede, aos pés da santa, a vela apagou-se.

- Tu é mãe também, mulher, por que tu não fez nada? - Perguntou a mulher, cheia de raiva.

Os dentes da chapa velha, trincados de fúria cega, numa certeza inútil de não poder fazer coisa nenhuma.

Mas quem crê o ódio estéril nunca perdeu um filho, nunca perdeu três meninos duma vez.

Decidida, a mulher levantou-se, pegou a faca quase cega de cima da mesa e abriu a porta velha.

O vento frio da noite lhe arrepiou os braços finos, mas Dete sentiu foi nada no couro escuro.

Segurou com firmeza o metal e passou com força na palma da mão enrugada, de fora a fora.

Fechou os olhos e lembrou-se deles pequenos, correndo por tudo quanto era canto, aprendendo a ler, a andar, enquanto o sangue lhe escorria da mão.

Se Nossa Senhora não quis ajudar, num instante arrumava quem pudesse.

E pobre que era, ofereceu a única coisa que tinha sua.

E a chama da vela voltou a se acender.

Foi quando lá longe, por cima do morro, as sombras tremeluziram sob a luz da lua tão grande enquanto um doído aboio tomava a noite.

Vultos. Se arrastando.

Tão lindos, meu Deus.

Nus. Aprendendo a andar de novo.

As marcas de bala demarcando os corpos retintos.

Dos bicos dos peitos murchos de Dete, despejavam-se gotas de leite.

No rosto da mulher, iluminou-se um sorriso mais brilhante que a lua; oco de arrependimento.

Saudade era pior.

MÁRCIO BENJAMIN COSTA RIBEIRO é um natalense do Estado do Rio Grande do Norte, de 41 anos, que também trabalha como advogado. Autor de romances e livros de contos de horror rural e folclóricos (Maldito Sertão, Fome e Agouro), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Figura tarimbada em projetos do Sesc (Arte da Palavra, Mostra Sesc de Culturas, Mostra Sesc CarIri, Flipelô), representou o seu Estado em Feiras Nacionais (Bienal do Livro do Ceará e de Recife) e Internacionais (Primavera Literária de Paris e Nova York e Feira do Livro de Paris). É roteirista de webséries (Flores de Plástico, Holísticos, Dê seus pulos e As Primas), curtas-metragens (Erva Botão, Linha de Trem e Pela Última Vez) e longas-metragens (Quebrando o Gelo e Fome). Finalista do III Prêmio Aberst de Literatura Lygia Fagundes Telles Narrativa Curta de Terror e Ganhador dos Prêmios Moacy Cirne de Ficção de 2019 e do Prêmio Odisséia de Literatura Fantástica Narrativa Curta de Horror 2020, acabou de assinar com a Editora DarkSide Books, pela qual lançará novo trabalho em 2021.