O balão amarelo

Lima Trindade

A feira cobria toda a extensão da praça. Homens, mulheres e crianças comendo, bebendo, vestindo, experimentando. Os carros, ao redor, subiam uns nos outros, maculavam calçadas. Casais se encostavam em árvores, encolhiam-se em bancos. A lua os acolhia e iluminava. Meu bem caminhava ao meu lado quando anunciou que precisava fazer uma ligação. Concordei, feliz com o novo anel no dedo, uma imitação de aliança quase igual à dele. Da cadeira esquecida num canto da barraca, eu o olhava na fila do orelhão e acompanhava a movimentação colorida e alegre à minha frente. Pais afoitos continham meninos diante de um homem que enchia de gás balões coloridos. Era um rapaz bem-humorado e não se inquietava com a insistência dos pedidos e protestos das crianças, apenas baixava a alavanca quando a boca do balão estava encaixada no pistom. Imaginei que ele também tinha filhos e vendia aqueles balões para sustentá-los. Meu bem aguardou pacientemente que chegasse sua vez na fila. Mordi os lábios. O rapaz enchia os balões um a um. No final, dava-lhes um nó, entortava, torcia, até que adquirissem uma forma engraçada qualquer. Quando começava a esculpir um balão amarelo longo como uma cobra, este teimou e desafiadoramente se desprendeu de suas mãos. Meu bem de longe sorria, o fone entre o rosto e o ombro e uma das mãos enfiada no bolso do jeans. O balão amarelo dançava lento no vácuo. Estalei os dedos da mão esquerda. Eu tinha essa mania. Meu bem, agora, falava animado. Eu não o ouvia. De repente parou, deteve os olhos em mim e se virou de costas. Procurei o balão no céu. Ele já avançava sobre os postes de luz improvisados. E recordei da estranha manhã em que eu era muito pequeno e mal tinha aprendido a andar. Estava só, na frente da nossa casa, no meio da rua, numa ladeira. No final, o lago. A cidade era uma armação desdentada e nós ainda morávamos em casas coletivas de madeira, próximo ao Paranoá. Tive medo de tropeçar, cair, rolar e parar dentro das águas. Estava só e ainda hoje não sei como havia chegado ali nem como fiz para sair de lá. Eu não sabia falar e o medo paralisara meu choro. Sentia que uma fatalidade me levaria a cair, rolar e mergulhar naquela massa líquida e escura para morrer afogado. Não sei como saí. O balão amarelo ganhava altura e diminuía de tamanho. Meu bem virou novamente. Ele falava e eu reparava no quanto ele era forte, no quanto me inspirava segurança e proteção. Do orelhão, fez um aceno para que eu mantivesse a calma. O balão estava agora quase no meio do céu. De alongado, tornou-se redondo. Redondo como a bola que meu pai me jogava para que eu chutasse desajeitado. Estávamos na areia e alguns colegas e vizinhos brincavam conosco. Eu não sabia chutar direito, dava com os pés nos montes e reentrâncias da areia e via os outros rirem do meu fracasso. Mas meu pai não ria. Ele insistia e jogava a bola para mim. Eu errava e não me sentia ridículo por errar. O balão não era mais amarelo. Virara um ponto branco igual às estrelas. E, como estrela, se apagou no mistério da noite. Eternizou-se. Meu bem desligou o telefone e veio em minha direção. O tempo era não mais que uma mentira, a vida tão simples quanto passear na feira e pedir um doce, alcançando com o coração o que anos de esforço e tentativas não me deram, sendo eu um pequeno balão amarelo a fugir de hábeis mãos, ilustrar o escuro do céu e saber que nada era tão importante quanto estar ali, ao lado do meu bem, considerando um verdadeiro tesouro o anel de brilho falso que me apertava o dedo.


Conto originalmente publicado no livro corações blues e serpentinas.


LIMA TRINDADE (1966) nasceu em Brasília e reside em Salvador. Publicou o romance As margens do paraíso (Cepe, Recife, 2019) e o livro de contos Todo Sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial, São Paulo, 2005), entre outros. Participou de inúmeras antologias, entre elas Tempo bom, (Iluminuras, São Paulo, 2010) e Geração Zero Zero (Língua Geral, Rio de Janeiro, 2011). Atualmente assina uma coluna de crônicas no site do jornal Rascunho. 


Foto: Marcelo Frazão