O sangue mancha

· Victoria Cherniavsky

Hoje percebi como esse nosso fluído corporal encarna nas fibras do tecido.

A mancha já começava a secar nas beiradas quando fui tirar o lençol de dona Karina, como todas as segundas-feiras, dia de trocar a roupa de cama, toalhas e tapetinhos dos banheiros da casa toda. Se esparramava por toda a cama, começava na ponta do travesseiro, ali onde ficavam as margaridas bordadas, agora afogadas em um vermelho definitivo.

As luzes do cabelo de dona Karina, tom 7.1 louro perolado, se espalhavam pela fronha retingidas de um ruivo cereja que não lhe caía bem.

O caldo grosso descia o vale formado entre o travesseiro e o colchão, depois se desdobrava em finos afluentes que o lençol ora sugava, ora desistia, ensopado demais.

Fui percorrendo esses caminhos com o dedo sem desviar do corpo de dona Karina, os braços estavam caídos de um jeito desengonçado, lembrando aquele boneco do posto de gasolina que balança as extremidades o dia todo querendo chamar a atenção (pedir socorro, talvez) e de noite é desligado com um clique.

A sangria acabava nas lajotas laranjas, que combinavam com as margaridas do lençol. O piso frio daria menos trabalho de limpar do que o tecido percal de 200 fios.

O sr. Eduardo estava tomando banho, dava pra ouvir as gotas tocando o chão com som de xilofone. Ele com certeza estava se limpando de todo aquele vermelho.

Sangue na pele não mancha.

Excitada pela solidão em que nos encontrávamos, entrei no banheiro. O sr. Eduardo devia estar me querendo para esfregar as costas. Depois, aproveitando que os músculos já tinham sido sossegados pelo vapor d'água, faria aquela massagem relaxante que ele tanto gosta. 

VICTORIA CHERNIAVSKY é escutadora profissional, PHD em desconstrução de certezas e, nas horas vagas, gosta de costurar palavras. Além disso, é psicóloga formada pela PUC-SP e idealizadora do projeto Memória de mim, que propõe a ressignificação da própria biografia através da escrita de memórias.