O sebo

Caroline Joanello

H. acordou com o toque do celular, pouco antes das seis e meia. Atendeu. Ninguém disse nada. Estava prestes a desligar a chamada, quando ouviu seu nome. Reconheceu a voz de Joana.

- Dona H., eu não posso mais trabalhar pra senhora.

H. sentou-se na cama, gemendo, sem pressa. Recostou-se nos travesseiros.

- É por causa do vírus, Joana?

Joana demorou a responder. Um ruído de estática sujava a ligação.

- É.

H. soltou uma risadinha pelo nariz.

- Tá bem, Joana. Isso aí é fogo de palha, tu vai ver. Mas fica em casa, vamos dizer, quinze dias? Considero férias e fica tudo certo.

O silêncio perdurou.

- Joana, alô?

- Eu não vou voltar, dona H.

H. desencostou-se da guarda.

- Ele fez alguma coisa? Eu posso falar com ele.

- Não, é que - Joana foi interrompida por um som seco. H. captou um sussurro ao fundo dizendo algo que parecia ser "não fala".

- Joana?

- É insalubre - Joana sentenciou, e desligou.

H. não tinha argumentos. O pai havia passado de todos os limites quando resolveu estocar os livros do sebo em casa. Se negava a pagar por um depósito. As pilhas de livros subiam pelas paredes, estreitavam o corredor e bloqueavam as janelas. Sem ar fresco, o mofo já dominava as cortinas, expandindo pelo teto. Joana não dava conta de controlar as manchas e adoecia com cada vez mais frequência.

Quanto à saúde do pai, H. não tinha informações, sequer interesse - se fosse ser honesta. Tranquilizava-se pensando que Joana a informaria caso o pai ficasse doente. Acabava de perder a confiança nisso. Empurrou as cobertas para o lado e forçou-se a levantar. Daria uma conferida no pai e voltaria para casa a tempo da primeira reunião do dia.

A garoa fina acompanhou H. por todo o trajeto. Ao abrir a porta do apartamento do pai, uma rajada de penumbra e umidade alcançou seus sentidos, fazendo-a espirrar sem parar por alguns minutos, contorcendo-se na soleira. O som dos espirros ecoou pelo corredor iluminado do prédio, mas não encontrou ressonância nas paredes cobertas de volumes do lado de dentro. Manteve a porta aberta na esperança da troca do ar e seguiu em direção ao banheiro para assoar o nariz.

O odor a atingiu no meio do caminho. Uma mistura de urina, mofo e putrefação. No vaso sanitário, além de placas amareladas de urina seca, H. encontrou uma poça de vômito e algo que poderia ser um rato morto. A impressão era de que Joana não aparecia para trabalhar havia dias. Apesar de não ter tantos livros no banheiro, a pequena basculante não era suficiente para causar algum impacto maior na iluminação. H. notou tocos derretidos de velas na pia, mas havia uma lâmpada no soquete do teto. Testou o interruptor e nada. Testou as lâmpadas do corredor, da sala e da cozinha, e nada. Os eletrônicos todos desligados. Com a lanterna do celular acesa, analisou o quadro de luz e tudo parecia em ordem. Notou mais tocos de vela por cima de pilhas de livros, acomodados em pires e garrafas de vinho vazias.

Ela cansou de se oferecer para pagar as contas do pai. Pagava apenas o salário de Joana, que inicialmente limpava e cozinhava. Depois, passou a apenas limpar, diante das travessas de comida intocadas. H. suspeitou que o excesso de sujeira era uma tentativa do pai de fazer com que Joana desistisse. A partir daí, passou a encarar tudo como obra de criança arteira, e conseguiu até mesmo dar risada do rato morto no vaso. Decidiu que passaria a semana no apartamento, limpando e consertando tudo e, finalmente, cumpriria sua promessa de colocar o catálogo de livros do sebo para vender na internet.

Fez uma videochamada para a sócia e a informou de que o pai não estava bem. As duas reajustaram a agenda da semana. A sócia cobriria as reuniões inadiáveis e o resto ficaria para mais adiante. Estavam terminando os ajustes quando a sócia elevou a voz:

- Bom dia, seu Antônio! - disse, movendo o rosto na tela para olhar algo atrás de H.

H. virou-se para a sala vazia. Riu.

- Tá vendo coisa, amiga.

- Nossa - respondeu a sócia -, eu juro que vi alguém passar atrás de ti.

- Deve ser o mofo, que já evoluiu pra uma forma de vida inteligente - respondeu.

Ao desligar a chamada, H. ouviu um ruído vindo do quarto do pai. Por causa dos livros empilhados no corredor, precisou se deslocar de lado até alcançar a porta. Tentou abri-la, mas estava trancada. Bateu algumas vezes, sem resposta.

- Pai? Tudo bem aí? - disse, e encostou o ouvido na porta. Discerniu uns resmungos, que poderiam também ser uns gemidos. - Pai?

Como resposta, o ouviu roncar. Voltou para a sala e passou o resto da manhã organizando e limpando o que conseguia - o que não estava coberto ou tapado pelas pilhas de livros.

O sebo pertenceu à mãe. A mãe era quem gerenciava e avaliava o que as pessoas ofereciam, quem ia nos bairros distantes e nas cidades dos arredores para filtrar bibliotecas de gente morta ou prestes a deixar tudo para trás e recomeçar a vida. Ela catalogava, precificava e cadastrava, atendia os clientes e indicava títulos de acordo com o que eles buscavam. Identificava preciosidades em meio ao caos e ao lixo. O pai carregava caixas, organizava prateleiras e se limitava a decorar títulos e autores, mais para agradar a esposa do que pela utilidade das informações. Depois que a mãe morreu, o pai levou o negócio da família como pôde. Aguentou por cinco anos, perdendo clientes para o seu temperamento agressivo e conhecimento literário parco. Talvez tivesse aguentado mais um ou dois anos, mas, de repente, segundo o pai, o proprietário solicitou o prédio de volta. H. nunca descobriu o que o motivou a encerrar um contrato de quase trinta anos, mas logo a pandemia começou a chegar ao Brasil e ela parou de fazer perguntas, intuindo que o pai havia mentido para não ter que admitir que encerrava o legado da esposa por medo de um simples vírus.

Com a cozinha, a sala e o banheiro já limpos, H. preparou uma travessa de massa à bolonhesa e esperou pelo pai. Já passava das duas da tarde, e nada dele sair do quarto. Mais uma vez, esgueirou-se por entre as pilhas de livros do corredor e bateu à porta. Ouviu novos resmungos, mas apenas se limitou a dizer que o almoço estava pronto e que ela ia comer sem esperar por ele, mas que deixaria a comida no forno.

H. comeu e, em seguida, deitou-se no seu antigo quarto. Ali, conseguiu reorganizar algumas pilhas para que a janela pudesse ser aberta e decidiu que faria o mesmo no resto do apartamento ao longo da tarde. Adormeceu.

Acordou no meio da madrugada, depois de sonhar que estava presa num elevador sem botões. Da janela aberta vinham sons de morcegos e cheiro de grama. Levantou-se para usar o banheiro e o encontrou imundo novamente, com vômito e urina e novos tocos de vela espalhados. Voltou pelo corredor até a porta do quarto do pai. Bateu.

- Pai, o que aconteceu no banheiro? - perguntava e seguia batendo na madeira - Pai?

Depois de alguns minutos batendo sem parar, desistiu. O silêncio da madrugada foi, aos poucos, dando lugar a um som constante, um murmúrio vindo de dentro do quarto. H. reconheceu a voz do pai, como se ele estivesse recitando uma oração. Encostou o ouvido na porta para tentar identificar o que dizia.

...Salve, ó luz, primogênita do Empíreo, ou coeterno fulgor do eterno Nume! Como te hei de nomear sem que te ofenda? É Deus a luz, - e, em luz inacessível tendo estado por toda a Eternidade, esteve em ti, emanação brilhante da brilhante incriada essência pura...

O som foi crescendo, se aproximando da porta, envolvendo a mente de H. ...Mais por ventura folgarás ouvindo chamar-te rio fúlgido, inexausto. Quando deu por si, ela estava completamente apoiada contra a porta, e com o peso do corpo empurrou uma das pilhas de livros, que bateu contra outra pilha e voltou para despencar em cima dela. Saiu do transe como se estivesse voltando de um sono profundo, sentindo, aos poucos, as dores do contato com as lombadas de capas duras. Logo, notou uma sombra se destacando na escuridão do corredor. Percebeu que se movia, se aproximava dela.

- Tu precisa me deixar em paz - ouviu a voz do pai como um sussurro. Vinha da sombra no corredor, mas também estava colada ao ouvido de H. - Eu tô lendo pra tua mãe. Ela gosta.

H. não tinha certeza de como ou quando o pai havia saído do quarto, a porta permanecia fechada atrás dela.

- Mas pai, a casa tá um lixo.

- Vai embora! - gritou a sombra e, conforme gritava, graus de temperatura despencaram, pesando sobre os livros em cima de H.. Enquanto ela tentava se desvencilhar, a sombra desapareceu.

Irritada, abandonou o apartamento no mesmo instante. A terapeuta estava certa quando chamou atenção para a sua necessidade patológica de receber gratidão por auxílios não solicitados. O pai era adulto, um adulto de muito difícil convivência e, se quisesse ajuda, que pedisse.

Na manhã seguinte, telefonou para Joana disposta a despejar em cima dela toda a sua frustração. Um homem atendeu a chamada.

- A Joana está intubada, dona H. Entrando na terceira semana - disse o homem.

- Impossível - respondeu.

- Eu avisei o Seu Antônio, ele não falou pra senhora?

H. voltou ao prédio do pai a tempo de cruzar com o síndico e uma equipe da polícia civil. Um dos policiais a impediu de entrar no apartamento sem máscara. H. desceu os degraus de volta ao térreo, e só então percebeu o odor forte de carne podre empesteando o ar.

CAROLINE JOANELLO é gaúcha de 1985. Publicitária não praticante, é mestra em Escrita Criativa pela PUCRS, viciada em oficinas literárias e editora na Baubo (baubo.com.br). Também faz parte da equipe da RevistaRia. Tem contos publicados em antologias e revistas literárias.