O vaso

Renata Fiorenzano Marques

Quando era criança pequena e tinha zero direito a escolhas, eu ia passar todas as minhas férias escolares em Serra da Saudade, uma cidade mínima no centro-oeste das Gerais. Para quem não é familiarizado com a geografia do estado, eu explico: é para adiante do nariz da velha bruxa, como se fossem as fossas nasais quase chegando na faringe. Mal soava o sinal da saída no último dia de aula, eu corria para casa e mamãe já estava com a mala pronta.

"Filho, quando chegar lá manda um beijo para o seu tio, diz que estou com saudades."

Eu pensava, mas não falava: "Tá com saudades, só que não vai lá ver seu irmão. Sei." Fui doze vezes sozinho para Serra da Saudade. Doze. Janeiro, julho, janeiro, julho, janeiro, julho. Repete. A cada ida, tinha alguém diferente para me levar. Meu pai, um tio, um parente menos conhecido, minha irmã mais velha, um amigo dos meus pais. Repare que nem mesmo quem me levava aguentava me levar de novo nas férias seguintes. Falando assim, entendo que você possa pensar que o lugar era péssimo. Não era. Não sempre. Estando lá, até que eu conseguia me divertir. Brincava com a primalhada, em número maior a cada ano. Tinha o primo do primo. Tinha o "esse também deve ser teu primo". Todo mundo virava primo nas brincadeiras de rua, futebol, abafa, peteca, pique-tá. Passados uns dias, nem me lembrava mais de São Paulo.

Lá eu ficava hospedado na casa do tio RG, o cara mais gente boa que eu já conheci na vida. Ele morava mais para baixo da rua da igreja - Serra da Saudade é aquele lugar comum que começa na praça principal (que é única) e termina na igreja Matriz (sem filiais). A cidade é famosa em época de eleição por ser o menor colégio eleitoral do Brasil. Uma vez, quando mamãe contou para uma amiga sobre essa peculiaridade da cidade natal dela, eu comentei: "Grandes merdas". Ganhei um bofetão que, só de lembrar, me arde a bochecha até hoje.

Mineiro gosta mesmo de contar histórias. Causos, como eles chamam. Tio RG era o típico serrano-saudalense. Falava pra burro. Quando a gente saía de casa, demorava um tempão até mesmo para ir até a padaria, a uma quadra de distância. Meu tio parava para conversar, perguntava como estava o filho, a mãe, o pai, a avó da pessoa. Se aparecia alguém falando de doença, ele ouvia o diagnóstico todinho e ainda dava pitaco. Eu achava aquilo muito curioso porque em São Paulo eu não me lembrava de encontrar um conhecido na rua assim, de bobeira. Era estranho todo mundo ser amigo de todo mundo. Assim era em Serra da Saudade.

Uma das melhores histórias que tio RG me contou foi de quando um amigo dele, N., ficou noivo de A. e os dois decidiram se casar logo. A noiva era uma ex-namorada do meu tio, mas quanto a isso estava tudo bem porque como todo mundo se conhecia desde muito tempo, o ex-namoro não era novidade para ninguém e já fazia parte das memórias passadas e enterradas. Meu tio foi avisado do futuro casório quando N. chegou à casa dele abraçado com A. e os dois seguravam um enorme buquê de cravos e rosas, e N. começou o discurso pomposo.

"Meu caro amigo, nossa amizade é das antigas e é de grande importância para mim. É por isso que eu e A. queremos que você nos dê a honra de ser padrinho do nosso casamento", N. entregou o buquê e os três se abraçaram e choraram de felicidade antes mesmo da resposta do meu tio. Todo eles sabiam que meu tio não iria negar.

N. e A. tinham passado uma temporada de dois anos na capital e só agora voltavam para Serra da Saudade. Não faziam ideia da situação precária da vida do meu tio: tinha se separado da mulher, com quem tinha três filhos em idade escadinha, e estava desempregado, fazendo apenas os bicos que pintavam. E todo dia 5 vencia a pensão. Deixar de pagar, tio RG sabia, era cadeia na certa.

Por isso, passada a alegria inicial do convite para abençoar aquela união de que meu tio fazia tanto gosto, a preocupação veio como uma bigorna na cabeça dele: os custos que envolvem ser padrinho de um casamento. Como faria para dar um bom presente para aquele casal tão querido? Eles mereciam uma coisa especial.

Tio RG imaginava dar um objeto que deixasse a futura casa deles mais bonita e que todas as vezes que eles olhassem para a tal coisa, eles se lembrassem do amigo. E o principal, que fosse barato. Mas o quê? Foi então que titio se lembrou de outro amigo, L., que tinha recém-inaugurado uma loja de presentes na rua da Matriz. Loja bonita, artigos finos, ou vindos de Divinópolis ou da capital.

"L., preciso da sua ajuda numa questão de vida ou morte."

"Manda, RG."

"Tenho que dar um presente de casamento pro N. e pra A., coisa boa porque vou ser padrinho. Só que eu tô muito sem grana."

"Aqui a gente parcela sem juros no cartão a perder de vista, homem."

"Não resolve, L. Vou continuar sem dinheiro daqui pra não sei mais quanto tempo. Tava pensando se quando essas suas mercadorias chegaram, se não teve nada que veio assim, meio quebrado."

"Pior que teve: um vaso de cristal, coisa fina. Foi colocado numa embalagem que não era a dele, balançou no transporte e, quando eu abri, tava partido em cinco pedaços. Ainda tô negociando o prejuízo com o fornecedor. Mas você vai querer dar um troço quebrado de presente?"

"Eu tive uma ideia. Escuta só: você tem um menino que trabalha pra você, que faz entrega de bicicleta, não é?"

"Tenho, o Manelzinho."

"Então, eu dou dez reais na mão dele e ele prega uma mentirinha na hora de fazer a entrega. O Manelzinho diz que levou um tombo na bicicleta bem pertinho da casa do N., e que se eles reclamarem na loja que o presente foi entregue quebrado, capaz de ele perder o emprego. Aí vai do gosto dele se ele quiser aumentar a história, florear um pouquinho."

"Minha Nossa Senhora!"

"Ah L., você sabe que o N. e a A. são pessoas maravilhosas. Nenhum deles vai reclamar de nada. Mas eu lhe faço uma promessa: se eles fizerem questão da troca do vaso, eu venho aqui e acerto contigo o preço total. Você fica tranquilo.", meu tio garantiu, "Agora, você me dá um desconto de cem por cento."

"Nada disso que não sou bobo nem nada, RG. Você me paga alguma coisinha e explica toda essa sua maluquice aí direto pro Manelzinho, que é capaz de eu fazer confusão se eu for explicar sozinho."

"Tá certo. Ó, bico fechado, hein? Não vai falar nada."

Assim foi feito. Tio RG explicou o plano tim-tim por tim-tim para o menino da entrega e, no dia, ficou espiando de longe, só para ver no que ia dar. Manelzinho estava tão nervoso que quase nem foi preciso mentir quanto ao tombo da bicicleta. Chegou lá, tocou a campainha, entregou o presente nas mãos de N. e fez a cena. Detrás de um carro parado no outro lado da rua, meu tio viu que o garoto botou a mão na cabeça, coçou os olhos como se estivesse chorando, depois agradeceu ao N. com um abraço apertado e tudo mais. Era um ator aquele menino.

Faltando uma semana para o casamento, tio RG foi de surpresa até a casa de N. para fuxicar se o plano tinha dado certo. Era provável que N. não comentasse nada sobre o vaso quebrado, ou que inventasse uma desculpa qualquer. Quem sabe, se falasse alguma coisa, inventaria que tinha sido culpa dele, "deixei cair sem querer". Logo que meu tio tocou a campainha, viu A. estacionando o carro na porta de casa. Os dois entraram juntos.

"Que caixa grande é essa, amor?", ela perguntou a N.

Todos os presentes estavam embrulhados na mesa da sala, para que o casal abrisse junto.

"É o presente do nosso padrinho, a gente abre outra hora", desconversou, "Agora, vamos tomar uma cerveja geladinha que eu coloquei no congelador pra gente brindar."

"Ora, mas que desfeita é essa, querido? Se é do RG, vamos abrir já."

RG e N. ficaram constrangidos. Cada um, à sua maneira, já sabia que a caixa continha um vaso quebrado. Sem saber de nada, A. estava empolgadíssima: pegou o presente, desfez o belo laço de fita rosa-grená. Desembrulhou o papel prateado com cuidado para aproveitar em outra ocasião. Abriu a tampa da caixa cartonada, fazendo um ar de mistério. Eu adorava, porque meu tio contava essa história fazendo caras e bocas, imitando geral, remedando as vozes. Nessa hora, ele dizia ter a sensação de que A. dançava em volta do presente, como aquelas dançarinas que ficam ao lado de apresentador de sorteio, com uma dancinha abestada: passinho, rebola, passinho, rebola. Não sabia se era dancinha mesmo ou só a tensão do momento. Foi então que A. deu de cara com o inacreditável: dentro da caixa estavam cinco partes do que um dia deve ter sido um belo vaso de cristal. Cada uma em um canto da caixa, apartados. O único porém é que cada parte estava muito bem embalada, envolta por um papel de seda. Tudo separado!

A. foi abrindo cada um dos embrulhos de seda enquanto o constrangimento preenchia toda a sala com aqueles cacos gigantes. Meu tio ficou mais verde que o carpete. A. ficou tentando montar um quebra-cabeça de cristal, N. com um semblante de quem estava procurando alguma explicação para aquela loucura toda. Depois de uns dois, três minutos, eternos para o meu tio, N. puxou-o para o corredor.

"Que o vaso devia estar quebrado eu sabia, porque o menino me disse que caiu da bicicleta, mas quebrou antes de ser embalado? Que diacho!"

Essa foi a última história que ouvi de RG, meu amado tio. Ele me contou quando fui para Serra da Saudade depois de muitos anos sem fazer visita alguma, a primeira vez por escolha própria. Estávamos os dois sentados em uma mesa de bar, tomando uma cerveja tão gelada quanto àquela que L. oferecera para ele no dia da abertura do curioso presente. Rimos tanto. Ninguém diria que menos de um mês depois eu regressaria, com a família à tiracolo, para me despedir de tio Rui Geraldo Pimenta, desta vez sem que ele pudesse aumentar nosso repertório de histórias.  


RENATA FIORENZANO é jornalista, formada pela PUC-Rio. É pós-graduanda em Formação do Escritor pelo Instituto Vera Cruz. Trabalhou como editora de texto durante vinte anos em redações da TV Globo entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Hoje trabalha como editora freelancer.