Pode uma corpa gorda gozar?

Ensaio sobre o livro Solução de dois estados, de Michel Laub - por Euler Lopes

Pode uma corpa gorda gozar?

Enquanto corpa gorda é impossível ler Solução de dois estados, do Michel Laub, publicado pela Companhia das Letras em 2020, e não pensar sobre a presença da corpa gorda na literatura, em especial, na literatura brasileira. É comum que corpas gordas estejam sempre associadas nas artes com o abjeto, com a doença, com a monstruosidade. A personagem gorda é aquela que geralmente não ganha protagonismo e, quando figura nas páginas dos livros, recebe adjetivos que repelem o leitor. É como se a corpa gorda quando retratada ecoasse sempre de forma negativa, isto quando quem escreve lança olhar sobre ela.

Faz a experiência: pensa em que personagem gorda da literatura você se recorda? Se algum te ocorrer, quais palavras dão corpo a essa personagem? Tenho esbarrado com textos de escritores incríveis que ainda derrapam nesse debate, que utilizam gordura como excesso a ser ceifado, gordo como sinônimo de nojento, ou evocam essas personagens para o riso gratuito, sem que isso faça parte de um efeito reflexivo a ser causado, sem que se dê voz às gordas. É como se não coubéssemos nas cadeiras de plástico dos bares, nas macas dos hospitais e nas páginas da literatura.

Solução de dois estados foge à regra. Entre diversos temas que o Laub nos traz, pela atualidade do debate que gera ao falar da violência atual da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que escancara a polaridade que vivemos nos últimos anos, polaridade que cria fissuras até mesmo entre entes queridos, o que mais me chama atenção é a presença e o protagonismo de uma personagem de cento e trinta quilos, a Raquel Tomazzi. Sem maniqueísmos, o que temos é uma deliciosa personagem gorda, que se utiliza da ironia para defender suas ideias e que se, por um lado, não nega a sua existência e o que isso gera; por outro, apresenta suas ambiguidades. Raquel é gorda e faz arte. Raquel é gorda e provoca. Raquel é gorda e transa, vejam só. Raquel é gorda e produz pornografia, que sacana!

A narrativa acompanha um documentário feito por uma alemã que entrevista dois irmãos brasileiros discutindo sua relação, seus desentendimentos e como os dois reagem ao fato de um deles, a Raquel, ter sido espancada no palco onde acontecia um seminário sobre violência. Os dois irmãos nutrem um ódio intenso por conta da herança, dos ciúmes dos pais, por seus corpos opostos e conflitantes. Enquanto Raquel defende seus cento e trinta quilos com arte, Alexandre é dono da Império, uma rede de academias que propaga os benefícios do "cuidado com o corpo" para atingir a plenitude, inclusive espiritual. Associado a um pastor, Alexandre é uma espécie de miliciano, a Império consegue atingir a juventude e angariar adeptos que pensam da mesma forma, o que as produções artísticas de Raquel não conseguem, sendo reféns dos patrocínios de instituições que não estão necessariamente interessadas naquilo que ela produz.

Raquel é uma performer gorda, que desde jovem te foi imposta a persona da Vaca Mocha, que ela subverte na fase adulta para criar filmes pornográficos nos quais expõe seu corpo para ser violentado. O corpo de Raquel, assim como na performance Ritmo 0,da Marina Abramovic, em que a lendária perfomer discute violência ao passar seis horas à mercê do público, para que eles a torturem com diversos instrumentos; é exibido em sites pornográficos sendo espancado e violado. Corpas como o da Raquel são objetificadas, fetichizadas e violentadas desde sempre e, assim como a personagem, isso influi em suas sexualidades e na (im)possibilidade de encontrar prazer. Em seus vídeos, Raquel, como todo artista, lança seu corpo ao debate e o que provoca diz mais sobre quem a fere do que sobre ela. Ao ser espancada num evento diante de seiscentas pessoas, sem que nenhuma delas interfira, somos provocados a pensar não apenas na banalização da violência, mas o que uma corpa gorda pode esperar nos ambientes intelectuais, nos espaços públicos, na intimidade no qual o gozo é permitido pela degradação.

Solução de dois estados é uma obra que discute pensamentos opostos e mostra as contradições de ambos os lados, até mesmo de quem está na fronteira como a documentarista. É um ótimo livro para exercitar a imparcialidade, o que foi impossível para mim por ser atravessado pela Raquel. Existir enquanto pessoa gorda, entender como os afetos nos são negados, como nos adaptamos às violências dadas para cabermos no mundo já me faz escolher um lado. Independente de como você se posicione no mapa de leitura do livro, que uma pergunta te guie: você deixa a corpa gorda gozar?


 Euler Lopes é escritore de Sergipe. Atua na direção e dramaturgia do Grupo de Teatro A Tua Lona desde 2010. Publicou os livros 10 afetos, +10 Afetos e Bolor. Foi contemplado no Jovens Dramaturgo (2013) e Edie (2016). Oferta cursos de escrita criativa pela Gotas de Mar Produções. É doutorande em Letras pela UFS, onde pesquisa violência na dramaturgia latino-americana.