Por causa disso

Marcelo Montenegro

1.

Uma vez, alguém me perguntou porque eu escrevia. Fui salvo por um rádio ali perto que, milagrosamente, no mesmo instante, começou a tocar Love me Do. Aproveitei a deixa: "por causa disso". O que não só dá conta de uma parte suculenta da verdade, como remete a um menir inesquecível da minha infância: uma Basf laranja dos Beatles que o meu pai tinha. (Só pra constar: sou Beatles por parte de pai e Roberto Carlos por parte de mãe.) Tem um texto do Sam Shepard no Crônicas de Motel em que ele fala de uma "Terra Do Rádio Lá Longe". Eu cresci nessa terra e ela vive me salvando. Claro, não mencionei nada disso - diria Domingos Oliveira, "meu teatro finge que não é sério, sua gravidade é um segredo" - e encerrei o assunto em tom de piada: "por causa disso".


2.

Gosto de saber que Leonard Bernstein era apaixonado por Pet Sounds, que o plano de Lou Reed era botar Dostoiévski em termos de rock'n'roll, que Drummond adorava Os Trapalhões - o primeiro poema que aprendi na vida, a propósito, foi "Dorval Mengálvio Coutinho Pelé e Pepe" -, que Erik Satie amava tocar música barata nos cabarés ou que David Chase se inspirou em Edward Hopper para criar o final de Família Soprano. Também gosto de imaginar que os meus poemas - "por causa disso" - estão em algum lugar entre João Cabral de Melo Neto e Jerry Seinfeld.


Marcelo Montenegro (São Caetano do Sul, SP, 1971) é autor de Forte Apache (Companhia das Letras, 2018), que além do inédito que nomeia o conjunto reúne também os seus dois primeiros livros: Garagem Lírica (2012) e Orfanato Portátil (2003). Trabalha como roteirista de ficção e já escreveu séries para HBO, Netflix, GNT, MTV, Globo e Prime Vídeo, dentre outros. 




Foto: Murilo Rodrigues