Prólogo de O Sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico*

Hermes Veras

Dia 19 de maio de 2014. Havia marcado com antecedência a minha visita ao terreiro, onde cheguei após quinze minutos de caminhada. Já na rua destino, avistei duas mulheres, uma jovem e outra mais velha. Infelizmente estavam adiantadas e chegariam primeiro do que eu. Isso já tinha acontecido um punhado de vezes, dificultando o diálogo com o Sacerdote. Rapidamente, Pai Álvaro abriu o portão para as duas e fiquei no aguardo.

Quando chegou minha vez, conversamos por apenas alguns minutos. Os assuntos foram variados. O zelador de orixá, com o texto transcrito de nossa primeira conversa gravada em mãos, perguntou-me se eu havia buscado na internet o que existia a seu respeito. Falamos do rosário herdado de uma "preta velha", antiga "guia" de Pai Álvaro, que as filhas e filhos de santo da casa possuidores da "mão de rezador" têm o direito ou dever de manipulá-lo. Em meio ao diálogo alguém bate no portão. É uma senhora:

- Seu Álvaro, o senhor ainda vende gás?

- Vendo sim. Volte daqui 15 minutos para buscar!

O zelador de santo, meio desconcertado, pediu-me para voltar ali ainda naquele dia, no período da tarde. Comentou que seria ruim por causa da chuva, mas nos abrigaríamos no terreiro. Concordei e voltei para casa minimamente decepcionado.

O problema era que perto das 15 horas, e nesse horário e época do ano, costuma ser o horário da chuva na Grande Belém. E ela caiu curta em espaço de tempo, mas intensa. Logo a rua da casa onde estava hospedado ficou alagada, dificultando manter a pontualidade desejada para o encontro marcado. Como não podia esperar que escoasse grande parte da água, telefonei para um mototáxi que trabalha no bairro.

Bati na porta, chamei pelo nome de Pai Álvaro, disquei para o seu telefone para despertar a sua atenção e logo depois tornei a chamá-lo, bati palmas e nada de ele aparecer. No percurso de volta uma mulher familiar passou por mim. Menos discreta do que eu, clamou por ser atendida.

- Já fiz isso, telefonei pra ele também, mas nada dele aparecer!

A mulher disse que era para Pai Álvaro estar em casa, pois havia visitado o zelador de santo ainda naquela manhã. Falei que estive em período matutino em sua companhia mas apareceram outras pessoas, impossibilitando nossa conversa. Dialogamos e expliquei que estava fazendo uma pesquisa de mestrado pela UFPA. Na conversa, a mulher revelou frequentar o terreiro há mais de sete anos.

- Aqui é o melhor terreiro de Belém, né, não? - indagou de maneira retórica.

Continuou a bater. Estávamos quase desistindo quando saiu o zelador de santo, aparentemente irritado. Argumentou não ser preciso fazer tanto barulho, pois a rua é estreita e silenciosa, todos os vizinhos escutariam e ele já havia ouvido. Abrandando a voz, disse:

- E o senhor não veio na hora da chuva!

Então ele saiu de casa e foi abrir o portão do terreiro. A mulher entrou junto com ele, fiquei do lado de fora, pensando que ela fosse ser atendida. Ouvi o barulho de Pai Álvaro secar o corredor com um rodo, acender algumas velas, erguer garrafas de bebidas que estavam caídas em volta das imagens das entidades. Após alguns minutos, apareceu no portão do terreiro. Tornei a explicar o atraso. Sabia que isso não era desculpa, pois ele sempre reclamava das pessoas que se atrasavam para as atividades do terreiro por causa das águas. Como quase sempre os rituais públicos acontecem no período da tarde, ou seja, horário da chuva, aquilo não era motivo para ninguém faltar.

Nesse momento, trocamos algumas palavras. Perguntei sobre a mulher. Carla vai ao terreiro nas segundas-feiras para oferecer velas para alguns orixás e seu anjo de guarda. Era da Igreja Universal, mas agora acende as velas para as entidades. A igreja, inclusive, foi fio condutor de nossa conversa. Comentei que havia iniciado minhas pesquisas em religião com a Universal. Pai Álvaro indagou-me sobre o motivo de ter mudado. Respondi que não gostava que tentassem me converter. O zelador de orixá concordou, dizendo que não é necessário converter ninguém, quando é da vontade da pessoa ela mesma se converte. Lembrou-se de quando alguém da Igreja Universal queria convencê-lo de que ele deveria era se concentrar na bíblia, e não ficar nessas coisas de terreiro. O zelador de santo então triunfou:

- O senhor leu a bíblia? Então me responda: Qual foi a primeira criatura que Deus criou?

A pessoa respondeu que foi o homem. Pai Álvaro discordou falando que na verdade a primeira criatura que Deus criou foi a luz, e isso estava na bíblia que ele dizia ler. Nesse momento, enquanto conversávamos, tornou a chover, sendo necessário nos abrigar. O Sacerdote sentou-se ao lado da imagem de Oxumaré, orixá ora pressentido como arco-íris, ora como serpente. Carla ainda estava acendendo suas velas nos pés das imagens espalhadas pelo lugar. Como já passavam das 16 horas e o céu sinalizava que a chuva perduraria por bastante tempo, perguntei quando poderíamos tentar conversar novamente.

- A gente vai tentando. Mas não é pra trazer um bocado de gente contigo! - respondeu, mencionando o fato de não ter conseguido visitá-lo nenhuma vez sozinho, sempre com alguém do meu lado a dividir sua atenção.

Em conversa anterior, Pai Álvaro tornou a mencionar um livro sobre afro-religiosos em Belém, que por estar esgotado, peguei-o emprestado para fazer uma cópia. Como ele não o encontrou, e procurava para mostrar-me algum detalhe, levei de tarde a minha cópia. Na leitura percebi o nome de Pai Valdemar, perguntei se ele era o mesmo que tivera assentado os seus orixás e exus, o que foi confirmado. O Sacerdote aproveitou para folhear as páginas do livro, parando em algumas fotografias de afro-religiosos ilustres do Pará. Comentou sobre duas das principais lideranças afro-religiosas do estado:

- Sabe uma pessoa que amanhece, almoça e janta pensando em macumba? São eles.

- O senhor não é assim não, né, pai? - indagou Carla.

- Eu não!

Ainda sentado tornou a falar de Pai Valdemar, comentando ter ele transitado por um monte de "nação". Umbanda, Jeje, talvez até outras, para finalmente chegar ao Candomblé. Relembrando sobre sua relação com o Pai Valdemar, revelou-nos que o nome do terreiro foi passado por uma entidade, aquela mesma preta velha que repassou o rosário, trazendo-o em iorubá. Como pretendia ficar na Mina, resolveu traduzi-lo.

De repente, indignado, o Sacerdote comentou sobre alguém de importância pública haver dito que a Umbanda não seria religião por ser brasileira. Virou-se para mim e disse:

- Claro que não é brasileira, mas o cristianismo é, mano? É a mesma coisa que dizer que a religião não tem "fundamento". Tem fundamento sim!

Pai Álvaro também discorreu que esse "fundamento" existia e era passado pelos mais velhos para os mais novos. O problema seria que eles, muitas vezes, não se interessavam em aprender.

Levantou-se. Enquanto falava acendia algumas velas apagadas durante o tempo de nossa conversa. Comentou que precisava voltar de noite para tornar a acendê-las.

- Tá vendo, por isso que eu sou zelador de santo, de orixá. Tenho que ir ao terreiro de vez em quando acender uma vela, ajeitar as coisas, saber o que as entidades querem. Por isso sou um zelador, afirmou, apanhando uma vela e mostrando o que havia escrito em sua embalagem:

"A primeira criatura foi a Luz".


* O livro O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico foi publicado pela Editora Letramento em 2021. Pode ser adquirido na própria editora: https://www.editoraletramento.com.br/produto/o-sacerdote-e-o-aprendiz-antropologia-de-um-terreiro-amazonico-538 . Às vezes, com o autor.

Hermes de Sousa Veras é antropólogo e escritor. Nasceu em Fortaleza, CE, em 1991. Já morou em Belém e Porto Alegre. Atualmente reside em Ananindeua, PA. Faz parte do grupo de poetas do portal Fazia Poesia, do Grupo Eufonia de Literatura [agora Nós por Nós] e é escambanauta. Escreve crônicas semanais na newsletter Um Mensageiro e publica microcontos no perfil @viu.eitanem. É autor do livro de não-ficção O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico (Letramento, 2021), e do livro de poesia Formas Veladas, a sair pela Editora Escaleras. 

Foto: Thayanne Tavares