Quarenta dias, noites, anos

Adriana Armony

O primeiro número que me intrigou na literatura foram as mil e uma noites. "Mil" era fácil de entender - uma seta para o infinito -, mas esse "uma" suplementar era o fascínio: o dia único que, como uma chave, abria um novo universo. Sherazade usou mil noites para engambelar o sultão e adiar a própria morte, mas foi em apenas uma que se libertou. Nessa noite, o sultão foi fulminado pela compreensão de que o amor pelas histórias tinha se tornado maior do que o medo da morte.

Números podem ser fascinantes. No primeiro dos livros do mar de histórias que os judeus chamam de Torá e os cristãos de Bíblia, Deus, ao constatar que a maldade do homem era grande sobre a terra, fez chover quarenta dias e quarenta noites para destruir e recomeçar o mundo. A repetição do número quarenta, a indicação das quarenta noites ao lado dos dias me leva imediatamente ao interior da arca onde, deitada numa esteira ao lado de Noé e sua família, penso ouvir no escuro os casais de animais relinchando, ou copulando, enquanto espero o amanhecer em que a pomba enviada por Noé voltará com um ramo novo de oliveira.

No recorte da janela o que vejo agora não é o dilúvio, mas um dia azul e limpo. Se estivesse numa arca, como o sopro das palavras quer me levar, veria o mundo desabar? Carradas de água desceriam dos céus em fúria, inundando um mundo corrompido? Ou o dilúvio é invisível, o infinitamente pequeno das gotas de saliva, espuma de aerossóis que flutuam, poeira de estrelas extintas que podem matar?

Se o dilúvio é outro, os tripulantes da arca também são. Somos dois filhos jovens e uma mãe, uma mulher que ultrapassou há pouco sua própria década de quarenta. À noite, ouço o meu casal de filhos se debatendo, às vezes se engalfinhando. Sei das inúmeras mortes lá fora, mas o que mais me atinge é a partida dos bons: bons escritores, bons músicos, bons cidadãos. Desta vez, parece que quem se afoga é o ancião e justo Noé.

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O número 40 se impõe em tempos de Covid-19, este outro número que assinala um início - 2019 - sem que se vislumbre um fim. Quarentena, dizemos, sem saber se quarenta serão dias, meses, anos.

Leio que a prática e o nome da quarentena se originaram no século XIV, por ocasião da peste negra, em Veneza. Por 40 dias, os barcos deveriam permanecer isolados antes que passageiros e tripulantes desembarcassem, em uma medida profilática para contenção do avanço da doença.

Não se sabe exatamente a razão dos 40 dias. Considerava-se que esse período era o necessário para que uma pessoa doente manifestasse os sintomas caso estivesse contaminada, talvez por influência da quaresma, período de 40 dias em que os cristãos fazem penitências. A quaresma, por sua vez, representa os 40 dias e noites em que Jesus jejuou no deserto e foi tentado pelo demônio, e, ao mesmo tempo, os 40 anos que o povo de Israel passou no deserto até chegar à Terra Prometida. Na Veneza medieval, esses episódios tinham um poder irresistível, e o número 40 seria uma garantia de purificação.

Dizem também que, quando a doença se espalhou de fato, desencadeando o surto, a prática da quarentena foi temporariamente abandonada. Imagino o desespero, o abandono, o cair dos corpos em ruas estreitas, contra o fundo luminoso dos canais.

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A primeira vez que ouvi a palavra quarentena foi da boca da minha avó Judite. Em 1919, acabada a Primeira Guerra, um grupo de judeus entrou no navio Rusland em direção a Eretz Israel, onde sonhavam uma nova civilização. Foi uma longa viagem. O capitão do navio desviou-se da rota prevista para comercializar grãos nos mercados livres da Grécia. Desconfiadas, as autoridades não permitiam que os passageiros descessem à terra ou se abastecessem com alimentos frescos. Em todos os portos onde paravam, tinham de ficar de quarentena; só depois que viessem desinfetar os seus pertences podiam atracar. Em Constantinopla, depois de três dias de quarentena, os levaram à cidade, onde deviam tomar um banho: tiraram-lhes as roupas para desinfetá-las, deixando-os nus, e depois as devolveram. Embora homens e mulheres estivessem separados, minha avó sentiu muita vergonha: nunca tinha ficado nua na frente de outras pessoas.

Na época, a doença mais temida era o tifo, causado por uma bactéria transmitida pelas fezes do piolho, que penetram no organismo do homem quando ele coça o local da picada ou quando, depois de secas, invadem o trato respiratório e os olhos. Febre, dor de cabeça e calafrios surgem repentinamente após um período de incubação que se estende de 7 a 14 dias. A seguir, aparecem sintomas parecidos com os da influenza: febre alta e persistente, dor de cabeça forte, prostração. Com o agravamento do quadro, evoluem para delírio e estupor. Por volta do quarto ou sétimo dia, manchas rosadas, formadas primeiramente nas axilas, alastram-se por todo o corpo, poupando apenas a face, a palma das mãos e a planta dos pés. Nos casos mais graves, as lesões adquirem caráter hemorrágico e podem ocorrer complicações como pneumonia, tromboses, gangrena e colapso circulatório.

É tifo também a doença que grassa nas páginas finais de É isto um homem?, de Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz. A associação entre epidemia e o extermínio nazista parece então assustadoramente atual: quem morre como moscas são os descartáveis, os velhos, os doentes, os fracos. Mas e daí?, diz o homem que 57 milhões de brasileiros elegeram.

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Semana passada eu ainda saía, me esgueirava entre as prateleiras do supermercado, espiando com o rabo do olho uma mão mais perigosa, uma tosse suspeita entre cebolas e berinjelas. Ao chegar da rua, desfazia-me das roupas radioativas, corria até o banheiro e lavava com minúcia meu corpo desprovido de abraços.

Hoje nem isso. Em casa, dia após dia, vivo o tempo dos confinados. Acordo cedo, varro a varanda, espano os móveis, coloco o robozinho aspirador para trabalhar cegamente o sinteco. No banheiro, escovo a privada com desvelo e fúria. Lavo as compras, preparo almoço saudável para crias insaciáveis. É preciso manter alta a imunidade. Por isso, tento evitar a intoxicação de notícias, nem sempre com sucesso. Desde que me machuquei ao fazer uma aula de balé online, cozinho com menos elã. Ainda coloco música, ensaio passos e cantorias, mas meu corpo sente saudade de se esticar, se lançar, se fundir no movimento da música.

Restam os movimentos da alma. O ritmo das palavras, as ondas das frases desdobrando a imaginação.

Penso em Proust, o romancista por excelência do confinamento. Viveu anos voluntariamente cativo em seu quarto forrado de cortiça, onde cada barulho só servia para realçar o silêncio. Filho de um grande epidemiologista, que inventou os cordões sanitários, ancestrais do distanciamento social e da atual acepção de quarentena, Proust sentia prazer na solidão, da qual só saía tarde da noite, para escapadas mundanas. Só um autor tão íntimo do silêncio poderia escrever sete volumes de uma ode à leitura de si mesmo.

Em vez de ler a mim mesma, decido me dedicar à leitura de Xavier de Maistre, autor, com apenas 27 anos, do delicioso Viagem à volta do meu quarto, que tanto inspirou Machado de Assis. São 42 dias de viagem no próprio aposento, relatados em 42 capítulos por um homem grato por estar protegido do clima violento da Revolução Francesa. Por que 42 dias, e não 43?, se pergunta logo no início da narrativa. E nos responde com um piparote: por um mero lance de dados.

Como se seu quarto fosse uma cidade ou um país, o viajante diverte-se em registrar a topografia do local. Tal qual ele, vou do armário à janela, percorro o perímetro do quarto, depois tento a diagonal, pulo por cima da cama, onde uma pilha de roupas é testemunha de tudo que procrastino.

Logo me canso. Melhor que perfazer os caminhos da casa é tecer mil narrativas, como esta, na esperança de atingir, depois de mil noites, aquela que trará a chave. 

Adriana Armony é escritora, professora do Colégio Pedro II e doutora em Literatura Comparada pela UFRJ. É autora dos romances A fome de Nelson (Record, 2005); Judite no país do futuro (Record, 2008); Estranhos no aquário (Record, 2012), premiado com a bolsa de criação literária da Petrobras; e A feira (7Letras, 2017), finalista do Prêmio Rio de Literatura. Foi organizadora, com Tatiana Salem Levy, da coletânea Primos: histórias da herança árabe e judaica (Record, 2010) e tem contos e artigos publicados em jornais e revistas literárias como Rascunho e Revista Z. Participou de mesas de escritores em vários festivais literários como Fliporto (Olinda), Fórum das Letras de Ouro Preto e Flip (Paraty), onde atuou em uma leitura dramatizada de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, dirigida por Bia Lessa. Como professora, ministrou Oficinas literárias a estudantes de Ensino Médio ao longo de quatro anos. As produções literárias dos integrantes dessas oficinas foram organizadas e publicadas em dois livros, com patrocínio do PACC-UFRJ e da Faperj, em 2016, e do Colégio Pedro II, em 2018. Em 2019, realizou um pós-doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3) sobre a escritora Pagu e a temporada que passou em Paris, entre 1934 e 1935. Dessa pesquisa resultou o romance Pagu no metrô (Editora Nós, no prelo, com publicação prevista para dezembro de 2021). Também no prelo está o seu romance Vamos chamá-la de Maria (Editora Reformatório), previsto para 2022.