Quatro poemas
Yasmin Bidim

O poema pode ser

o poema é uma cambalhota
o poema é um pulo no vazio
o poema é uma forma de parar o tempo
o poema é uma forma de viajar no tempo
o poema é uma figueira
o poema é uma fileira
de corpos ao lado da vala
o poema é um conjunto
de árvores enfileiradas
com as raízes
quebrando a calçada

o poema dentro desse poema
podia ser substituído por
qualquer palavra

podia ser casa
com seu telhado, portas e janelas
podia ser cavalo
com sua cauda e cascos
podia ser mulher
eu que escrevo esse versos
podia ser até mesmo o verso
com suas quebras e metáforas

o poema dentro do poema
é sempre complicado
sempre auto-referenciado
elíptico e inesgotável

o poema dentro do poema
é sempre alguém
que fala de si mesmo
na terceira pessoa
é sempre alguém
que acorda cedo
e se olha no espelho

Câmera-olho

O olho está em dificuldade
ele vê apenas sombra
onde há luz do sol
vê somente sombra mesmo
que o pássaro cante.

Durante um minuto inteiro
existiu apenas
a sombra na parede
a sombra e suas formas
abstratas
a sombra e sua cor cinza
sob a superfície rosa
a sombra e seu tato úmido

O olho está em dificuldade
pois vê tanto
onde há apenas sombra.

Lygia disse

Lygia disse
que Clarice
tinha a língua presa.

A língua de Clarice estava presa
- O adulto é triste e solitário

a tela mostra a palavra
a palavra se eleva no ar
a palavra está presa na tela
a tela tem a língua presa
a tela se eleva na língua
a língua disse Clarice
a língua estava presa
no ar
o adulto estava preso
na tela
a tela mostra
Clarice
é presa
Clarice tinha a palavra
solta
Clarice disse:
- a palavra é triste e solitária

Clarice se eleva no ar
ela se eleva
ela se eleva
ela se eleva


Fuga

A poesia foge
pelas frestas dos escombros.
Recusa o pânico e a insegurança.
Não suporta
a existência mutilada.
É hora de persegui-la.
De buscas a palavra nas
ruínas.
Parem as metáforas!
É preciso ser literal.
É preciso saber a
presença e o
presente
de cada palavra.
É preciso ver a
devastação
fora das palavras.
Falar não é o mesmo que ver.
É preciso abrir as
palavras destroçar as 
palavras.
Parem as metáforas!
Parler ce n'est pas voir.
É preciso ver a poesia.
É preciso escutar a voz de Auxílio:
a poesia não desaparecerá.
seu não-poder se fará
visível de outra maneira.

arte: Neubauten, Jackeline Westphal


Yasmin Bidim vive na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. Tem formação em cinema e é doutoranda em Estudos de Literatura pela UFSCar. Trabalha como produtora cultural, VJ, educadora e pesquisadora de arte e cultura. Produz o canal Poesia em Obra, no YouTube, no qual divulga seus poemas visuais e também o blog A Terra é Plena. Em 2020 lançou pela editora Penalux seu primeiro livro de poemas, o Livro dos Interiores.

foto: Ian R. Mazzeu


Jackeline Westphal é artista visual e graduada em Filosofia pela Universidade de Brasília. Suas pinturas e desenhos são motivados por seus traumas, tudo que dói e tudo que traz conforto para a dor. Procura, através do pincel, comunicar o que não consegue por meio das palavras e tem as artes enquanto motor principal da manutenção de sua saúde mental. (Sobre)vive em Brasília a contragosto.
Mais no insta, @jackelineart_ 

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