Receita para abraçar bolhas de sabão

Elba Marques

É domingo. Não gosto de domingos. Há a angústia que me imobiliza, o trabalho a ser feito, o cansaço a que insisto em chamar de preguiça, e há o domingo de que não gosto. Deitada na cama enquanto ela brinca no outro quarto, absorta em sua luta heroica contra o tédio, torturo-me com o pensamento de que deveria ao menos ler para fingir utilidade. Que nada! Já estou rendida. Instagram instalado e sei bem o que se seguirá: a comparação do meu domingo eternamente solitário aos domingos incrivelmente editados para que os miseráveis como eu os inveje. Dizendo que agora sou minimalista nas redes, custa-me a admissão de que me frustro com a minha incapacidade de ter uma vida instagramável. Abro o aplicativo. Estou aqui e o dano é irremediável. Abro o direct. Vou, ao menos, seguir a regra de acompanhar quem é próximo a mim.

Story de minha amiga de infância fazendo bolha de sabão gigante com a filha. Opa! Isso eu acho que posso fazer!

- Como você faz essa bolha?

- Vai sabão e amido, para a bolha durar mais.

- Não, quero saber o que você está usando como aro.

Rimos as duas. Sempre rimos.

- É haste de coador de café.

- Ah, isso não falta aqui em casa.

Tagarelamos um pouco sobre higienização do coador de café de pano e o tempo passa modorrento. Estou decidida, porém. Cadê o detergente? Não tenho. Tento com xampu. Não funciona. Acrescento o sabonete líquido. Insisto. Precisamos mexer bem no fundo e ter paciência. Fracassos e promessas depois, eis que a bolha irrompe o aro, ganha a luz de um dia de céu azul claríssimo. Inevitavelmente, surge também o clichê que é tão meu. Tiro foto. Envio-a para a dindinha. A legenda: a estrutura... Ela completa: da bolha de sabão.

Quando minha barriga crescia pesada como cimento, li um conto chamado "A estrutura da bolha de sabão". Ao terminar a leitura, tive um daqueles sentimentos costumeiros das vezes em que adivinho que inevitavelmente sofrerei. Reconheci pela primeira vez, para mim mesma, no silêncio do quarto abafado, no início de uma tarde de domingo, que estava só e com medo. Admiti que as companhias que inventei para esconder essa verdade eram como bolhas de sabão e essas, ainda que plenas de amor, naturalmente estourariam em alguma quina.

O conto me despertou para o que viria depois. Eu, que na infância tivera os domingos roubados pelo trabalho de meus pais e na juventude os tivera limitados às horas de estudos, havia criado, em torno da família que então se construía, uma bolha repleta de promessas daqueles domingos preenchidos por alegrias compartilhadas. Muito pouco disso se realizaria, eu já pressentia na continuidade dos domingos solitários que passava com minha filha ainda em meu ventre.

No meio da tarde do domingo de agora, penso no conto, no telhado, na bolha que se estoura. Penso nas quinas que desfazem estruturas de bolha de sabão. Penso nas delicadas estruturas de amor que se desestruturam nos confrontos com as quinas obtusas da vida. Como reconforto, penso também na bolha que se reconstitui eternamente na memória. Olho para minha filha que tenta alcançar as bolhas, mas as estoura com as pontas dos dedos. Há uma memória se construindo aqui. Esse pensamento me desperta do transe contemplativo da bolha, das quinas, da desestruturação do amor. Agarro-me a essa promessa.

Meu coração pesa com a ideia de que os amores de minha filha também se romperão nos confrontos angulosos. Sua vida também terá o registro de digitais que se precipitarão sobre ela com ânsia de domínio? A adivinhação da dor me assombra mais uma vez.

Expressiva como é, ela exprime uma interjeição exagerada de desalento ao ver a bolha se desestruturar em seus dedinhos. Eu me decido, mais uma vez, a não aceitar o jogo dado e lanço uma prece ao infinito por meio de uma invenção.

- Que tal a gente abraçar as bolhas em vez de pegá-las?

O costume de agarrar ainda prevalece no início. Insisto.

- Abraça ela!

Ela abraça a bolha, que continua a se desfazer. Agora, no entanto, há o sorriso que acompanha o novo jogo.

Não gosto de domingos, costumo dizer com frequência. Deveria, no entanto, dizer isso com sinceridade, "não gosto mais de domingos", pensei enquanto lavava a louça para o almoço do domingo anterior, Dia dos Pais. Meu pai cuidava do quintal, minha filha junto dele. É bom quando meu pai vem aos domingos. Afinal, não gosto... Será que não gosto mesmo? Maldita terapia que não me deixa mais fingir ódio gratuito em paz! A interrogação engancha-se nos meus miolos, ancora-se ali onde se cutuca cascas de feridas. Lembro-me de que, até uns seis anos, todo domingo eu recitava assim que acordava: Hoje é domingo, pé de cachimbo (assim mesmo, sem verbo). Quando isso começou? Quem me ensinou isso? Termino o almoço. Durante a refeição, converso com meu pai sobre a vida de filha que é mãe, ele me conta coisas de pai que é filho.

A filha estava no quarto brincando. Deitei-me, pois ainda era domingo. "Mãe, quem me ensinou a cantar Hoje é domingo?" Mensagem enviada. "Seu tio O." Meu tio, ainda no início do namoro com minha tia, convivia conosco com frequência quando meu pai nos deixou no interior e foi para a cidade, logo depois do falecimento de minha irmã mais nova. A vida era difícil, eu me lembro. Ela era repleta de quinas. Foi nessa época que falei pela primeira vez ao telefone. Usávamos emprestado o telefone da vizinha. Recordo-me de não saber o que responder para aquela voz irreconhecivelmente frágil do outro lado. Meu pai soava agudo e infantil. Não era mais meu pai, gigante aos meus olhos de menina, era quase uma outra criança. Tive vontade de gritar no meio da sala: não quero falar nada porque não acredito que estou falando com meu pai! Era domingo e, como usual, fazia muito calor na periferia de Porangatu do início da década de 1990.

Os domingos seguiram-se preenchidos pelo não sentido. Minha mãe, cansada, limpava a casa, lavava roupa, cozinhava. Nós nos deitávamos juntas no cimento vermelho limpo e frio para não deixar os miolos ferverem. Nesse tempo, e por muito tempo, minha tia era a pessoa que eu mais amava, uma fada encantada com uma aura tecida de cabelo crespo, cheirosa e com a mão pronta para o afago, aquele carinho a mim concedido no turbilhão lutuoso e que me aviva inteira. Minha tia me dengava, como sempre faria. Meu tio contava piadas que eu pouco entendia. Eu os colocava em uma bolha de ternura. Foi em uma dessas tardes que me ensinaram a cantar "Hoje é domingo".

Deveria ensinar isso a ela. Devo voltar a cantar isso, mas agora com minha filha. Atravessarei os domingos com certa voragem de alegria. Quero colocar essas tardes com a filhota em uma bolha também preenchida por ternura e alegria intensa e me deitar no chão com ela para existirmos lado a lado. Desejo ser também eu a Fada do Dengo...

Vejo a bolha que é comprimida ao peito da criança. Observo as estruturas que se fundem na alegria calma, terna e mansa. Abraçar-se é uma forma plena de amor. Assisto à minha cria na aprendizagem do amor como promessa de vínculo. Entre o desejo do toque e o esfacelamento da bolha, as estruturas se entretocam. As digitais deixam suas marcas no objeto quase etéreo, não com a violência da posse, mas com a antevisão do enlace. O tempo continua a transcorrer pela tarde de domingo: 1990, 2013, 2021 e mais o futuro. De repente, um alumbramento me atravessa: nada é gratuito. Tudo permanece nos laços do amor e da memória.

ELBA FERREIRA MARQUES é uma mulher que é também mãe, professora e escritora amadora. Nascida em Santa Tereza de Goiás no ano de 1986, aos 34 anos, escreve textos em que compartilha vivências. Graduada em Letras, Psicopedagoga e mãe da Bibi que está no Transtorno do Espectro do Autismo, defende a educação para a autonomia do aprendiz e do ensinante e defende a potência revolucionária do afeto.