Sagrado feminino

Rainha do Verso

Sagrado feminino é a lata d'água na cabeça de Maria
e a arruda da benzedeira
O samba da passista
O terço das almas na segunda feira
O gargalhar da pomba-gira e a fé verdadeira
A missionária que ora os jovens da boca à noite na rua
quebrando barreiras
Sagrado feminino
São os hematomas da mulher agredida cicatrizando
É a metamorfose das trans
transformando armário em casulo
ressignificando
Sagrado feminino
são as mãos grossas
de produto químico esfregando panelas rejuntes e privadas
Sagrados
são os calos grossos
envolvendo a enxada
O facão amolado das bóias frias no canavial
O giro da baiana e o rodar de sua saia
Os pés doloridos das vendedoras de loja na véspera do natal
O capricho das aderecistas no barracão de carnaval
Pamela princesa negra do jongo dando seu aval
Sagrado feminino
São rimas de Dina Di
O grave de Elza
os dribles da Marta
O trap de Lewa D Oxum
Dona Ruth de Souza nas telas da vida
Os nocautes de Duda Santana
Os versos fortes do Slam das Minas
Sagrado feminino é o parto da cracuda
O orgasmo da puta
As olheiras da mãe de família
A cura da mulher violada
O diploma da cotista
A terapia surtindo efeito
A desistência do suicídio
O quadradinho do 150 bpm
A mãe que põe o peito no bico do fuzil do PM.
Sagrado feminino é alvará na mão
cabeça erguida
portão da frente
a Lili cantando
À espera das cunhadas na fila de visitas
Sagrados são os cotocos de lápis nas mãos de Carolina
O pretoguês de Lélia
Os escritos de Bell
A saudade no peito de Marinete
A filosofia do Ptahotep
Sagrado feminino é Sojourner discursando
O reinado de Aqualtune
O legado de Dandara
É Marielle na plenária!
Sagrado feminino é o mulherismo africano
e outras narrativas decoloniais
As águas da Kuniwaza
Sobonfu Somé e o espírito da intimidade.
É a canela do dia primeiro
O batuque no terreiro
O ebó das yas
O toco de vela
de vovó Mirna
O xirê e as yabás
Sagrado feminino é a força de seguir viver
e amar
mesmo estuprada humilhada vilipendiada
e agredida
É a mala no elevador
É a coragem da partida
É o cuidar de si
A fuga
do relacionamento
abusivo
É o não!
ao relacionamento tóxico.
É o b.o na delegacia da mulher
É a liberdade de amar a quem quiser!
o 180 discado com mãos trêmulas
Mas convictas
A denúncia ao agressor
É o seguir a vida.
Sagrado feminino é Indianara e seu exército lutando por moradia
O mandato de Sônia Guajajara
Katiuscia Ribeiro e sua filosofia.
Sagrado feminino
É documento de retificação expedido
É currículo aceito
O grito de Luana Muniz: travesti não é bagunça!
A cesta básica doada
a fome da mãe e suas crias saciadas
Sagrado feminino é a carteira assinada
é a vaga na creche
É não precisar deixar seu filho no mundo pra trabalhar
é o útero de
parir bandido
parindo trabalhador, universitário, concursado, doutor, graduado
Calando a boca de político corrupto com seu útero sagrado
Sagrado feminino é meu baleiro, meu isopor e meus versos cansados
O resto?
É ciranda
de sinhazinha emocionada
gratiluz.





Rainha
 do Verso é o pseudônimo de Rejane Barcelos. Estudante de Letras pela UFRJ, é atriz com 27 anos de carreira, cenógrafa e aderecista formada pela FAETEC EAT, performer, escritora, poeta e slammer. Participou de uma antologia e alguns zines. Atualmente organiza o slam Maré Cheia e compõe o coletivo Slam das Minas. É moradora da Maré e na favela encontra os elementos da construção de sua obra.