São as flores que me mantém são

Gustavo Galo

arte: Arthur Cabral Braga

Foi em um pequeno apartamento na Avenida Doutor Arnaldo, perto do Hospital das Clínicas, em São Paulo, que passei a maior parte da pandemia. A vista das janelas do apartamento é o Cemitério do Araçá. Entre as duas entradas da necrópole localizada próxima do centro da cidade há mais ou menos vinte bancas que vendem lírios, orquídeas, gérberas, gloriosas, rosas, ninféias, tulipas, dálias, camélias, margaridas, girassóis, cravos... Uma parte grande dessas flores termina como enfeite, murcha, sobre as lápides do lado de dentro.

O dia de maior movimento no cemitério é o dois de novembro. Neste ano, efeito da macabra política do governo relacionada ao novo coronavírus, a data foi ainda mais triste. Desde que moro aqui, o apartamento é também a sede de uma editora de poesia (É selo de língua), me vem à memória o poema de Matsuo Bashô, "dia de finados/ do jeito que estão/ dedico as flores".Paulo Leminski, na biografia Matsuo Bashô: a lágrima do peixe, considera este texto uma afirmação simultânea da vida e da poesia, visto que, aos mortos, Bashô ofereceu as flores do jeito que estão, isto é, com vida, na terra.

Minha mãe, Leninha, sempre conversou com as plantas e as flores. Não foram poucas as vezes que depois de algumas ampolas de Brahma ou Antarctica, no início dos anos 1990, assisti a seus longos diálogos no meio do verde. Duas décadas depois também admirei minha amiga, a artista Alzira E, papeando com as centenas de vidas plantadas por ela em seu quintal. À minha maneira, mais a distância, sempre tentei algum tipo de comunicação como as realizadas por Leninha e Alzira.

Muitos compositores, compositoras, poetas, revelaram seus papos com a flora. Alice Ruiz & Itamar Assumpção, por exemplo, pediram "idéias para azaléias" e "uma luz da flor de lótus". Jorge Mautner & Gilberto Gil, ao acaso, falaram "com a samambaia de um vaso/ em cima da janela/ olhando a baía". Usando a telepatia, a dupla falou "da vida/ sobre os amores das flores/ e a força secreta daquela alegria". E antes ainda, Nelson Cavaquinho (parceiro de Guilherme Brito em "A flor e o espinho") em "Eu e as flores" cantou: "quando eu passo perto das flores/ quase elas dizem assim/ vai que amanhã enfeitaremos o seu fim". Por um instante, enquanto escrevo esse texto, imagino Nelson nas janelas desse apartamento olhando o vai-e-vem rumo ao Araçá. Ele, que como Bashô não queria as flores para a morte, já havia alertado: "...me dê as flores em vida/ o carinho, a mão amiga/ para aliviar meus ais".

Ouvi muitas vezes as prosas entre flores e poetas. E quando menos esperava, em parceria com as flores do 803, aconteceu uma canção. Em agosto ou setembro a Júlia chamou a minha atenção para uma orquídea. No meio da pandemia fiquei ali olhando um dos botões prestes a explodir. Alta madrugada, as palavras, pólens contidos dentro das flores, me arrastaram. Sem perceber direito, produzi com elas um texto em voz alta. Enviei via whatsapp os versos a Peri Pane: "começa o dia/ converso com a orquídea/ passa tarde/ rio com o lírio/ a noite cai/ toco o violão/ com a violeta/ ensaio um refrão/ parece alucinação/ mas são as flores/ que me mantém são/ no apartamento em manutenção/ apartamento". Na manhã seguinte, também via zap, chegaram a melodia e a harmonia. A orquídea, o lírio, a violeta, foram parceiras também. Mas o spotify e a sua negligência com a ficha técnica ainda não aceita vidas sem CPF ou registro na UBC.

Desde então, antes de deitar (e tentar sonhar um pouco nessa pandemia entre o Araçá e o Hospital das Clínicas), sento no sofá roxo do pequeno apartamento. Miro alegremente as flores. Não falo, mas conversamos. John Cage, artista que conviveu com centenas de plantas em um apartamento em seus últimos anos de vida sugeriu em seus trabalhos uma comunicação nonsense, desmilitarizada, para que, segundo ele, a linguagem volte a ser como as árvores e as estrelas. "Eu tenho cerca de duzentas plantas neste apartamento: qual a semelhança que você diria que existe entre duas delas? (risos) Cada uma é um indivíduo. A única semelhança, talvez, é a de que elas não saem andando por aí" contou em uma entrevista a Rodrigo Garcia Lopes.

Penso agora no breve trecho de um ensaio de Paul Beatriz Preciado. "Se tivéssemos dedicado tanta investigação para nos comunicar com as árvores quanto nos dedicamos à extração e uso do petróleo, talvez pudéssemos iluminar uma cidade por meio da fotossíntese ou sentir a seiva vegetal por nossas veias". Em uma noite da pandemia, no apartamento 803, as flores iluminaram o quarto. Há quem considere desvario. Para mim é uma forma nova e singular de alegria essa relação de convivência mais próxima com as flores. São elas, as flores, nesse momento em que olho pela janela o Araçá, que me mantém são. 

Créditos do vídeo:

violão & voz_ gustavo galo
gravação_ otávio carvalho
mixagem & masterização_ otávio carvalho
 produção_ otávio carvalho & gustavo galo
 foto polaroid_ júlia rocha
capa_ ciça goés
a&r_ eduardo lemos & otávio carvalho
selo pequeno imprevisto_ dezembro 2020 


Gustavo Galo é compositor e intérprete. Acabou de lançar QUARTO (2020), seu quarto disco, gravado no quarto do apartamento onde mora, em uma noite da pandemia. Além dos quatro trabalhos solo, ASA (2014); SOL (2016); se tudo ruir deixa entrar o ruído (2019), integrou projetos cantando a poesia de Waly Salomão (lançamento da antologia "poesia total", 2015). Canta na Trupe Chá de Boldo, banda da qual faz parte há 15 anos. Participa da É selo de língua, editora independente, criação da artista Júlia Rocha.


foto polaroid: Júila Rocha


Arthur Cabral Braga estuda Artes Visuais na UNESP, é iniciado em técnicas de desenho pela Ebac, e aluno e frequentador do ateliê de Rubens Matuck. 


Foto: Gustavo Cruz