Sertões
Adriano Barroso

1.

Eu não quero ir. Me socorre! Vem logo, bora! Vai sem chorar, meu filho, é pro seu bem. Não! Mamãe não faz isso comigo. Não me deixa ir. Vai meu filho, para com isso. Não temos como te criar, vai. Larga minha perna. Vem com a madrinha vem, Pedro. vamos pra capital, lá tu vais estudar. Socorro. Socorro, mãe. Vai moleque. Para de chorar. Tu és frouxo, por um acaso? Isso não é coisa de homem. Se é pra ir, vai logo. E não olha pra trás!
O pai deu fim àquela agonia sem parar de costurar a rede de pesca.
Era o nordeste seco. Era uma praia no fim do começo do mundo, daquele mundo. Um casebre de madeira coberto de palha enterrado pela metade por conta do movimento das dunas. Era o filho mais novo de uma família de cinco filhos pescadores e pobres. Bem pobres. O mar há muito não estava para peixes. Mal se pescava para consumo próprio.
A agonia daquele menino teve fim com a ordem seca do pai. Foi arrancado das pernas da mãe onde se debatia como um peixe se debate quando pescado. Cedeu aos puxões da madrinha. Faltou-lhe o ar. Engoliu o choro.
A carroça seguiu o caminho de terra fofa e horizontes entre as dunas das praias de Aracati, a terra dos bons ventos, como é seu significado em tupi-guarani. O menino, em desobediência, olhava para trás, chorava baixinho suas últimas lágrimas da vida. Ali jurava para si que nunca mais iria chorar. Cumpriu até seus últimos dias. Amparado pelos primeiros carinhos de sua madrinha e ninado pelo sorriso feliz do padrinho guiando a carroça. Chapéu na cabeça. Olhos no horizonte. Eles não tiveram filhos. Em contraste com o menino, o peito deles estava aquecido de carinho. Seu filho nascia ali, aos prantos, como todo novo bebê, sob o sol quente, parto a fórceps e já com sete anos. Era fim dos anos trinta. Era o início de outra vida para aqueles três. Aos que ficaram na casa aquela cena não rendeu muito, nem comoção. Mal a carroça partiu, quando ainda se ouvia os últimos soluços de dor e tristeza do pequeno Pedro, seguiram em seus afazeres domésticos.
Foi assim que meu pai perdeu o medo do desconhecido.
Foi assim que meu pai perdeu o medo da vida.

Não olhe para trás.

2.

Rocha é um agregado sólido que ocorre naturalmente e é constituído por um ou mais minerais. O estudo científico das rochas é chamado de petrologia. "Pedra" se referem a pedaços ou fragmentos soltos de rochas. Para ser considerada uma rocha, os agregados de pedra têm que ter volume suficiente e ocorrer repetidamente no espaço e no tempo.

Meu pai era Pedro e era Rocha e se manteve firme no espaço e no tempo inscrevendo sua jornada. Um tempo nem. Um tempo de até agora.

Minha mãe, não. Minha mãe é Maria, como outras tantas Marias dos sertões, e só teve nome singular mesmo porque quis e foi lá e colocou.

Bora, Dezita, levanta. Tá na hora de fazer café. Mas o dia nem raiou, mãe. Não raiou para ele, para mim já tá dia. Bora, vai pegar água na cacimba.

Nem bem com sete anos, a menina colocou os chinelos no pé, fez um coque nos cabelos, pegou as latas e caiu estrada de sertão. Seco. Muito seco. Bem seco. A cacimba mais próxima fazia quatro quilômetros para ir, para voltar mais quatro. Ainda assim chegava antes do sol nascer. O dia ia ser longo. Os dias sempre eram longos por ali. Botava lenha no fogão e tacava fogo. Jogava o resto da água que foi pegar no pote. A mãe já vestida para pegar algodão, era o que dava ali naquelas paisagens. Era do que viviam. Uma família de onze filhos. Muitos já no mundo. Ela esmirradinha. Filha caçula. Trabalhava mais que as filhas mais velhas. Todas esperando a menina passar café para ir pra plantação. Ali iria o dia inteiro. Até de noite. A menina ainda tinha que fazer o almoço e levar pra mãe e irmãs na colheita. Foi assim que ela se criou. Não tinha nem gordura no corpo. Não tinha nem tempo de crescer muito. Nem nome tinha. Só apelido. Dezita. Isso porque o irmão mais velho era o Dezito. Mas também não tinham nem porquê se diferenciarem naquele mundo seco do sertão. Todos eram Marias e Josés e se se mantivessem vivos no outro raiar do dia já era de bom tamanho.

Não durou para a menina ir pra capital do Ceará. Empregada doméstica. Era isso ou morreria de fome em Irauçuba, a cidade onde a seca batia mais forte, como era apelidada por quem viveu lá. Ali não chovia fazia mais de década. Choveu até na cidade vizinha, mas ali, não. Ali era cagado pelo cão, como ainda diziam por lá.

A Maria pequenina foi embora morar na capital. Crescer fazendo crescer as crianças da "comadre", como se chamava a patroa naqueles tempos de mil novecentos e quarenta. Era família rica, abastada, de Fortaleza. A menina tinha até um quartinho só para ela. Lá no fundo do jardim da casa grande. Tinha campainha ali. Se comadre precisasse, não precisava nem gritar, era só apertar a campainha, seja noite, seja dia. Coisa chique. Coisa de gente fina.

Pois Maria quando foi casar é que foi botar nome singular. Tiveram que correr para tirar certidão de nascimento. Se nem nome tinha, que dirá certidão, essas coisas que só gente da capital tinha. Foram lá no cartório. Comadre foi junto. A menina já ia fazer vinte anos. Agora tinha um noivo que prometeu casar com ela. Até data já tinha.

Diante do tabelião, nas primeiras horas de pegar documentação, a menina, inquieta, já pensava que nome queria para si. Só Maria não. Tinha Maria, mas tinha que ter um para ela também. Pensou no irmão querido. Pensou no apelido. Foi lá. Voz trêmula de alegria. Maria Dézia Barroso.

Se meu pai era pedra e rocha, minha mãe era barro. A mulher que nasceu de si mesma.


Adriano Barroso está na carreira artística há trinta anos. Atuando também como dramaturgo, roteirista e documentarista. Tem dois livros publicados: A Farsa do Boi ou o desejo de Catirina, peça de teatro inspirado nas tradições do boi bumbá e Ato - Paixão segundo o Gruta, biografia do grupo de teatro de maior longevidade de Belém do Pará.
Como roteirista com quatorze roteiros filmados entre curtas de ficção e animação, documentários e séries de tv (infantil e adulto); Documentarista, Barroso, tem três documentários filmados: Ópera Cabocla; Chupa-chupa; e Paradoxos, Paixões e Terra Firme, que lhe renderam alguns prêmios nacionais como melhor documentário. 

foto: Kelly Pozzebon


Fabio Maciel é escritor, ilustrador e otras cositas mas. Nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1978, onde vive. Já publicou mais de dez livros para crianças, jovens e adultos. Mais sobre o autor em <fmaciel.com>.

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