Sexo! Sexo! Sexo!

Ian Uviedo

NOTA INTRODUTÓRIA A UM PEQUENO TRECHO

Dizer que Sexo! Sexo! Sexo! é um livro meu, quero dizer, somente meu, é inexato. Para começar, toda a ideia da publicação foi concebida junto ao artista plástico carioca Arthur Cabral Braga, que faria - e fez - as ilustrações. Além disso, o argumento, ou o mote, parte de uma história real que aconteceu com um amigo que, quando de sua estadia em Recife, teve que tolerar uma hóspede inconveniente. Muitas das peripécias de Adrienne - o nome da hóspede no livro - realmente aconteceram e foram o pontapé inicial para uma história que envolvia humor mas também melancolia e ódio. Antes de tudo isso, porém, o título já existia e me parecia promissor, de modo que o lancei numa espécie de experimentalismo boêmio que consistia em anunciar aos quatro ventos, ou melhor, aos quatro vértices das mesas dos botecos que eu estava trabalhando num livro onde a santíssima palavra aparecia três vezes e, o que é melhor, acompanhada de pontos de exclamação. Essa grafia me lembrava em algo a estética da boca do lixo paulistana dos anos 60, encabeçada por figuras como Rogério Sganzerla, e o título Abra os olhos e diga ah!, do Piva, que muito vinham me agradando, sem falar nos Sexus, Nexus e Plexus de Henry Miller. Assim, as pessoas, amigos próximos e camaradas da noite, ao tomarem conhecimento da iminência de tão ambicioso - e descarado - projeto, nem hesitavam, entre um copo de conhaque e uma mãozada de batatinhas fritas, a começar a me contar suas experiências eróticas, sexuais ou simplesmente cômicas, me fornecendo, num par de meses, ideias o suficiente para começar a empreender tal imprudência. Sexo! Sexo! Sexo! é uma novela divertida, não tenho dúvidas, e busquei trabalhar na linguagem mais fluida possível, criando um narrador próximo de mim e ao mesmo tempo odioso para mim (e o que nos aproxima mais de nossas essências do que o ódio que sentimos diante do espelho?): um escritor branco e sustentado pelos pais, cujo caráter é moldado no vácuo que existe entre o niilismo e a sensibilidade poética.Talvez eu compartilhe apenas de uma dessas características, mas o que houve é que o narrador se tornou um bode expiatório de toda uma espécie, creio, em extinção. A ação é localizada no centro de São Paulo, para onde eu havia acabado de me mudar, cenário que espelha a degradação social, filosófica, moral e econômica de meus personagens e onde, diga-se, se passam quase todos os meus textos.

Quando escrevi a primeira linha do Sexo, algumas semanas antes da pandemia, era noite e eu estava na Ria Livraria. Com o agravamento da situação sanitária, me tranquei em meu apartamento, quase como todo mundo, e, sem saber o que fazer nem o que aconteceria, continuei escrevendo. Não demorei muito para terminar a primeira versão, e por algum tempo minha única diversão foi movimentar por uma São Paulo que já começava a ficar para trás meus personagens: Julio, o narrador; Adrienne, a hóspede artista plástica amalucada; Marisa, a namorada de Julio que, num ponto crucial da narrativa, conta uma história sobre bois que deixa todos boquiabertos; Ivan, o livreiro beatnik apaixonado por Julio; Ricardo, o amigo que Julio abandonou, cuja situação acaba por movimentar a história rumo ao fim; Laura, ex-namorada de Julio que permeia toda a novela como a promessa de algo que será revelado; Davi, nêmesis; Israel, amigo da mãe de Julio, dono de uma história que dá sentido ao todo; e, por fim, a própria mãe de Julio, que é, ao meu ver, junto a São Paulo, a verdadeira protagonista do livro. E também existe Amêndoa, um vira-lata que transa almofadas. De forma não proposital, o Sexo acabou se tornando, para além de uma carta de amor aos meus amigos, uma carta de despedida para um mundo que apenas começava a ruir. Um mundo que, por mais melancólico e miserável que fosse, era sortido de eventos, encontros e, o que mais me encanta, era regido pelo acaso, uma dádiva - por onde Deus escreve seus poemas, disse Marçal Aquino - que a pandemia nos roubou e que agora estamos recebendo de volta, aos poucos, sem compensação fiscal.

Sexo! Sexo! Sexo! é um livro pronto. O texto está pronto e as ilustrações também. Não o publicamos, e freamos qualquer iniciativa de publicá-lo, por uma série de razões. Algumas delas me escapam. Meses depois de colocar o ponto final, dei continuidade a uma outra novela, esta chamada Café-teatro, e a terminei. Logo ela sairá pela editora Laranja Original com prefácio de Mário Bortolotto e lançamento presencial na Ria. Café-teatro, devo dizer, também tem sua dose de erotismo e muito, muito de São Paulo em suas páginas. Enquanto isso, Sexo! Sexo! Sexo! vai ficando guardada, até que uma força do acaso a arranque da gaveta e a coloque em marcha por estas ruas. Estas ruas que, felizmente, estamos começando a reconquistar.


SEXO! SEXO! SEXO!

Um pouco de contexto: após chegar em casa e ver a casa zoneada pelo cachorro que Adrienne deixou sair de seu cercadinho, Julio e sua hóspede saem para a rua porque ela quer conhecer a cidade. Após um ensaio contra o turismo e a banalização do espaço histórico, os dois se decidem a ir a um bar que também é uma livraria. O lugar, claro, é a Ria Livraria. Há uma promessa de chuva no ar.

Alcoólatra ou boêmio, eu só queria ficar bêbado. Sentamos do lado de fora, encomendei uma seiscentos e Adrienne uma caipirinha. Também pedi uma vasilha com água para Amêndoa. Falei que aquele era o meu bar preferido, coisa e tal, mas ela não ligou. Estava encantada analisando os pôsteres nas paredes do lado de dentro. Ao espaço de pequenos intervalos, ela perguntava quem era um ou outro escritor. Por fim, elegeu sua foto favorita: Cortázar olhando para a câmera com um gato cinzento no colo.

"Você já reparou que os escritores estão sempre com gatos?", perguntei.

"É verdade. Por que isso?"

"Não sei. Existem várias teorias. Prefiro imaginar que todos eles, Cortázar, Marguerite Duras, Hemingway, Borges, todos eles deviam viver com as roupas cheias de pêlo de gato."

Adrienne achou isso engraçado. Seus dentes eram bonitos. Assim que ela entrou para ir ao banheiro, começaram as primeiras gotas. Gotas gordas e agressivas que precedem um temporal. Amêndoa, deitado, mexeu as orelhas e ergueu a fuça. Acendi um Rothman's.

As colunas de vento e água se deslocando me lembraram de Madri, quando estive lá, dois anos antes daquele momento, durante um verão chuvoso.

Laura e eu estávamos hospedados num palacete assobradado em Chamberí. O apartamento era espaçoso e bem iluminado por quatro janelas. Na paisagem se via o Andén 0, uma estação de trem desativada onde se construiu o museu do transporte, e a mancha prateada do Teatro del Canal. Chovia todos os dias. Nós dois íamos a pé até a Plaza Colón, onde conhecemos o Café Elefant, uma bodega rústica em que se pode arranjar uma jarra de Clericot por um par de euros. Numa noite, Laura descobriu um descampado atrás do Café. Quando as ruas se esvaziaram, fomos até lá e ficamos atirando pedras contra garrafas de San Miguel. Nas minhas andanças, deparei com uma loja de velas. A parede do balcão era totalmente coberta por cera colorida.

Nossas noites no palacete da Calle de Ríos Rosas foram iluminadas, uma a uma, por velas roxas, amarelas, laranjas, azuis, de todos os formatos e tamanhos. Algumas eram eróticas. O artesão esculpiu uma mulher tentando lamber a própria boceta, em cera vermelha. Além dessa, me lembro de um casal amarelo fodendo no estilo 'cachorrinho' e de um caralho do sétimo dia, rosa e preto.

No pátio havia uma fonte desativada e uma piscina modesta, geralmente coberta por flores de amendoeira que o vento trazia do quintal vizinho.

Certa noite, retornando do Café Elefant depois de umas três jarras de Clericot, matamos uma garrafa de vinho do porto no quarto e Laura começou a tirar a roupa. Molhei dois dedos de saliva e encostei em sua buceta. Ela gemeu, e quando tentei beijá-la, ergueu-se e saiu do quarto. Fiquei perplexo: havia outros hóspedes por ali. Tonto de vinho, porém, saí do quarto descalço, usando só calça e uma camisa social meio aberta. Não vi Laura.

No verão espanhol os dias costumam ser chuvosos para abrir espaço a noites frescas. Olhei para a cidade acima dos ciprestes, intensa na luminosidade, e inspirei até os pulmões doerem. Me sentia deliciosamente longe de tudo. Depois de alguns segundos de olhos fechados, escutei rumor de água. Encostado na murada de proteção que serpenteava o nível de todos os quartos, olhei para baixo e aí sim vi Laura, nua, boiando. As luzes da pensão e a lua carimbavam sua sombra no fundo da piscina. De olhos fechados, estava tão relaxada que parecia estar dormindo.

Desci as escadas num salto e quando vi já estava dentro da água. Laura agarrou meus cabelos e mergulhamos juntos. Nus e submersos, envoltos pelas pétalas, toquei seus seios. Voltando à superfície ela me beijou e trepou com as pernas em mim. Fomos até a borda da piscina. Meu pau já estava duro, e ela o envolveu com a mão esquerda, me guiando até a boceta. Meti com força - pelo menos a força possível, subtraindo aí o repuxo e a lubrificação prejudicada pelo cloro -, e seu rosto veio aninhar-se no meu pescoço. Continuamos assim por um tempo até as portas acima de nossas cabeças começarem a abrir. Só nesse momento percebi o quanto Laura gemia alto. As pessoas estavam ofendidas diante de tanta beleza. Bêbado e em transe, tive vontade de ameaçá-las, rir na cara de cada uma delas. Alegavam sono, crianças, família, respeito. Nos desvencilhamos e eu afundei. Laura gargalhava.

IAN UVIEDO é escritor, livreiro e artista. Autor de Éter - Novela de Narcolepsia (Ed. de Los Bugres, 2019) e Café-Teatro (ed. Laranja Original, 2021, no prelo) . De forma independente, publicou uma dúzia de zines que variam entre contos, poesia, fotografia experimental e livro de artista. Já levou suas performances poéticas para diversos palcos do país e se apresentou ao lado artistas como Juçara Marçal e Arrigo Barnabé, além de ter sido convidado para integrar a mostra Falares, pertencente ao acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa. É editor da revista eletrônica RevistaRia. Faz experimentos audiovisuais, e em 2020 teve uma série de videopoemas publicados na revista Saccades, da Califórnia. Também em 2020, foi indicado pela revista Forbes como uma das personalidades de maior destaque da cena literária e poética brasileira com menos de 30 anos. Vive em São Paulo.